Evento “Fake News — A Roupa Nova da Mentira” termina em discussão no LabJuntos

por Maria Estrella

O que era para ser uma saudável troca de ideias, transformou-se num acalorado bate-boca que, por pouco, não terminou em agressão física. O nono evento da LabJuntos “Fake News — A Roupa Nova da Mentira”, realizado na Juntos no final da tarde do dia 18 de outubro, comandado e assistido por jornalistas de renome, pegou fogo por conta de divergências políticas, em tempos em que pensar diferente virou sinônimo de julgamento de caráter.

Calma, não foi bem assim. Você acaba de “cair” numa notícia falsa. O evento “Fake News” não apenas foi pacífico, como rico no debate e no aprendizado, com palestrantes do quilate dos jornalistas Luarlindo Ernesto, 75 anos de idade e 59 de profissão, o também documentarista Guillermo Planel e os profissionais da Approach e Juntos Sérgio Pugliese e Marcelo Vieira. Tema recorrente no meio jornalístico, as notícias falsas ganharam o mundo com a internet e as redes sociais, com compartilhamentos e envios feitos por robôs e pessoas. Ficou claro como ler e acreditar, sem apurar, dá margem a julgamentos apressados e tem um elevado efeito nocivo, capaz de destruir vidas. O próprio nazismo se valeu disso, quando o Ministro da Propaganda de Hitler defendia que “uma mentira repetida mil vezes torna-se verdade”. O personagem do momento é Donald Trump, presidente dos EUA, que, já nos anos 80, se passava por seu porta-voz, ligava para a imprensa e divulgava informações mentirosas, sempre com o objetivo de estar em evidência.

Todos ressaltaram que o fenômeno não é recente, apenas se fortaleceu com os compartilhamentos e impactos nas conhecidas redes sociais como Facebook, Whatsapp, Twitter e Instagram. Luarlindo citou o caso do Palácio Monroe, construído em 1904, cuja campanha de demolição, mobilizada pelo jornal O Globo, alegava que as obras do Metrô iriam afetar as estruturas do palácio. No final das contas, apesar de todos os protestos, a demolição aconteceu em 1976. O mobiliário, as obras de arte, os quatro leões de mármore de carrara e as toneladas de ferro da estrutura do Monroe compensaram todos os gastos e nada foi provado de que a região foi realmente afetada pelo Metrô. Em outro momento, Marcelo Vieira aproveitou para contar que desde a Idade Antiga, entre os anos de 527 e 565 D.C., o historiador Procópio já inventava histórias sobre o imperador Justiniano.

Ficou claro no debate a necessidade urgente da apuração em defesa da credibilidade da notícia. E que, mesmo o Facebook — que tem se posicionado no combate às fake news junto com o Google — pode ser utilizado profissionalmente como uma plataforma de comunicação positiva. Palestrantes e plateia foram unânimes que a questão política atual e a intolerância têm acirrado os ânimos e favorecido a disseminação das notícias mentirosas. “Nas redes sociais, cada usuário é um editor”, disse Planel. Pugliese, por sua vez, chamou atenção para a questão da delação premiada, cujos conteúdos viram notícia imediata e entram em conflito com questões jurídicas da maior seriedade. Com uma plateia formada por jornalistas e fotógrafos, a questão da imagem também foi abordada. Fotos polêmicas têm maior força de disseminação na internet e, como dito por uma profissional da plateia, “caiu na rede, ela não te pertence mais”.

Manipulação, mentira, má intenção, deturpação e pós-verdade estão na origem do problema e a competição com as redes sociais é gigante. O debate foi encerrado com a certeza de que, apesar da crise do jornalismo, o compromisso com a verdade e a conquista do público a partir da credibilidade são a chave para minimizar os efeitos negativos das notícias falsas. Jornalista ou leitor, seja crítico: analise, confirme os dados, fique atento aos detalhes e nunca compartilhe se não tiver certeza. Simples assim.

Luarlindo Ernesto, Guillermo Planel, Marcelo Vieira e Sérgio Pugliese (da esquerda para a direita)