Feliz aniversário

Pai,
Há um ano, estávamos comemorando os seus 60 anos. Reunimos nossa pequena família em casa para um almoço e o que era para ser um encontro comum, acabou se tornando um dos dias mais memoráveis da minha vida.
Diferente de seus outros aniversários, você resolveu fazer um discurso e depois uma homenagem para todos que estavam sentados naquela mesa. No início, fiquei um pouco apreensiva porque estava soando como uma despedida. E, bom, talvez fosse mesmo. Mas me permiti escutar e absorver suas palavras da melhor forma possível.
Você falou como cada um de nós acrescentou na sua vida e o que representávamos para você. Sua emoção naquela situação só evidenciou o quanto aquelas palavras eram verdadeiras. Foi lindo te observar tão vulnerável – uma qualidade pouco visível nos homens – e testemunhar todos à sua volta se sensibilizarem também. Para mim, pelo menos, sempre foi impossível não derrubar uma lágrima ao ver seus olhos marejados.
Mas foi especialmente incontrolável quando chegou na minha vez e você começou a falar de mim. Você disse o quanto eu tinha aberto sua cabeça e te ensinado nos últimos tempos, mas nem aprofundou muito. Não precisava. Eu sabia perfeitamente do que você estava falando.
Era sobre a minha incessante luta em te mostrar – talvez até de maneira agressiva – as consequências do machismo e como elas me afetavam dentro e fora de casa. Tivemos inúmeras discussões e brigas a respeito do assunto, pois era difícil fazer você aceitar sua responsabilidade e o seu papel nesse problema. Ao escutar que, de alguma forma, consegui mudar o seu jeito de pensar, imagine o meu sentimento.
Foi uma conquista. Mas mais do que isso: foi uma das poucas vezes em que você demonstrou o valor que eu tinha para você com palavras. Talvez as minhas lembranças me enganem, mas o enxergo como um momento raro.
Ao final do discurso, você perguntou se mais alguém queria expor os próprios sentimentos. Lembro de sugerirem meu nome, mas permaneci quieta. Falar em público nunca foi a minha praia, ao contrário da escrita. O silêncio, então, reinou.
Me arrependo de não ter dito nada. De não ter agradecido sua paciência com minha personalidade explosiva, seu esforço no trabalho para nos dar o que precisávamos (e o que não precisávamos também), e sua determinação em continuar enfrentando uma doença terrível para comemorar mais um ano de vida ao nosso lado.
Hoje, dia 4 de novembro de 2019, decidi não me calar. Por isso, te escrevo essa carta cheia de significado, com meu carinho e amor por você explicitado nas entrelinhas.
Feliz aniversário, onde quer que você esteja.
Infinitos beijos,
Lara
