Em um cenário de crise econômica, Instituto da Criança e Desiderata mostram caminhos para a proteção de crianças e adolescentes no Rio

por Cristiane Simões

Não venha meteoro, há luz no fim do túnel. As iniciativas positivas e instigantes, que foram apresentadas nos encontros do LabJuntos ao longo de 2017, mostraram ser possível formar uma rede para trocar experiências e melhorar a nossa sociedade. Ao participar do décimo evento sobre o “Investimento na Infância”, renovei ainda mais minhas esperanças ao conhecer algumas iniciativas sociais que estão ocorrendo no Rio –projetos sérios que vale a pena conhecer!

Os palestrantes convidados foram Roberta Marques, diretora-executiva do Instituto Desiderata, e Pedro Werneck, presidente do Instituto da Criança, que explicaram alguns projetos com foco em Saúde e Educação para crianças e adolescentes.

Em duas horas de bate-papo, as experiências do dia a dia de Roberta e Pedro à frente das organizações foram compartilhadas com uma plateia cheia de ideias e conexões, formada por educadores, empreendedores, diretores e gestores de ONG’s, como Cruzada do Menor, Gamboa Ação, Instituto Bola para Frente, Colégio Padre Antonio Vieira, Instituto Lecca, Centro Cultural Banco do Brasil.

As crianças, as mais vulneráveis

Roberta Marques do Instituto Desiderata

Roberta iniciou sua apresentação trazendo dados alarmantes do relatório da ONG britânica Oxfam. Segundo o estudo, 1% da população global detém a mesma riqueza dos 99% restantes. Uma desigualdade que é enorme no mundo. O recorte brasileiro das estatísticas indicou que seis pessoas possuem fortuna equivalente ao patrimônio de 100 milhões de brasileiros — isso mesmo que você leu: 100 milhões. “Ao pensarmos no Brasil, as crianças certamente são aquelas que são mais vulneráveis nesse contexto de desigualdade. Uma das formas de diminuir essa diferença é aproveitar políticas e práticas públicas que vão fortalecer os sistemas de Saúde e Educação”, informou a diretora-executiva.

Os direitos básicos no Brasil são garantidos, porém os recursos são escassos e, muitas vezes, de baixa qualidade. O Desiderata tem o papel de fortalecer e dialogar com o setor público. O objetivo é torná-lo mais justo, eficiente e de qualidade para chegar a mais pessoas. De acordo com Roberta, no setor de Saúde, o câncer é a doença que mais mata criança e adolescente, ao mesmo tempo, que tem grande chance de cura se for descoberto cedo.

“Em países desenvolvidos, a recuperação da doença pode chegar até 90% dos casos, mas essa não é a mesma realidade de países em desenvolvimento como o nosso, que varia de 40% a 60%. Entretanto, é um problema absolutamente superável: se existe a cura em algum lugar deveria existir algo acessível para todas crianças e adolescentes aqui também”, enfatizou Roberta.

Na prática, a entidade investiga um problema social, traz todos os envolvidos para o diálogo a fim de criar uma solução em conjunto, sem fórmulas prontas. Também apoia o processo de implantação de projetos, estabelecendo as ações e monitorando o que está sendo feito.

Entre tantas doenças existentes que acometem a população brasileira, o câncer infantil não era prioridade nas políticas públicas, com isso o Desiderata decidiu, há 12 anos, estudar e trabalhar com a questão para acelerar o diagnóstico. “As crianças estavam chegando muito atrasadas no tratamento”.

Um dos projetos é o “Unidos pela Cura”, do qual o instituto faz a secretaria executiva, fortalecendo a rede pública de atenção ao câncer infantojuvenil, de forma a garantir o diagnóstico precoce e acesso ao tratamento de qualidade por meio de um fluxo de encaminhamento. Também inclui a formação de profissionais de saúde para passarem a fazer um diagnóstico diferencial da doença e conhecer as etapas do projeto.

A família ao levar a criança em um posto de saúde, se o médico identificar suspeita da doença, ele marcará uma consulta em até 72 horas em um hospital polo de investigação. Também preencherá o cartão de acolhimento “Unidos pela Cura” e entregará para os pais. O cartão é a base de registro e acompanhamento em sistemas informatizados. Após a investigação, se for diagnosticado o câncer, a criança é encaminhada a centros especializados para o início do tratamento. Esse fluxo foi construído em conjunto com gestores da sociedade civil.

Ao todo, 3.569 profissionais fizeram o treinamento, o que representa 20% da rede. Além disso, 76% das unidades do município já entregaram o cartão e 45% dos encaminhamentos são até sete dias. O monitoramento é registrado nos sistemas e no boletim anual — veja aqui: http://desiderata.org.br/assets/boletim_panorama_2016_web.pdf . A cada dois anos acontece o Fórum de Oncologia Pediátrica no Rio. O instituto faz, ainda, aportes específicos, como impressão de cartões, cartazes e organização das reuniões.

O “Unidos pela Cura” se tornou uma política pública da prefeitura do Rio em 2010 e, atualmente, está sendo ampliado para o Estado do Rio de Janeiro.

O Desiderata também desenvolve ações de humanização dos ambientes hospitalares em cinco centros. Por exemplo, os equipamentos de ressonância foram pintados para simular um submarino e o técnico usa uma roupa de marinheiro. Ao fazer o exame, a criança imagina uma brincadeira. “Para se ter uma ideia, 75% das crianças que tinham orientação para tomar anestesia não precisaram do procedimento, porque ficam paradinhas na hora da ressonância”, destacou Roberta. Os desafios na Saúde são muitos, por isso é importante conhecer os projetos e participar. O câncer infantojuvenil tem cura.

Mudar o mundo ao nosso redor

Pedro Werneck do Instituto da Criança

Ao ouvir o Pedro Werneck contar a história do Instituto da Criança, fundado em 1994, e sua experiência com o trabalho solidário, dá vontade de arregaçar as mangas e começar a participar na mesma hora de algum projeto. Em sua apresentação no LabJuntos, ele apontou alguns mitos que fazem com que as pessoas adiem participar mais ativamente de ações sociais.

“O eixo ideológico do trabalho do Instituto é a solidariedade. Esse sentimento está no coração de todos. As pessoas desejam ajudar, mas às vezes se retraem porque tem medo de assumir compromissos e ter responsabilidade. Muitas vezes não avançamos em atos e, assim, a solidariedade acaba ficando adormecida”. Entretanto, Pedro tem convicção que a solidariedade quanto mais é ofertada, maior é a energia e o benefício para o cidadão. “Compreender isso é um grande ponto que o instituto trouxe na nossa história”, afirmou Pedro.

Atualmente a organização patrocina projetos e instituições no Rio e em São Paulo, além de realizar projetos educacionais de desenvolvimento comunitário. O objetivo é dar força, inspiração e ser uma ferramenta para promover mudança. “Acreditamos que somos seres humanos capazes de transformar a vida de outros seres humanos. Sim, é possível”. Na lista de iniciativas realizadas, estão o projeto Nosso Cuiabá, em Itaipava; Adote, que apadrinha crianças em escolas; Espaço Cidadão; A Gente que Aprende; Lar Santa Catarina, em Petrópolis; Semente do Amanhã, em Bangu, entre outros.

Segundo Pedro, os problemas que vemos na sociedade são muitos difíceis, parecem gigantescos, mas podemos mudar o mundo ao nosso redor. Ouvir e reconhecer as ausências para poder completar o outro. “Temos que ter a consciência do ambiente social em que vivemos e que possui diversas realidades. Não devemos apenas agradecer pelo que temos. Só agradecer é pouco. Precisamos ter coerência, esforçar para agir, fazer e criar. Todos nós temos um pouco de poder, o poder da competência, da palavra, mas o desafio é fazer um pouquinho a favor do outro”, propôs.

Pedro ressaltou que, às vezes, basta dar um telefonema ou escrever um e-mail para ajudar alguém. “Quantas pessoas procurando um emprego e você pode ajudar, escrevendo uma mensagem a alguém para apresentar o profissional”, disse. Melhorar a vida do outro está ao nosso alcance.

LabJuntos #10 | Investindo na infância