Projeto Guri completa 10 anos ensinando música na capital e na Grande São Paulo

Iniciativa gerida por ONGs possibilita o acesso à cultura por meio da arte musical e atividades socioeducativas

Larissa Teixeira
Sep 2, 2018 · 4 min read
CEU Inácio Monteiro, um dos primeiros polos a receber o projeto Guri. / Foto: Larissa Teixeira

Entrar na área reservada ao Guri do CEU Inácio Monteiro significa ver uma parede repleta de desenhos e post its, dos mais abstratos até às mensagens declarando o amor pelo projeto. O que começou com a ideia de deixar uma marca dos antigos para os próximos alunos, cresce cada vez mais. Os funcionários já foram questionados, inclusive, se ali eram ensinadas aulas de desenho.

Em cerca de 400 polos distribuídos por todo o estado de São Paulo, o Projeto Guri ensina música gratuitamente. Apesar de grande parte dos cursos ser direcionada para crianças e adolescentes, de 6 a 18 anos, adultos também podem fazer uma iniciação nessa arte em alguns locais, mas sem especializar-se em um instrumento.

Vinculado à Secretaria de Cultura do Estado de São Paulo, o projeto é dividido em duas administrações: a Amigos do Guri, responsável pelos polos do interior, litoral e Fundação CASA desde 2004 e, a organização Guri Santa Marcelina, que gerencia a capital e a Grande São Paulo, que está completando 10 anos em 2018.

Em 2017, uma pesquisa realizada pelo Grupo Datacenso com alunos e responsáveis mostrou que a maioria deles fez novas amizades e ficou mais feliz desde que começar a estudar música no Guri Santa Marcelina e avaliar como “muito bom” o projeto em si.

Dos 45 polos existentes na capital e na Grande São Paulo, 28, funciona em CEUs. Um deles é o Inácio Monteiro, situado no extremo Leste da cidade, foi uma das primeiras unidades do projeto e conta com aproximadamente 300 alunos em 17 cursos.

Para Geilson Sampaio, assistente social da unidade, cada polo tem uma dinâmica e singularidade, apesar da mesma base pedagógica, devido às mudanças de território, equipe e alunos. Segundo ele, o Guri é de extrema importância porque “traz a inclusão musical, a perspectiva da arte e da música enquanto profissão, enquanto carreira e, até mesmo, como direito”.

Andrea é mãe da aluna Raissa, 11, e chama a atenção para a região ao explicar a relevância do projeto: “Aqui, por ser periferia, eu acho muito importante ter alguma coisa pra ocupar o tempo das crianças, ainda mais a música, né? Que faz parte da nossa vida em tudo. (…) Música traz lembranças.”. Jurema, mãe de Evelyn — também de 11 anos–, complementa: “E, outra, as peças que eles fazem aqui com as crianças ensina muitas coisas. Igual ano passado, que eles fizeram sobre a ditadura, eu achei maravilhoso, porque é o que tá acontecendo, né?”

Geilson nota que, conforme o aluno ou aluna vai se envolvendo mais com o projeto, ele se torna mais propositivo, entende aquele espaço como o seu, sugere e participa mais das atividades socioeducativas, que tem temas voltados para a questão de gênero, violência e bullying, por exemplo. Além disso, o processo de sociabilização também aumenta. A filha de Jurema tinha problemas na fala. A mãe destaca que após ela iniciar as aulas de canto, houve uma melhora na pronúncia das palavras.

Parede de desenhos e mensagens dos alunos que passaram pelo projeto. / Foto: Larissa Teixeira

Cada polo do Guri realiza dois eventos anuais, um em cada final de semestre, mostrando o que a aluna e o aluno aprenderam. No caso do CEU Inácio Monteiro, às quintas-feiras há apresentação do coral no teatro da unidade. Além disso, as crianças das escolas da região são convidadas para assistir às semestrais. Tudo isso é aberto ao público. Geilson menciona que atos como esse permitem outras manifestações artísticas, como solos, ballet e, até mesmo, bandas formadas para aquele momento.

Apesar da quantidade de participantes do programa, o profissional afirma que a rotatividade também é grande, principalmente no início do curso. A unidade faz um trabalho de monitoramento de presenças e ausências. Quando o estudante tem muitas faltas, há uma busca para entender o que está acontecendo com ele. A falta de interesse no compromisso, em relação a não adaptação a um instrumento ou ao processo de estudo e questões familiares, estão entre os fatores de desistência observados, mas não há um dado de monitoramento específico sobre isso.

O projeto Guri tem mais de 15 parcerias nacionais e internacionais. Elas possibilitam, além do funcionamento do programa, que os alunos e alunas possam seguir na carreira musical, inclusive no exterior. Andrea lembra um dia em que estava com a filha e conheceram uma outra mãe: o filho dela aprendeu violino e seguiu na área, tocando em um teatro e em casamentos. “Ela falou isso com orgulho de dizer que ele começou no Inácio Monteiro, então você vê a importância disso aqui para a periferia, entendeu?”, diz Andrea, “Minha filha ficou encantada quando ela falou aquilo. Então você vê que existe exemplos de pessoas que começaram aqui […] e hoje tá em outro patamar.”

Segundo Geilson Sampaio, o programa é bom, mas pode sempre melhorar. Um curso de instrumentalização para pessoas maiores de 18 anos não tão genérico quanto o existente, por exemplo, é procurado no polo em que ele atua: “Se um dia abrir um curso sequencial pra adultos vai demandar professor, professora, instrumentos, um espaço maior, ou uma divisão de tarefas mais cronometradas”, afirma, fatos que requerem mais investimento público e engajamento da própria comunidade.

Outro ponto é a divulgação, parte da população ainda não conhece o projeto que é gratuito e não demanda investimento com instrumentos. Para o assistente social, poderia ter mais divulgação e explicação do funcionamento para que o projeto possa crescer ainda mais.


Originally published at agemt.org.

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