Sobre empatia, lama e proibições
“Eis o lema da máquina de identificação: todos eles sou eu.”
Orfeu de bicicleta, Francisco Bosco

Gramado amplo que alcança uma grade. Do outro lado um parquinho com escadas, pontes, escaladas, escorregas e doses esparsas de poças d´água.
Além do pequeno, animado, vem junto dois cães. Bem jovens e ainda mais animados. Logo os animais descobrem a possibilidade de contornar a grade e acessar o parque.
Cruzam o limite invisível da grande placa que proíbe a presença canina. Entre os riscos das grandes alturas e a disciplina dos cães, busco um meio termo.
A criança escala o brinquedo e os doceis animais se põe além dos seus limites, mas ainda dentro de uma razoável periferia do espaço infantil.
- Escaladas, pulos, entregas absolutas de grandes alturas.
Chega outra criança, sendo carregada no colo pela babá. O pequeno já tem idade suficiente para soltar-se e desbravar caminhos, ainda assim, permanece suspenso bem longe do chão. Junto vem a irmã mais velha, solta desbrava os brinquedos.
Um muro de altura perfeita para a escalada, margeado por longelínea poça de profundidade razoável.
Vestindo galochas amarelas, meu pequeno descobre a água no momento seguinte ao alerta paterno.
Faz ar de surpresa e começa a escalada. Face as dificuldades, refaz cáculos e opta por recomeçar. Com determinação lança o pé para o alto da mureta em busca de apoio. Ato contínuo escorrega e cai estatelado na água e enlameia a mão, os braços e a roupa.
Incomada-se mais com a sujeira marrom no corpo do que que com as roupas encharcadas. Logo se distrai, esquece o desconforto da sujeira e busca retomar a aventura.
A brincadeira estava animada e a as perspectivas eram ótimas por mais. Mas o excepcional frescor da manhã de verão clama pela responsabilidade paterna para empreender a jornada de volta.
Chega no parquinho a mãe do casal de crianças. O bebê preso no colo e a menina solta. Imediatamente proíbe a babá de subir na casa da árvore. Esta desse pela confortável escada.
Logo a mãe pergunta também dos cachorros que seguem periféricos no parquinho. Esbraveja da proibição, clama por multa. Levo a criança encharcada nos braços e gaguejo uma resposta.
Os cães afinal não me pertencem, ms estão sob minha responsabilidade. Ela também tem cachorros, e segue em monólogo.
Não trocamos olhares, evito prolongar qualquer interação. A mãe concorda com a babá que a área externa está suja e molhada demais. Saem do parquinho mais por conta da lama do que da invasão canina. Tomam o rumo da recreação infantil interna, com seu circuito de aventura em brinquedos plásticos.
Sem grandes dificuldades, carrego minha criança no colo para além da área infantil, os cães seguem. A caravana sobe a ladeira.
Durante a caminhada, refaço e invento em silêncio conversas com a mãe grosseira capaz de se antipatizar e hostilizar um pai sozinho e seus cães no canto.
- Deveria ter chamado ajuda, ela disse.
Prolongo um pouco mais o diálogo imaginário a partir dessa frase. Desisto.
Vivemos tempos nefastos em que placas se sobrepõe a interações humanas possíveis. Quem nem mesmo é capaz de empatizar com um adulto com uma criança de colo certamente não será capaz de enxergar a si mesmo em no outro.
O primeiro passo para a completa desumanização é ver nos outros inimigos, mesmo sem olhar ninguém nos olhos.