Sobre empatia, lama e proibições

“Eis o lema da máquina de identificação: todos eles sou eu.”

Orfeu de bicicleta, Francisco Bosco

Pés enlameados. Foto: vermillion/flickr

Gramado amplo que alcança uma grade. Do outro lado um parquinho com escadas, pontes, escaladas, escorregas e doses esparsas de poças d´água.

Além do pequeno, animado, vem junto dois cães. Bem jovens e ainda mais animados. Logo os animais descobrem a possibilidade de contornar a grade e acessar o parque.

Cruzam o limite invisível da grande placa que proíbe a presença canina. Entre os riscos das grandes alturas e a disciplina dos cães, busco um meio termo.

A criança escala o brinquedo e os doceis animais se põe além dos seus limites, mas ainda dentro de uma razoável periferia do espaço infantil.

  • Escaladas, pulos, entregas absolutas de grandes alturas.

Chega outra criança, sendo carregada no colo pela babá. O pequeno já tem idade suficiente para soltar-se e desbravar caminhos, ainda assim, permanece suspenso bem longe do chão. Junto vem a irmã mais velha, solta desbrava os brinquedos.


Um muro de altura perfeita para a escalada, margeado por longelínea poça de profundidade razoável.

Vestindo galochas amarelas, meu pequeno descobre a água no momento seguinte ao alerta paterno.

Faz ar de surpresa e começa a escalada. Face as dificuldades, refaz cáculos e opta por recomeçar. Com determinação lança o pé para o alto da mureta em busca de apoio. Ato contínuo escorrega e cai estatelado na água e enlameia a mão, os braços e a roupa.

Incomada-se mais com a sujeira marrom no corpo do que que com as roupas encharcadas. Logo se distrai, esquece o desconforto da sujeira e busca retomar a aventura.

A brincadeira estava animada e a as perspectivas eram ótimas por mais. Mas o excepcional frescor da manhã de verão clama pela responsabilidade paterna para empreender a jornada de volta.


Chega no parquinho a mãe do casal de crianças. O bebê preso no colo e a menina solta. Imediatamente proíbe a babá de subir na casa da árvore. Esta desse pela confortável escada.

Logo a mãe pergunta também dos cachorros que seguem periféricos no parquinho. Esbraveja da proibição, clama por multa. Levo a criança encharcada nos braços e gaguejo uma resposta.

Os cães afinal não me pertencem, ms estão sob minha responsabilidade. Ela também tem cachorros, e segue em monólogo.

Não trocamos olhares, evito prolongar qualquer interação. A mãe concorda com a babá que a área externa está suja e molhada demais. Saem do parquinho mais por conta da lama do que da invasão canina. Tomam o rumo da recreação infantil interna, com seu circuito de aventura em brinquedos plásticos.

Sem grandes dificuldades, carrego minha criança no colo para além da área infantil, os cães seguem. A caravana sobe a ladeira.


Durante a caminhada, refaço e invento em silêncio conversas com a mãe grosseira capaz de se antipatizar e hostilizar um pai sozinho e seus cães no canto.

  • Deveria ter chamado ajuda, ela disse.

Prolongo um pouco mais o diálogo imaginário a partir dessa frase. Desisto.


Vivemos tempos nefastos em que placas se sobrepõe a interações humanas possíveis. Quem nem mesmo é capaz de empatizar com um adulto com uma criança de colo certamente não será capaz de enxergar a si mesmo em no outro.

O primeiro passo para a completa desumanização é ver nos outros inimigos, mesmo sem olhar ninguém nos olhos.