Contra a Pornografia

Introdução

Em nossos tempos, está cada vez mais comum vermos pessoas insatisfeitas com seu país ou até com o mundo moderno em geral, apontando que da política só sai decepções e que a luta por melhorias sócio-culturais está praticamente perdida. Como já expliquei em um outro artigo, acredito que essa sensação geral, como mera intuição, está correta, embora muitas vezes por motivos errados. Independentemente dos motivos, a questão central é: uma vez deixando de lado a via política, como proceder para progredirmos enquanto civilização? Neste texto, que espero ser o primeiro de uma série, vou apontar um problema que, creio eu, se mostra como um dos grandes motivos de disfunções familiares dos tempos modernos: a pornografia. Antes de mais nada, nunca é demais frizar que pretendo aqui apenas aconselhar pais e mães, apontando soluções de âmbito estritamente familiares, sem jamais querer passar por vias políticas. E de antemão, deixo claro que a proibição, por via da lei, da pornografia é logicamente incompatível com as doutrinas racionais do direito e, na prática, é contraproducente, da mesma forma que leis anti-prostituição o são. Dito isto, vamos ao que nos interessa aqui.

A primeira reação de muitas pessoas quando ouvem falar do tema é dizer coisas como: “Por que diabos esse cara está preocupado com tema tão banal, de âmbito privado e que nada tem a ver com a vida dele?” ou “Se você não gosta disso, não consuma. Os outros que se danem.” Se eu conseguir demonstrar que (i) o tema não é tão banal como parece; e (ii) que o tema influencia de maneira extremamente negativa a salubridade familiar de milhões de pessoas e que portanto é uma questão de saúde pública – ainda que mental -, então terei cumprido o objetivo proposto por este texto.

A Ciência da Pornografia

Bem, o que há então de demais em uma pessoa – digamos, um adolescente – ver um vídeo na internet de um casal copulando? Por mais surpreendente que pareça, a resposta é a mesma de uma outra pergunta, mais simples de responder. A saber: o que há de demais em um adolescente fumar um pequeno cigarro de maconha? A resposta à segunda pergunta, todo pai de família sabe dar: embora poucas doses de maconha não façam muito mal, a droga vicia e geralmente serve como introdução a outras mais pesadas. Com a pornografia acontece um fenômeno muito análogo, porém pouco conhecido. Com efeito, a pornografia causa um efeito biológico conhecido em inglês por “Chaser Effect”, que consiste em um aumento nos impulsos sexuais ou o desejo de se masturbar nos dias imediatamente após o consumo de pornografia, um efeito do tipo retroalimentativo. Isso é, em certo sentido, contra intuitivo, porque, em vez disso, esperamos que uma pessoa se sinta satisfeita após o consumo. Embora seja verdade que pode haver satisfação inicial e imediata, parece que isso, em alguns casos, pode ser bastante curto, substituído por insatisfação e desejo compulsivo. A explicação para isso é que, quando uma pessoa encontra uma abundância de algo muito gratificante, como comida ou droga, o aumento extraordinário de dopamina que é liberado sobrecarrega os centros de prazer do cérebro, fazendo com que eles podam os receptores da dopamina. Após este aumento, os níveis normais de dopamina já não são suficientes para satisfazer o organismo. A elevação recente é novamente exigida ou o cérebro se sente insatisfeito, como se estivesse faltando alguma coisa. Daí começa o vício começa e tende só a piorar.

Com a viciada disfunção hormonal, o corpo da pessoa tende portanto a necessitar de doses cada vez maiores de pornografia. Isto significa que uma mera cena de uma mulher nua passa a não satisfazer mais a pessoa, que passa então a procurar conteúdos sexuais cada vez maiores e mais bizarros. Do erótico passa-se a degenerações sinistras como bestialismo, cornismo, pedofilia, incesto, orgia, necrofilia, estupro e por aí vai. Não é por acaso que o famoso meme da internet, chamado de “Rule 34” (Lei 34), que diz: “se algo existe, então há pornô sobre isso – sem exceções”, é comumente aplicado como crítica aos mercados de pornografia. Abolutamente tudo o que nos cerca já virou tema de material pornô, desde coisas aparentemente inofensivas como a profissão de mecânico ou a de aeromoça, até bizarrices extremas como bonecos, carne morta e bebês. Uma pessoa viciada não perde tempo: em tudo que vê, pensa em pornografia e o mercado, como é de se esperar, atende a essa demanda. O maior problema, porém, é que as situações banais tendem com o tempo a induzir o viciado a consumir teores extremos e doentios. A pornografia sempre tende à perveção.

Uma explicação evolutiva para a crescente obsessão pela pornografia e também para a dificuldade de largar o vício pode ser dada pela teoria do gatilho compulsivo, que consiste em uma vantagem evolutiva em situações em que a sobrevivência é promovida por um comportamento posterior ao ponto de saciedade normal. Em pesquisas recentes, cientistas procuram aprender mais sobre compulsão alimentar em humanos e relataram alguns achados interessantes no receptor da dopamina (D2). Ao alimentar ratos com alimentos ricos em estimulantes – como cheesecakes gordurosos e salsichas -, eles observaram uma brusca redução do número de receptores D2 no estriado. Depois que os ratos comeram seu último pedaço de comida super gostosa, a densidade do receptor permaneceu baixa durante pelo menos duas semanas – a duração da experiência. Tal como acontece com o uso de drogas recreativas, o estriado reagiu à sobre-estimulação, porém, no caso da cocaína por exemplo, a densidade do receptor D2 volta em dois dias – embora outras mudanças possam continuar. Mas com comida – um reforçador natural – o esgotamento D2 continua por um período muito mais longo. É curioso que o esgotamento dura mais tempo após a comida, considerando que a cocaína causa uma explosão maior de dopamina. Algo mais sinistro estava acontecendo também. Analogamente ao que ocorre com o uso contínuo de drogas, os cérebros dos ratos registraram uma menor ativação do prazer. E apareceu um comportamento pós-compulsivo: a comida de rato padrão perdeu todo apelo. O consumo permaneceu inferior ao normal por semanas. “Cheesecake ou nada”, os ratos pareciam estar pensando. Trata-se de um exemplo de “gatilho compulsivo”, o mesmo fenômeno por trás da matança indiscriminada de dezenas de quilos de carne por lobos ou do estoque de comilança necessário no período de pré hibernação dos ursos polares: quando o cérebro primitivo de um mamífero percebe algo tão valioso, ele “manda” que possamos explorar a oportunidade de ouro novamente lá na frente e para isso ele tem que criar sentimentos de falta ou insatisfação para nos levar além de nossos limites normais.

Algo inteiramente similar ocorre com a pornografia. Com efeito, uma série de trabalhos da Universidade de Cambridge, liderados pela neuropsiquiatra Valerie Voon, – veja aqui e aqui – encontraram o mesmo padrão de atividade cerebral em vícios pornográficos como o visto em toxicodependentes e alcoólatras. De fato, foi observado que os homens que se descrevem como viciados em pornografia (e quem perdeu relações por causa disso) desenvolvem mudanças na mesma área do cérebro – o centro de recompensas – que a dos toxicodependentes. Até recentemente, os cientistas acreditavam que nossos cérebros eram fixos, com seus circuitos formados e finalizados na infância. Agora, sabemos que o cérebro é “neuroplástico”, e não só ele pode mudar, mas que funciona alterando sua estrutura em resposta à experiência mental repetida. Um dos principais impulsionadores da mudança é o centro de recompensas, que normalmente dispara quando alcançamos um objetivo. Tal mecanismo de mudança se dá pela liberação de dopamina, dando-nos a emoção que acompanha a realização e também consolidando as conexões entre neurônios no cérebro que nos ajudaram a alcançar esse objetivo. Além disso, a dopamina é segregada em momentos de excitação sexual e novidade. Cenas de pornografia, cheias de novos “parceiros” sexuais, disparam o centro de recompensas. As imagens são reforçadas, alterando os gostos sexuais do usuário. Muitas substâncias abusadas desencadeiam diretamente a secreção de dopamina – sem que tenhamos que trabalhar para atingir um objetivo. Isso pode danificar o sistema de recompensa da dopamina. Na pornografia, obtemos “sexo” sem o trabalho de namoro. Agora, as varreduras mostram que a pornografia pode alterar o centro de recompensas também e com o mesmo mecanismo de dopamina. Outro ponto interessante é que os pesquisadores relataram que 60% dos indivíduos – em idade média de 25 anos – tiveram dificuldade em obter ereções e/ou excitação com parceiros reais, mas ainda assim conseguiram ereções com pornografia.

Convívio Social e o Mercado do Sexo

Fora os problemas psicológicos de dependência que a pornografia gera, pode-se também destacar suas consequências negativas para o convívio social, a cultura e a atividade sexual, bem como a procriação. Uma pequena amostra dos fenômenos de alteração na prática sexual causada por filmes pornô é dada por relatos de indígenas brasileiras acerca do estranhamento, por parte delas, acerca do comportamento sexual animalesco que seus parceiros indígenas passaram a ter após suas tribos terem acesso a seções de filmes pornográficos. A socióloga Barbara Aris conta que, quando chegou no Vale do Javari, “os Matis estavam muito interessados na nossa vida sexual. A pornografia era uma coisa nova e eles queriam entender.” Eles viam diversas práticas estranhas a eles que começavam a experimentar por causa dos filmes. Outra tribo analisada foi a dos Xavante, no Mato Grosso. O antropólogo Estevão Fernandes, da Universidade Federal de Rondônia, relata que, em suas visitas recentes à tribo, as mulheres têm se mostrado preocupadas porque seus companheiros, após o consumo de material pornográfico, passaram a tentar posições sexuais mais violentas e que as lembravam às de animais, uma novidade que foi incorporada a partir dos filmes pornô. Segundo David B. Samadi, Doutor em Medicina, presidente do departamento de urologia e chefe de cirurgia robótica no Hospital de Lenox Hill em Nova Iorque, tais mudanças se devem ao teor e ao conteúdo pornográfico hoje produzido. No médio a longo prazo, “você precisa de mais e mais estímulos já que você criou uma certa tolerância, e então surge a possibilidade com a sua esposa ou parceira, e você não é mais capaz de fazê-lo,” ele diz. Além dos comportamentos bizarros, a pornografia pode inibir a sexualidade das pessoas, e, eventualmente, elas podem chegar a ficar incapazes de se excitar com encontros sexuais casuais, Samadi explica. O médico especialista em ereção sexual masculina, Muhammed Mirza, relata que, em sua prática particular, de 15 a 20 porcento das disfunções eréteis que observou estavam relacionadas com o consumo de pornografia.

Isto se deve não só às mudanças nas químicas cerebrais que contribuem para disfunção erétil, mas também ao caráter irreal do conteúdo pornográfico que distorce a realidade sexual, trazendo práticas irrealizáveis para os casais comuns. Ainda segundo Samadi, “muitas das imagens que aparecem na pornografia são irreais e aumentadas. […] Ninguém pode seguir com isto por horas.” Obviamente, o contato íntimo e real entre casais é delicado, sempre imperfeito, envolve uma série de sutilezas, podendo ser muito rápido, demorado, dolorido, dentre outras características que não encontramos nos filmes pornôs, onde o sexo é fácil e impessoal. Com o consumo de pornografia, a pessoa se torna vítima de uma realidade virtual, que falsifica as relações interpessoais, e sua capacidade de interação, principalmente com pessoas do sexo oposto, fica prejudicada. As situações totalmente bizarras e surreais da pornografia criam expectativas totalmente equivocadas sobre como deve ser a interação entre os sexos.

O Caso Japonês

Com um imenso e altamente degenerado mercado pornográfico, onde se produz mais de 20 mil filmes pornôs por ano, o Japão nos serve como um laboratório macro que ilustra todos os fenômenos citados acima, vivendo hoje uma intensa crise sexual envolvendo a população jovem. Tal questão já vem sendo considerada um problema de saúde pública e o próprio governo japonês vem financiando pesquisas nesse sentido a fim entender o problema demográfico que o país vem passando. Em uma delas, o Instituto Nacional de População e Pesquisa da Segurança Social entrevistou mais de 5 mil solteiros com idades entre 18 e 34 anos sobre suas atividades sexuais. Foi constatado que 42% dos homens e 44% das mulheres nunca fizeram sexo e que dentro da população japonesa de 18 a 34 anos, quase 70% dos homens solteiros e 60% das mulheres não casadas não estão em um relacionamento. Além disso, a pesquisa, realizada em junho de 2015, mostrou que o número de pessoas que permanecem castas no Japão tem aumentado com o passar do tempo. Futoshi Ishii, que lidera a instituição que realizou o estudo, disse que a raiz do problema parece estar no abismo entre como as pessoas imaginam que a vida deveria ser e como ela realmente acontece. Segundo ele, os jovens japoneses “querem se casar eventualmente. Mas eles tendem a abandonar a ideia, pois há lacunas entre seus ideais e a realidade.” De fato, o Japão tem um mercado pornográfico enorme e um dos mais bizarros do mundo, onde constantemente são explorados temas como incesto, pedofilia, pornô 2D com mulheres irrealistas, estupro, dentre outras barbaridades. As mulheres apresentadas nos mangás e nos hentais são diametralmente opostas às japonesas e tem características excessivamente avantajadas, que as mulheres reais não têm: seios enormes, olhos grandes, cintura muito fina, traseiro avantajado, cabelos coloridos e nariz empinado. Certos mangás e o próprio hentai, termo que em japonês significa “condição diferente do normal, estado anormal ou patológico” ou “parafilia, disfunção sexual, sexualidade fora do normal, perversão” já sofreu sugestões de proibição, por parte de organismos internacionais, devido aos seus conteúdos pedófilo-pornográficos extremos que podem servir de estímulos às práticas de pedofilia.

Devido aos baixos índices de casamento e reprodução, a população japonesa está em grave declínio numérico. Em um censo realizado em 2010, os números revelavam que a população japonesa tinha parado de crescer. Já em outro censo, realizado seis anos depois, foi registrada uma população de 127,1 milhões, menos 947 mil pessoas. É o primeiro declínio populacional registado desde 1920. Projeções do governo japonês indicam que em 2060, cerca de 40% da população terá mais de 65 anos e que o país terá perdido um terço dos habitantes. Contudo, os japoneses não deixaram a sexualidade de lado: o relacionamento virtual e impessoal está se popularizando entre os jovens e se tornando endêmico. Enquanto o mercado pornográfico japonês se mantém aquecido, filas de jovens podem ser vistas em Tóquio em frente a cortinas rosas, esperando sua vez para entrar em cabines telefônicas eróticas onde podem ligar para atrizes do mundo cibernético para falar de fetiches sexuais. Outros abandonam esposa e família para ficar com bonecas de silicone no perfil de mocinhas de mangá, mas em tamanho real. Tal fenômeno está se agravando: segundo profissionais do setor das bonecas de silicone, todos os anos cerca de 2.000 unidades são adquiridas no país, mesmo com os preços atingindo a marca de seis mil dólares a unidade. Mas não só de bonecas se satisfaz a nova geração de japoneses. Há registros de jovens no Japão se casando formalmente, e em cerimônias religiosas, com personagens 2D, como é o caso do jovem japonês apelidado de “sal9000” que em Tóquio se casou com Nene Anegasaki, personagem que era sua namorada no game do gênero simulador de namoro chamado “Love plus”, do Nintendo DS.

Conclusão

O Japão não é um exemplo isolado, sendo a pornografia no mundo inteiro um fato epidêmico que vem crescendo assustadoramente nas últimas décadas. Segundo levantamento do antigo site PornHarms, existem mais de 4.2 milhões de sites pornográficos na web, atingindo cerca de 72 milhões de usuários por mês, a maior parte consistiuída de jovens entre 12 e 17 anos. A indústria do sexo já lucra hoje em dia mais que Hollywood ou ainda, mais que as companhias de alta tecnologia como Google, Microsoft, Yahoo, Apple, Netflix, EBay e Amazon todas juntas. É claro que os problemas sociais envolvendo queda de natalidade, disfunção sexual, baixas no matrimônio, divórcio, dentre outros, não são explicados apenas pela forte influência que essa indústria tem nas vidas do jovens de nosso século, mas também por questões culturais, políticas e religiosas. Por outro lado, é inegável o papel de destaque que a pornografia tem para perpetuar esses males. Se você preza pela sua família e, de modo geral, pela salubridade civilizacional, então deve desde já a ensinar seus filhos a ter uma postura contra a pornografia e suas influências na sociedade, pois como em qualquer problema comportamental, sua solução começa em casa. Shelley Lubben, ex-atriz pornô americana e uma das principais lideranças antipornografia da atualidade, fundadora da Pink Cross Foundation, quando questionada sobre o que diria a alguém que está consumindo pornografia, disse: “Você está contribuindo para sua própria morte.” E acrescentou sem titubear: “E para a morte da sua família, e da sua esposa. Um sem número de pessoas viciadas em pornografia chegaram a perder suas famílias e seus empregos em virtude do vício.”

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