Obras viárias como fetiche urbano

A falsa solução rodoviarista

Com problemas e desafios dignos de um roteiro de Hollywood, nosso herói precisa redesenhar seu caminho. Raposo Tavares, o nobre bandeirante, é na realidade uma grande avenida, sem conexão com qualquer outra grande avenida da cidade de São Paulo. Um gigante isolado e travado que ainda sofre com interrupções de fluxo com tenebrosos semáforos.

A solução para um final feliz é engordar esse desbravador destemido para que ele possa voltar a exercer sua missão de vida, o rápido e seguro escoamento de pessoas e cargas até o seu destino.

Há no entanto um grave erro no roteiro. Ao invés de uma saga de aventura redentora na estrada, trata-se de uma tragicomédia sem graça, oferecendo a piada ruim da modernidade ultrapassada e entregando um humor macabro involuntário.

Fala-se em novas soluções para por de pé o gigante sufocado por carros, mas o filme acaba por sugerir que é preciso investir em velhas fórmulas para ampliar e mudar de lugar os congestionamentos.

Conceitos urbanístimos modernos”, “que respeitam as características do entorno” é a definição por excelência da urbanização rodoviarista do século XX que nos brindou com cidades mortas e congestionamentos infinitos, sendo Los Angeles seu exemplo internacional. Contamos ainda com a Alphaville de Barueri como a materialização local da distopia da motorização.

Uma rodovia que virou avenida

A rodovia Raposo Tavares em São Paulo é, em seu trecho inicial, uma grande avenida metropolitana conectando a zona oeste da capital ao município de Cotia.

Ao contrário da ampla Castelo Branco, que conecta a próspera Barueri ao coração da metrópole, a Raposo é a prima esquálida das avenidas rodoviárias. Natural portanto que haja um desejo por expansão, por buscar aumentar a oferta de espaço de circulação para dar conta da demanda por deslocamentos em automóveis particulares.

Ricas empresas que atuam em busca de vultosos lucros pela exploração de pedágios certamente tem como natural o desejo por expansões rodoviárias. Causa certa estranheza que ainda não pertença ao senso comum a lógica de que mais pistas produzem como resultado final congestionamentos maiores.

O vídeo promocional com o plano da concessionária CCR Via Oeste para a Raposo Tavares é um exemplo cruel das forças que atuam para lucrar com o justo desejo por mais mobilidade por parte da população.

Primeiro o terror dos congestionamentos e um diagnóstico equivocado que prepara o terreno. “A Raposo Tavares envelheceu rapidamente. Os altos investimentos não foram suficientes para acompanhar a crescente demanda e o forte adensamento dessa região”, diz o narrador.

Levanto-se em conta que a rodovia foi inaugurada em 1937 com o nome de “São Paulo-Paraná”, passou a ser chamada de Raposo Tavares a partir de 1954 e teve 444 de seus 654 km privatizados em 2008 dá para discordar bastante da linha de raciocínio empregada no vídeo.

Segue para mais equívocos. Congestionamentos como “entrave para o desenvolvimento”. Parece correto, mas investir em mais mobilidade individual motorizada certamente não é um caminho para solucionar o problema ou promover desenvolvimento.

Pioram ainda mais os argumentos com a tese de que “os bairros ficaram mais populosos” e “empresas de diversos segmentos” se instalaram, provocando um aumento no tráfego.

Bairros populosos e mais atividade econômica estão longe de serem causas de congestionamentos. Incentivos por mais viagens motorizadas em aglomerações de baixa densidade são certamente o atalho perfeito para o aumento do tráfego e as perdas econômicas que acompanham.

Sendo de grande importância econômica para a região oeste do estado, a Raposo Tavares tem seu trecho inicial operado pelo governo estadual. Uma distância de 34km que nos últimos 20km pode demorar até duas horas para ser percorrida. Isso tudo com 3 pistas em cada sentido, sem acostamento. Além de não haver qualquer prioridade ao transporte público feito por ônibus municipais e intermunicipais lotados.

Brincando com números

Estima-se em 170 mil veículos que utilizam o viário todos os dias e impactam um milhão de pessoas. Como o vídeo não apresenta fontes, podemos brincar com os números aleatoriamente. Seriam cerca de 5 ocupantes por veículo, como certamente estão contabilizados os passageiros dos ônibus nessa conta, fica complicado defender qualquer expansão no viário sem antes priorizar o transporte coletivo.

Usando a taxa média de ocupantes de automóveis de 1,2 pessoa, os 170 mil veículos estariam transportando cerca de 204 mil pessoas. Faltam 800 mil para fechar o 1 milhão que o vídeo menciona.

1,8 bilhão de motivos para a expansão rodoviarista

Uma música empolgante embala a conclusão do vídeo. Em apenas 5 anos, através da concessão à iniciativa privada maravilhosos túneis, pontes e overdrives irão erguer impressionantes esculturas de concreto armado e asfalto. No fundo tão eficientes para transportar pessoas e cargas quanto o caminho de lama anterior à criação da rodovia.

Mas não pague agora! Toda a cobrança dessa maravilha do atraso será paga por meio de cobrança automática em pórticos modernos.

Mas espere! Os milhares de usuários contarão ainda como monitoramente por câmeras, central de controle e apoio em emergências.

Cadê a rodovia que vocês estavam querendo vender?

E tem mais! Tudo isso com mais qualidade de vida e menos poluição do ar para a maior região metropolitana da América Latina”. Sim, alguém fez escolha de palavras tão infeliz para tentar vender para a população (e principalmente para o governo) um plano de expansão viária em uma rodovia.

Fica a pergunta sobre até quando planos prontos para empreiteiras ganharem dinheiro com obras viárias irão cair em desuso. Afinal, para assistir filme distópicos, melhor que eles sejam sinceros e não tentem enganar o espectador com verniz de gráficos coloridos, música empolgante e imagens de bicicletas fora de contexto. Afinal, Alphaville funciona melhor nas mãos de Godard do que operado pelo mercado imobiliário paulista.

Distopia por distopia, melhor ficar no cinema francês.
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