O Pedido_ Rubem Fonseca

Um dos melhores contos de Rubem Fonseca pode ser considerado também o menos violento . Ou melhor, nada violento e também nada picante como muitos de seus contos. O pedido é um conto que faz parte do livro Feliz ano Novo. Um bom livro que foi censurado pelo regime militar e que voltou a ser editado mais tarde depois de processo do autor.

O PEDIDO

Durante dois dias Amadeu Santos, português, viúvo, biscateiro, rondou o depósito de garrafas de Joaquim Gonçalves, sem coragem de entrar. Mas naquele dia chovia muito e Amadeu estava cansado, com a perna doendo do reumatismo. Além disso, a bronquite crônica fazia-o tossir sem parar.

Amadeu caminhou pelo meio das pilhas de garrafas empoeiradas até o fundo do depósito, onde, sentado uma mesa, estava Joaquim. Eles, ainda meninos, haviam emigrados juntos e não se viam há cinco anos, desde que brigaram por motivo que Amadeu nem se lembra mais. Mas de qualquer forma, estavam brigados, mesmo que Amadeu não soubesse por quê. Mas Joaquim devia saber, e isso tornava ainda mais constrangedora a visita de Amadeu.

Joaquim estava sentado numa velha secretária, fazendo contas a lápis, num pedaço de papel de embrulho pardo. Era um homem calvo, e os cabelos restantes estavam grisalhos. Joaquim, ao ver Amadeu, não o reconheceu imediatamente. Amadeu era em sua lembrança um homem forte e bonito e à sua frente estava um rebotalho magro e abatido, visivelmente minado pelas privações e pela doença.

Como estás, Joaquim?, disse Amadeu, sem coragem de lhe estender a mão.

Vou indo, como Deus manda, respondeu Joaquim, secamente.

E os negócios como vão?

Não me queixo, disse Joaquim imaginando qual seria o propósito da visita de Amadeu.

As surradas roupas deste, os sapatos velhos, mostravam que Amadeu não estava bem de vida. Mas os negócios não são mais como antigamente, acrescentou Joaquim já prevendo um possível pedido de dinheiro. Não creio que ele tenha a audácia de me pedir alguma coisa, pensou Joaquim, afinal somos inimigos, não nos falamos há anos

Posso me sentar? , perguntou Amadeu, que sentia as pernas doendo.

Senta, disse Joaquim.

Amadeu sentou-se e ficou em silêncio, olhando para o chão .

Joaquim voltou a fazer as contas no papel, mas, de vez em quando, levantava os olhos e observava Amadeu. Somos da mesma idade mas eu não estou assim tão acabado, pensou com uma sensação amarga de desforra. Também sentiu, bem no íntimo, um sentimento de pena, contra o qual lutou. Nos últimos cinco anos ele esperara aquele momento de vingança. Mas não sentia nenhum prazer.

Sem tirar os olhos do chão, Amadeu disse: Será que podias me emprestar quinhentos cruzeiros? Não ando bem de saúde e tive que parar de trabalhar.

Joaquim levantou os olhos e disse: Quinhentos cruzeiros? Pode não parecer mas isso para mim é muito dinheiro.

Eu sei, mas não tenho a quem pedir, disse Amadeu humildemente. No fundo de suas olheiras doentes, seus olhos estavam opacos de vergonha. E o teu filho doutor? Por que não pedes a ele? Disse Joaquim com escarninho.

Meu filho morreu.

Amadeu contou que o filho Carlos, logo depois de formado, havia se casado com uma colega da faculdade, uma moça baiana, e que os dois haviam se mudado para a terra dela, onde pretendiam clinicar. Um ano e meio depois, já com um filho pequeno, Carlos morrera num desastre de automóvel. Até hoje não conheço meu neto, disse Amadeu.

Joaquim brigara com Amadeu por causa do filho médico deste. Joaquim também tinha um filho, Manuel, que era um vadio, ignorante, não gostava de estudar e nem terminara o ginásio. As relações dos dois foram se envenenando à medida que Carlos fazia os cursos e Manuel passava os dias vagabundeando pelas ruas. No dia em que Carlos se formou, Joaquim sentiu-se pessoalmente afrontado, deixara de falar com Amadeu.

Dinheiro não dá em árvores, disse Joaquim num tom mais ameno. Passei anos e anos invejando um morto, pensou ele. Por que não vendes o carrinho de mão?

Já vendi, respondeu Amadeu. Ele podia ter acrescentado que um dia, ao fazer um carreto de móveis, desmaiara na rua Leandro Martins e tivera de ser hospitalizado `as pressas O carrinho de mão fora vendido para pagar as despesas. Amadeu também não disse que devia há seis meses o aluguel do miserável quarto que habitava, e que se alimentava apenas de uma magra sopa por dia.

Por que não pedes dinheiro à sua nora?

Tenho vergonha,disse Amadeu. Ele se sentia como se estivesse nu, no meio de uma praça, e sujo. Mas estava disposto a aguentar a humilhação até o fim.

Para que queres tanto dinheiro? Uma passagem para a Bahia custa menos.

Eu queria dar algum ao meu senhorio., disse Amadeu. Ele tem sido muito bom comigo. È o Magalhães, da Covilhã, não sei se conheces.

Joaquim não conhecia.

A miséria de Amadeu, e principalmente a morte de seu filho doutor, haviam dissipado parte do antigo ressentimento.

Não sei se tenho todo esse dinheiro aqui, disse Joaquim, levantando-se e indo até um velho cofre no canto da sala. Amadeu percebeu que Joaquim ia lhe emprestar o dinheiro, e em sua mente começaram a desfilar histórias de sua vida nova na Bahia, com a nora ( que não se casara novamente) e o neto. Há anos que sua mente cansada não era povoada de ´pensamentos tão felizes. A sua perna, que desde que chegara no depósito de garrafas doía horrivelmente, parou de doer. Seu coração se encheu de carinho pelo seu patrício e amigo, e lembrou-se da viagem que haviam feito ainda meninos, no navio de emigrantes, da adolescência passada juntos, sem dinheiro, mas com saúde, e em mínimo detalhes recordou, como se tivesse ocorrido no dia anterior, de uma festa na igreja da Penha, num domingo, eles deitados debaixo de uma árvore, com as moças, que viriam a ser suas mulheres, tomando vinho de um garrafão e se embriagando maravilhosamente. Preciso dizer alguma coisa boa para ele, pensou Amadeu, até agora só contei as minhas desgraças e pedi dinheiro.

Como vai o Manuel? Ele está bem?, perguntou Amadeu.

Joaquim estava curvado sobre o cofre, contando o dinheiro quando Amadeu fez a pergunta. Ele parou como se tivesse levado um choque.

O que?, exclamou Joaquim.

Como vai o Manual? , repetiu Joaquim surpreendido com o tom de voz de Joaquim.

Joaquim jogou o dinheiro de volta dentro do cofre, fechando a porta com força.

Por que me pergunta uma coisa dessa?, falou Joaquim com mágoa maior do que a raiva que sentia.

Eu…eu_ balbuciou Amadeu.

Sabes muito bem como vai esse cretino!

Eu não sei de nada, protestou Amadeu. Mas Joaquim não prestou atenção ao que Amadeu dizia e gritou:

O vagabundo não faz nada, nem pra garrafeiro ele serve. Dorme o dia inteiro e à noite sai pra passear. Um homem de mais de trinta anos vivendo às custas do pai, do pai não, da mãe, que é uma cabeça d´´alho chocho e tira dinheiro do meu bolso pra dar pra ele. Um dia eu o mato, o parasita inútil.

Eu não sabia…, disse Amadeu tristemente. Antes um filho morto, ele pensou. E uma lágrima seca, feita quase somente de sal, escorregou do seu olho, uma lágrima pelo filho dele e pelo filho de Joaquim.

Quando viu a lágrima brilhante escorrendo lentamente pela face de Amadeu, Joaquim calou-se constrangido. Lentamente Amadeu levantou-se e , antes de sair caminhando com dificuldade, disse, adeus.

Joaquim ficou sentado um instante curto. Eu não sou essa pessoa, ele pensou envergonhado com sua mesquinhez, e correu em direção à porta da rua gritando, Amadeu! Amadeu! Volta, eu te dou o dinheiro, volta!

Mas ao chegar à rua, esta estava deserta. Joaquim ainda gritou o nome do amigo algumas vezes, enquanto escorriam pelo rosto lágrimas abundantes e úmidas, de homem gordo e forte

Postado por FERNANDO às 17:37

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