Testemunha de um assédio

A água está fresca pessoas espalhadas pelas bordas da imensa piscina. Na mureta da rampa para deficientes, um rapaz e uma moça adolescentes brincam. Logo brigam.
São pulos mergulhos, escaladas para fora e goles d´água involuntariamente engolidos que interrompem o desenrolar da história.
- Chuá, mais um. Splash, bate o pé.
Impossível saber se há uma relação fraterna ou paquera. Podem ser irmãos, primos, jovens que descobrem o próprio desejo.
- Sobe a escada sai da água, corre. Um pulão e chuá.
O rapaz cruza uma linha imaginária, os dois corpos estão próximos, fazem contato. A moça insiste no não. A tensão está clara.
- Splash, glub-glub, o óculos afunda, volta à tona, afunda.
Debruçada na borda, sozinha a moça quase chora. Sua dor é palpável e ainda mais intensa sua solidão.
- Escalada para fora d´água, novo pulo, chuá.
Sem lágrimas no rosto, uma criança animada ao lado, um casal de meia idade trocando carícias e jura de amor. Tudo em um raio de um metro ao redor. A moça não chora, mas poderia.
É preciso olhar para o alto, do lado de fora o rapaz agressivamente se dirige a moça e se despede. Há testemunhas, mas ninguém vê. Quem é a mulher deitada na cadeira de praia, aproveita o sol e bronzeia-se.
O casal de meia idade permanece preso aos próprios afetos.
Estremecido e paralisado diante da agonia alheia, jogo a criança para o alto.
- Chuá, mais um!
Há muitas peças soltas no quebra-cabeça desse assédio.
A brincadeira infantil segue e as perguntas transbordam e continuam a transbordar ao longo do dia. Fabrico diálogos possíveis, ainda que improváveis.
O mais assertivo é o diálogo do enquadro no rapaz. “Papo de homem para homem” acerca do respeito às vontades alheias e em especial das mulheres. A autoridade da idade e da paternidade concedem autorização para uma interpelação.
Dura realidade é a inação pela falta de coragem em interpelar a vítima. Oferecer-lhe conforto, perguntar sobre o que aconteceu, montar as peças que possibilitariam agir.
Os olhos e o corpo pesam, é possível sentir todo o peso da violência sofrida. Há uma cruz invisível, carregada sozinha para fora d´água.
- Chuá, splash, mais um.
A moça some.
Pela inação, resta-me a dor de reviver os meus próprios assédios e a esperança de saber como agir face aos que se desnudarão diante dos meus olhos no futuro.
Filho, você realmente não viu, mas juntos, testemunhamos um assédio. Desculpe filha, seu pai é ainda um machista em tentativa de desconstrução.