Leitura crítica: Fahrenheit 451, Ray Bradbury

Larissa Kaliane
Sep 9, 2018 · 4 min read

A distopia de Ray Bradbury, Fahrenheit 451, escrita em 1953, carrega consigo duras críticas à contemporaneidade. Tendo em vista esses aspectos, é possível identificar na obra os conceitos de mímese (mimesis), verossimilhança e catarse (katharsis), amplamente discutidos na Poética de Aristóteles, sendo os principais pilares da literatura grega.

A história americana transporta os leitores a uma sociedade em que as informações são controladas e os livros criminalizados. Dentro desse contexto, os indivíduos se tornaram uma massa facilmente alienada pelos canais de comunicação e pelo governo, pois são incapazes de formularem pensamentos críticos sobre o sistema que os cerca.

“Então, vê agora por que os livros são tão odiados e temidos? Eles mostram os poros no rosto da vida. As pessoas acomodadas só querem rostos de cera, sem poros, sem pêlos, sem expressão” (BRADBURY, Ray. 1953).

O autor do livro consegue estabelecer um vínculo muito próximo a realidade. Esse processo pode ser entendido como mímese, já que ele recria ou reapresenta na narrativa aspectos já existentes no mundo real. Como é o caso da indústria cultural (ADORNO, 1978), ilustrada pelas ‘telas' interativas do universo de Fahrenheit 451. Tendo em vista que na época em que o livro foi escrito a tecnologia ainda não estava no ápice do seu advento, é cabível de se acreditar que a crítica existente no livro faça muito mais sentido nos dias de hoje, já que as “telas” se encontram tão inseridas em nossas vidas que, por muitas vezes, esquecemos que existe um mundo fora do virtual.

Essa proximidade com o não-fictício também está diretamente ligada ao conceito de verossimilhança. Quando os leitores conseguem identificar aparatos do mundo ao seu redor na trama construída, significa que eles encontraram no texto aspectos semelhantes à coisas já vivenciadas. É esse artifício que desperta a sensação de atualidade na história lida (algo que jamais aconteceria na sociedade em que Montag vive, pois, essa percepção só se torna possível graças ao nosso poder de análise crítica).

Para exemplificar esse conceito, destacarei nesse texto o discurso de intolerância do capitão dos bombeiros, Beatty. A polaridade política que permeia a sociedade moderna faz com que as divergências de opiniões, muitas vezes, se tornem discursos carregados de intolerância ou, até mesmo, de ódio. Desse modo, a forma com que o personagem combate as diferenças no decorrer da narrativa se assemelha muito ao que vemos nos dias de hoje.

Sempre se teme o que não é familiar. Por certo você se lembra do menino de sua sala na escola que era excepcionalmente 'brilhante’, era quem sempre recitava e dava as respostas enquanto os outros ficavam sentados com cara de cretinos, odiando-o. E não era esse sabichão que vocês pegavam para cristo depois da aula? Claro que era. Todos devemos ser iguais. Nem todos nasceram livres e iguais, como diz a Constituição, mas todos se fizeram iguais. Cada homem é a imagem de seu semelhante e, com isso, todos ficam contentes, pois não há nenhuma montanha que os diminua, contra a qual se avaliar. Isso mesmo! Um livro é uma arma carregada na casa vizinha. Queime-o. [...]

Por fim, mas não menos importante, é possível identificar o efeito de catarse na obra. O estado de constante choque com os acontecimentos da vida de Montag, as reviravoltas da trama, as passagens filosóficas. Todos esses fatores contribuem para que o leitor compreenda a mensagem principal do livro em meio as entrelinhas. Além disso, as lacunas deixadas por Bradbury fazem com que nos encontremos imersos em profundas reflexões e questionamentos.

Sendo catarse um estado alcançável de forma individual, nesse parte julgo necessárias algumas considerações particulares, partindo das minhas percepções com a leitura em questão. O livro me acarretou uma série de questionamentos a respeito da situação atual do Brasil, em seu contexto político e social. Essa foi a primeira vez que uma história ficcional me causou tamanha revolta e me fez sentir tão impotente e insignificante. Ironicamente, minha leitura se coincidiu com a gigantesca tragédia que foi o incêndio do Museu Nacional, uma das maiores perdas da cultura e história do nosso país. Dessa forma, ao terminar a leitura, o sentimento que tive é que precisava fazer algo, mesmo com as mãos atadas.

Existe mais de uma maneira de queimar um livro. E o mundo está cheio de pessoas carregando fósforos acesos. Cada minoria, seja ela batista, unitarista; irlandesa, italiana, octogenária, zen-budista; sionista, adventista-do-sétimo-dia; feminista, republicana; homossexual, do evangelho-quadrangular acha que tem a vontade, o direito e o dever de esparramar querosene e acender o pavio. Cada editor estúpido que se considera fonte de toda literatura insossa, como um mingau sem gosto, lustra sua guilhotina e mira na nuca de qualquer autor que ouse falar mais alto que um sussurro ou escrever mais que uma rima de jardim-de-infância.

Não sabemos até que ponto o efeito de catarse perdura. Mas posso dizer com tranquilidade que ainda hoje, uma semana após o término do livro, ainda me sinto intimamente afetada por ele. A história de Montag me abriu os olhos para a importância de se preservar e, principalmente, garantir que todos tenham acesso à educação e ao conhecimento em suas mais diversas manifestações. Afinal de contas, um povo sem conhecimento é um povo aprisionado.

Larissa Kaliane

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