O poder da decisão

Sobre decidir não sentir raiva e sobre como os caminhos para o sucesso nunca, nunca são fáceis

Lari Reis
Lari Reis
Aug 24, 2017 · 6 min read

“Mas você não sente raiva?”
“Não. Eu percebi o tanto que a raiva estava me fazendo mal e decidi não sentir mais.”
“E foi simples assim?”
“Foi. Não sei porque, mas foi”.

Eu tive esse diálogo com algumas amigas recentemente. Contava sobre uma situação em que alguém não foi tão legal comigo e que todas as pessoas ao meu redor me “deram aval” para sentir raiva, mas eu não senti.

Photo by Amritanshu Sikdar on Unsplash

Sem generalizar

Antes de mais nada, não vamos generalizar as coisas. Eu não vou abrir aqui qual foi a situação que eu passei e nem citar várias outras, certamente mais graves, em que consideraria impossível não sentir raiva.

No fim da leitura, se tudo der certo, você vai ser capaz de adaptar o que eu digo para a sua realidade e entender quando evitar a raiva pode ser possível para você ou não.

Sentir raiva pode ser positivo? Pode!

Mesmo após essa conquista (?) de me livrar da raiva por meio de uma decisão, eu já sabia que o sentimento, ainda que negativo, pode ser positivo.

Eu sou dessas que chora e que faz porque precisa colocar para fora. Então, sempre soube que algumas coisas ditas ruins são necessárias para se alcançar a melhora. Como diz o ditado, “depois da tempestade, vem a calmaria”.

Coincidentemente, um tempinho após a conversa com as minhas amigas, me deparei com um estudo que afirma que sentir raiva e ódio pode nos deixar felizes.

“As pessoas são mais felizes quando são capazes de se expressar emocionalmente, mesmo que sejam sentimentos desagradáveis, como raiva e ódio, aponta um novo estudo”

Quando o assunto é choro, muita gente acha vergonhoso e imaturo essa ideia de estar colocando para fora algo que nos incomoda ou machuca. Por outro lado, salvando-se os corretos e puros de coração, xingar e expressar a fúria parece bem maduro (ou, para ser justa, aceitável para quem já é adulto).

Ao tentar livrar alguém dessa ideia de que não se deve chorar, é comum usar ou ouvir o argumento chorar faz bem. E faz bem mesmo — obviamente, eu acredito nisso — porque permite que sejamos verdadeiros com os nossos sentimentos. Assim, além de ajudar a liberar a tristeza, ajuda a não aumentar a angústia comum a quem se esconde e si mesmo.

“Os pesquisadores descobriram que, quanto mais as pessoas têm os sentimentos que esperam, maior é sua satisfação, ‘mesmo que sejam emoções negativas’”

Então, porque eu decidi não sentir raiva?

É neste ponto que eu explico que a minha decisão serve para quando sentir raiva faz mal.

“Ódio e raiva podem ser compatíveis com a felicidade, mas não há indícios de que outras emoções desagradáveis, como medo, culpa, tristeza e ansiedade, são”

Há circunstâncias em que a raiva dura tempo demais ou acaba se transformando ou desencadeando outra coisa, como a tristeza e a ansiedade.

É como se, depois de chorar por horas, até soluçar, você finalmente caísse no sono. Mas, ao acordar no dia seguinte, ainda precisasse chorar por horas ou um dia inteiro.

Sim, há casos em que isso acontece de fato e é completamente compreensível. Porém, seja qual for o motivo, quando a forma de extravasar a dor se prolonga, é porque: a) a dor é grande demais e vai demandar mais tempo ou b) a gente está perdendo o fio da meada e o mecanismo de liberar essa dor já não funciona para mais nada.

O problema está em “b”. E vejo a raiva da mesma forma. Se, depois de uma explosão — um desabafo, um soco no ar, um xingamento ou algumas horas de rancor— o sentimento não começar a passar, há chances de se sentir mal.

Como eu tomei essa decisão

Voltando à minha história, havia um sentimento me consumindo e eu não sabia mais o que fazer. Eu cheguei a pensar e também fui aconselhada a liberar a raiva e foi quando eu percebi que eu não tinha raiva para liberar.

“Ah, então você nem sequer precisou parar de sentir raiva, né?”

Não. Dessa vez não. De súbito me veio à memória uma situação em que eu cultivei a raiva por muito tempo e que me fez perceber que quem sofreu fui eu.

Você pode ser do grupo das pessoas que acredita que quem te machucou merece a sua raiva, merece saber da sua dor, para se sentir responsável, para se doer também (por que não?) e para se endireitar na vida.

Se for o caso, acho bem provável que você esteja no grupo certo. As pessoas precisam se responsabilizar para evoluir na vida!

Mas eu sou de outro grupo. O das pessoas que preferem não direcionar de volta a minha dor e que, por isso, acham que não vale a pena sentir raiva nem para ensinar algo ao outro.

Em suma, raiva não me faz bem e, no momento em que eu percebo que estou sentindo raiva, eu me concentro para mudar isso. Foi isso o que eu decidi. E funciona.

“Não quero mais sentir raiva”. Pronto, simples assim?

Quando eu compartilhei essa ideia com as minhas amigas, ela nos pareceu tão simples que, provavelmente, não teria como ser verdadeira. No fim das contas, verdadeira é, porém mutável e nada simples.

Verdadeira porque eu tive a oportunidade de testar (que beleza, né).

Mutável porque, como eu disse antes, eu preciso perceber que estou com raiva ou diante de uma situação que possa me gerar esse sentimento para, então, decidir parar.

Há situações em que eu demoro mais para perceber e tomar essa decisão. E há situações em que eu não quero tomar essa decisão. Me refiro àquelas situações que deixei à cargo da sua imaginação lá no começo do texto, quando eu disse que não dá para generalizar.

E não é nada simples porque a raiva vem sem aviso e porque, como já foi pontuado, a raiva pode ser necessária para que a gente se sinta bem. É como quando alguém nos diz para ter calma e a gente responde gritando que calma é a pontequepartiu.

Como tomar essa decisão?

Ninguém aqui é gênio da lâmpada ou aprendiz de feiticeira para mudar qualquer coisa num simples gesto (caso alguém seja, favor me avisar).

Mas o princípio é basicamente esse de tomar a decisão e acreditar no poder da mente. E como não existe mesmo mágica, esse acreditar envolve esforço e paciência.

Eu precisei educar a minha mente para evitar ou mudar os pensamentos que me causam raiva e ter paciência comigo todas as vezes em que eu falhei (e ainda vou falhar).

Além disso, é preciso que tudo isso faça sentido. Se você, diferente de mim, não acha e nem quer achar que deixar de sentir raiva é positivo, um abraço.

Eu não só acho que faz sentido, como considero uma conquista que me é significativa o bastante para eu estar escrevendo um texto a respeito.

E para ratificar a ideia de que os caminhos para o sucesso nunca, nunca são fáceis, eu vou finalizar dizendo que resolvi escrever sobre a minha decisão de não sentir raiva logo após perceber que eu estava sentindo raiva. Sim, percebi e parei. Deu certo e escrever serviu como forma de liberar o sentimento de forma positiva.

Sobre o estudo que embasou as “aspas”

Todas as citações foram retiradas do já mencionado estudo sobre sentimentos de raiva e ódio contribuírem para a felicidade. Acabei usando porque achei que as ideias se encaixaram bem.

Independente disso, acho que, no fim das contas, a maior parte das ideias pode ser considerada senso comum. Ou não?

Depois depois da tempestade vem a calmaria, mas eu prefiro que chova lá fora.

Chegou até aqui? Gostou, deixa palmas. Não gostou, pode se manifestar nos comentários me dizendo que tudo não passou de uma grande bobagem ;)

Don’t look back in anger.


Este post, assim como os demais publicados em meu perfil no Medium reflete minhas experiências pessoais com depressão&ansiedade. Trata-se de uma verdade é minha, seja crítico e avalie se pode ser útil para você!


Gostou? Deixa uns aplausos aí para eu saber e continuar escrevendo! E ah, se quiser falar comigo sobre o assunto, meu Twitter tá linkado na bio, só mandar uma DM lá (você não vai ser a primeira pessoa a fazer isso!)

)

Lari Reis

Written by

Lari Reis

Oi! | Escrevo sobre depressão, ansiedade e o processo de autoconhecimento que me permite enfrentar tudo isso. Se gostar, pode aplaudir :)

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade