Em um relacionamento saudável com o álcool

Bastou apenas menos do que uma garrafa para atingir um nível ótimo de alcoolemia, catalizado por um estômago vazio.

Foi uma cerveja antes do jantar, que demonstrou a clareza de como as idéias sob efeito do álcool parecem geniais. Foi possível sentir a desinibição causada pela bebida, seus poderes de fluidificação do pensamento e lubrificação social.

O nível ótimo de ingestão alcóolica é certamente uma arte, fruto de experiência acumulada em ressacas, amnésias e abraços em privadas (sejam de banheiros conhecidos ou desconhecidos).

Vícios, compulsão e substâncias

Dentre as lendas de família, consta que meu bisavô, lá no começo do século XX era cocainômano. Ao longo das gerações, muda a substância vegetal refinada popular no seio familiar. Passou a ser mais comum o vício em açúcar refinado, que resulta em diabetes. Tem ainda a farinha de trigo e casos isolados de intolerância ao glútem.

Mais do que substâncias, o vícios são manifestações de comportamentos compulsivos. E essa tendência extrapola vínculos familiares, seguem mais como comportamento definidor do nosso tempo. Contra a avalanche de excessos e a obrigação por felicidade, nada melhor do que a indulgência do abuso de substâncias, lícitas ou ilícitas.

Alcoolismo, a mais popular forma de abuso de substância tem até nome próprio. Dentro das medidas de (não) enfretamento do problema está o “Beba com moderação”. Trata-se da perfeita demonstração de slogan legal definido em gabinetes: inócuo. Simplesmente incapaz de fazer frente ao excesso de estímulos e incentivos para o consumo de álcool. O contraste é ainda mais forte quando a mensagem de conscientização obrigatória vem acompanhada, todas as vezes, por comunicação publicitária que estabelece o vínculo perfeito entre bebida e felicidade.

Beber socialmente

Lubrificante social mais que perfeito, o álcool torna toleráveis desde os mais entediantes encontros familiares, até noites em claro dentro de ambientes escuros com música ensurdecedora.

É a manifestação concreta da felicidade compartilhada da publicidade, aplicada à vida real.

Exemplificação perfeita de como “beber socialmente” é uma obrigação, são os relatos no Medium sobre “como abri mão da bebida e (…)”. São experiências pessoais de superação contadas por pessoas que talvez tenham cruzado a barreira invisível entre o socialmente aceitável e a compulsão álcoolatra.

Além da economia de dinheiro, uma consequência da abstinência é o comprometimento da vida social.

Dois exemplos:

Esse último até com uma versão irônica que é, com o perdão do trocadilho com o nome da plataforma, mediana:

O documentário Super Size Me é uma perfeita tradução de comportamento individual levado às últimas consequências para provar uma teoria e produzir entretenimento de qualidade.

Relatos de completa abstinência são a repetição desse modelo, mas com o sinal invertido. Há algo de extremamente positivo em abrir mão de substâncias nocivas, mas sem repensar na compulsão como comportamento indutor, nenhuma solução.


Ao longo dos anos de trabalho na indústria audiovisual, conviver com ex-cocainômanos foi algo bastante comum. Ao invés do charme do início do século XX do meu bisavô, o consumo de cocaína nos anos 1980 e 1990 na indústria de entretenimento brasileira tinha outro padrão.

No mundo maravilhoso da publicidade e do cinema, eram carreiras na moviola (antiga máquina de edição de filmes), trabalho até altas horas e comemorações regadas a bebida e pó.

Com restrições impostas por orçamentos cada vez mais modestos, cheirar acabou ficando levemente demodê. Mas as histórias contadas pelos dinossauros do mercado não deixam dúvidas sobre um passado de abusos.

Caso mais curioso era de um chefe, já beirando os 50 anos. Muito cheirou e aparentava ter mais idade do que efetivamente marcava sua certidão de nascimento, mas estava “limpo”. Seguia no entanto, vítima da própria compulsão. Passou a ser diabético e consumia quantidades insalubres de refrigerante diet e café com adoçante.


Há o “só por hoje” dos Alcóolicos Anônimos, a glória do sacrifício abstêmio compartilhado em redes sociais e o moralismo da mensagem governamental de moderação.

Todas soluções que passam ao largo dos limites auto impostos e do desafio pessoal de lutar contra compulsões em um mundo repleto de excessos e atropelos.

Refazendo Cazuza: só uma dose, é claro que eu estou afim.

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