Entrevista LabJuntos #7 — Um passo decisivo pela Igualdade de Gênero

com Isabel Clavelin — assessora de Comunicação da ONU Mulheres Brasil

crédito: Ancine

1) Você poderia contextualizar como a iniciativa Planeta 50–50 em 2030 dialoga com outras, já existentes, como He For She ou os WEPs? Podemos dizer o que a Planeta 50–50 tem como diferencial estabelecer uma meta mais claramente definida, estabelecendo um eixo de ação que agrega essas outras iniciativas?

Em 2015, a ONU Mulheres lançou a iniciativa global “Por um planeta 50–50 em 2030: um passo decisivo pela igualdade de gênero”, voltada para governos, empresas, sociedade civil e mídia, para incidir na Agenda 2030 de Desenvolvimento Sustentável dos Estados-membros da ONU, com foco nos esforços políticos e econômicos que devem responder à urgência da eliminação das desigualdades de gênero e empoderamento de mulheres e meninas. Trata-se de um grande advocacy global que mira as decisões que precisam ser tomadas com urgência e a mobilização pública que altere o curso político que tem ampliado a falta de oportunidades e inclusão efetiva de mulheres e meninas no mundo. Por exemplo, em março deste ano, a ONU Mulheres apoiou os debates da Comissão da ONU sobre a Situação das Mulheres, a qual teve como tema o empoderamento econômico das mulheres e o mundo do trabalho em mudança. Evidenciou que as mulheres continuam como maioria no mercado informal, são a maior parte das pessoas com falta de proteção social, têm menos presença nos espaços diretivos dos sindicatos e estão alijadas da chamada revolução digital, que reserva os melhores postos de trabalho e remuneração — cerca de somente 20% das jovens estão nas áreas de ciência, tecnologia e exatas. Quando do lançamento da iniciativa Planeta 50–50, a ONU Mulheres passou a atualizar uma plataforma global, para acompanhar os progressos de compromissos dos governos com o empoderamento das mulheres e meninas por meio de leis e políticas de inclusão. Na época, o Brasil havia sido um dos primeiros países a fazer adesão. Hoje, são 93 países com ações efetivas, embora bastante pontuais. A plataforma online Planeta 50–50 é uma ferramenta de monitoramento público, que pode ser percebida também nas iniciativas ElesPorElas (HeForShe) e Princípios de Empoderamento das Mulheres (WEPs, na sigla em Inglês). Tais iniciativas expressam o esforço da ONU Mulheres em propor plataformas políticas para a conexão entre públicos e setores tradicionalmente envolvidos e o acionamento de agentes até então não engajados com os direitos das mulheres e meninas, estabelecendo medidas concretas que possam viabilizar compromissos efetivos e céleres não somente para a identificação das discriminações das mulheres e meninas, muitas delas ainda invisíveis ou à margem da agenda pública, mas também atuar de modo mais incisivo para transformar a vida das mulheres e meninas — do global ao local. A nossa diretora executiva, Phumzile Mlambo-Ngucka, tem dito que esta geração tem que garantir os direitos para esta geração. Isso nos dá um sentido de urgência e de ação para impedir que mulheres e meninas continuem a ter suas vidas sacrificadas pelas desigualdades de gênero, raça e etnia pelo fato de serem mulheres. No âmbito da comunicação, isso tem significado investimentos da ONU Mulheres na constituição de parcerias inovadoras em que o engajamento de cada nova aliança seja pública, passe a ser observada pela sociedade e influencie setores a se reconhecerem e mobilizarem como agentes ativos num outro patamar de articulação nos seus espaços de atuação em prol dos direitos das mulheres.

2) Quais são os principais desafios imediatos de implantar e engajar para um processo de mudança como o que propõe a 50–50?

A primeira questão é o reconhecimento de que mulheres e meninas estão à margem das decisões, da divisão de riquezas e de que as suas vidas estão vulneráveis em razão de seu gênero, raça, etnia, geração, sexualidade, território e acessibilidade, no mundo e nos lugares onde vivem, e que tudo isso precisa mudar. Ou seja, o desafio é colocar a disparidade das relações de gênero na agenda política e pública e evidenciar a diversidade das mulheres e as situações que ameaçam e tolhem a sua cidadania e a condição de sujeitas de direitos. O Planeta 50–50 se ancora nas 12 áreas de preocupação da Plataforma de Ação de Pequim, cujas metas e ações foram definidas, em 1995, e ainda estão distante de se tornarem realidade no mundo inteiro. A diretora executiva da ONU Mulheres, Phumzile Mlambo-Ngcuka, chegou a dizer, nos 20 anos da Plataforma de Pequim, que ela não seria viável no ano de 2015 devido ao conservadorismo dos países e que nenhuma não no mundo pode dizer que superou as desigualdades de gênero. Outros pontos importantes da iniciativa Planeta 50–50 foram a inclusão da igualdade de gênero como diretriz dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, presente em 12 dos 17 objetivos globais, e que a demanda de metade da população mundial deve fazer parte das prioridades de financiamento da agenda de desenvolvimento sustentável, o que significa aportes de recursos de governos e empresas.

3) De que maneira a sociedade civil e empresas podem ajudar a superar esses desafios e alcançar a meta proposta?

A sociedade civil, especialmente os movimentos de mulheres e feministas, tem sido uma parceira histórica da ONU Mulheres. Isso inclui a trajetória da agenda de direitos das mulheres na ONU, desde a Carta das Nações Unidas, até a criação da ONU Mulheres, em 2010. Ou seja, a agenda de direitos das mulheres no âmbito da ONU tem evoluído em razão do advocacy das mulheres organizadas em diferentes partes do mundo. Hoje, a ONU Mulheres está posicionada, em âmbito global, para fortalecer a construção dos movimentos de mulheres e feministas (building movements) e fazer-se mais presente junto à cidadania — grandes audiências, para que a disputa política em torno dos direitos das mulheres seja compreendida e tenha adesão de outros setores com base na agenda política da sociedade civil. No Brasil, a ONU Mulheres trabalha com muita proximidade e parceria com os movimentos feministas e de mulheres, entre elas negras, indígenas, rurais, jovens e defensoras de direitos humanos. O setor privado é um dos novos agentes priorizados na agenda de trabalho no mundo e no Brasil. No país, cerca de 120 empresas já assinaram os Princípios de Empoderamento das Mulheres, com vistas à transformação da cultura organizacional, influência no setor e na cadeia produtiva. No mundo, a ONU Mulheres vem mobilizando empresas em torno do conselho assessor de grandes empresas para doações de recursos para o mandato da instituição e como um dos públicos-alvo da mobilização ElesPorElas (HeforShe) por meio de CEOs champions em igualdade de gênero. Recentemente, houve o engajamento de grupos de comunicação para o Pacto de Mídia Planeta 5050, que visa o aumento de mulheres nos postos de decisão nas empresas de mídia e no aprimoramento da cobertura editorial e de entretenimento, e a composição da Aliança Sem Estereótipo, lançada neste ano, no Festival de Cannes para a eliminação de estereótipos sexistas na publicidade, envolvendo agências e anunciantes.

4) Nota-se que há um entendimento que a gestão e organização das cidades tem um grande papel na estratégia do 50–50. Por quê?

A mudança para um Planeta 50–50 significa o envolvimento de diferentes setores e a sua proximidade com as mulheres. Para quem está na gestão municipal, costuma-se dizer que a vida acontece nos municípios. Em razão das eleições de 2016 e da persistente baixa eleição de mulheres nos pleitos eleitorais, a ONU Mulheres Brasil avançou para a chamada localização dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável, estabelecendo a ponte entre o global e o local e a construção de uma proposta objetiva de que a agenda da igualdade de gênero deve ser incorporada por homens e mulheres ocupantes de cargos públicos. De modo inédito, a ONU Mulheres avançou em uma agenda para os municípios por meio do projeto Cidade 50–50: Todas e todos pela igualdade, que corresponde aos compromissos das gestões municipais com a igualdade de gênero em seis áreas (governança e financiamento; empoderamento econômico, participação política; educação inclusiva; enfrentamento à violência contra as mulheres; e saúde), além de fazer a defesa pública do aumento da liderança e da participação política das mulheres nas eleições. O advocacy está baseado na democracia paritária, isto é, de que a democracia somente se efetivará com a igualdade de gênero e pela plena liderança e participação política das mulheres, o implica gabinetes paritários, políticas elaboradas e implementadas em atenção às necessidades das mulheres com vistas ao seu empoderamento e orçamento destacado para enfrentar as desigualdades de gênero, raça e etnia, assegurando, assim, os direitos das mulheres por meio da sua cidadania — do lugar onde vivem até os altos postos de tomada de decisão do país.

5) Você poderia falar um pouco sobre o seu perfil? De que forma o tema Igualdade de Gênero entrou na sua trajetória e qual o seu papel dentro da ONU Mulheres na divulgação e no engajamento para essa causa?

O meu trabalho profissional tem sido muito próximo aos meus interesses políticos e acadêmicos. Desde os primeiros anos de graduação, me aproximei do movimento de mulheres negras como ativista e no trabalho em projetos de comunicação, tais como em emissora de rádio da universidade, na cobertura voluntária do Fórum Social Mundial, na imprensa negra e em iniciativas de comunicação comunitária com mulheres negras na periferia de Porto Alegre e com adolescentes em educomunicação e prevenção do HIV/aids. Por conta disso, fui convidada para trabalhar na divulgação da 1ª Conferência Nacional de Políticas de Promoção da Igualdade Racial pela Articulação de ONGs de Mulheres Negras Brasileiras, da Secretaria da Igualdade Racial, e, posteriormente, trabalhei na Secretaria de Políticas para as Mulheres. A experiência profissional e as inquietações na área de comunicação do governo federal acerca da cobertura da mídia brasileira sobre a questão racial me conduziram para o mestrado em comunicação na UnB, em que analisei a cobertura noticiosa da Folha de S. Paulo sobre a questão racial negra no período de dez anos. O trabalho na ONU Mulheres trouxe novas questões pela demanda e potencial de trabalho na área de comunicação, gênero e raça. Uma das frentes de trabalho — a elaboração do curso de gênero, raça e etnia para jornalistas –, suscitou novas inquietações que me animaram a seguir os estudos no doutorado em comunicação na UnB, cuja tese é sobre as dimensões de raça e de gênero no jornalismo como profissão. Ao longo desse período, cresceu a minha convicção sobre o papel político e o caráter estratégico da comunicação não somente pela visibilidade de sujeitas e sujeitos, a produção e a circulação de discursos por meio da comunicação, mas também pela contribuição que o trabalho especializado pode trazer, sobretudo, para um momento político conturbado no país, em que é necessário arrolar outras estratégias para visibilizar os direitos das mulheres e o enfrentamento ao racismo. No escopo do trabalho da ONU Mulheres, tais questões se materializam na iniciativa Planeta 50–50 no âmbito da Agenda 2030 e da Década Internacional de Afrodescendentes 2015–2024, para a eliminação do racismo e da discriminação racial, sobretudo no Brasil, segundo país no mundo em população negra.

crédito: Onu Mulheres Brasil