O cemitério como lar e emprego

Larissa Nicolosi
Jul 25, 2017 · 3 min read

Lidar com isso [enterros] é meu trabalho, se tornou normal. Mas ainda há sensibilidade no comum.

RESUMO: Pedreiro e “coveiro” há mais de 50 anos, o curitibano Carlos Pereira* habituou-se com a morte como companheira de trabalho. Diante de idas e vindas, seu retorno ao Cemitério tornou-se inevitável após a perda da primeira esposa não apenas para colocar fim num período, mas para recomeçar outro. Hoje, aos 67 anos, Carlos busca a aposentadoria por idade diante das incertezas dos seguros trabalhistas informais.

Depoimento a

LARISSA NICOLOSI

Nasci no bairro Cajuru, aqui em Curitiba mesmo. Meus pais se mudaram para perto do Cemitério do Boqueirão e aqui eu fiquei. Lá pelos meus 12 anos, tive que arranjar algo para trabalhar para ajudar em casa e acabou aparecendo meu primeiro serviço aqui [no cemitério].

A vida nunca foi fácil. Acabei morando até no ranchinho de pedreiro dentro do cemitério. Era tão complicado que acendíamos as velas do cruzeiro para iluminar tudo, já que não tinha luz. Criamos os filhos lá [no ranchinho] até ficarem crianças maiores, aí saímos daqui e fomos para uma casinha melhor. Eu não trabalhava mais aqui depois que casei. Consegui uns serviços por fora. Mas minha esposa acabou falecendo e tive que voltar a trabalhar aqui para pagar o pedreiro que abriu a gaveta dela (suspira)… 17 anos atrás. Aí continuei… Continuo até hoje.

Não posso dizer que gosto de ser “coveiro”, mas é um trabalho digno e por necessidade. Tem certas coisas que envolvem o trabalho da gente que me fazem pensar nisso. Sepultei minha mãe aqui há sete meses e quase caiu no meu plantão ainda! Imagina? Seria pesado… Minha segunda sogra foi sepultada há quatro meses também. Quase junto.

Mas sempre há uma coisinha ou outra que gratifica: o pessoal vem e agradece por eu dar umas palavras para eles. Eu tento confortar as pessoas. A gente diz que o corpo tá aqui, mas a alma… (respira fundo) ah, a alma tá lá em cima. O corpo é matéria só. É bonito ouvir os agradecimentos, me deixa satisfeito.

Sempre tem algo que emociona ás vezes, né? Há aquelas pessoas mais pobres que não tem condições de ter um lugar certo e até digno para colocar o parente, e enterram no túmulo da prefeitura, mas fica pouco tempo lá. Aí o que dói é ver a pessoa vir visitar ou levar o corpo para outro cemitério e [o corpo] não estar mais lá… Não tem muita conversa: o serviço da prefeitura tira o corpo. Deu três anos e eles tiram sem avisar. Se a pessoa não marcar um dia certo para vir aqui e dizer: “ah, eu vou buscar tal dia”, eles fazem o trabalho.

Esse serviço da retirada antigamente era só eu e os outros coveiros que fazíamos. Agora a prefeitura tira os lá do fundo. Mas os da frente e aqui de dentro são nossos e é apenas a gente que faz: tira os ossos, coloca num saquinho…

O TEMPO

Eu sou feliz, sabe? Agora o sossego está mais frequente. Mas, nesses praticamente 50 anos de serviço, mal tive tempo para descansar. Minha vida sempre foi muito simples, passei necessidade mesmo trabalhando duro. Ganhava por dia e até por hora. Não tenho INSS e nem seguro nenhum… Ser coveiro e pedreiro era algo informal e sem garantia de direitos. Agora que tenho 67 anos quero ver se consigo me aposentar por idade. Essa semana estou atrás disso sempre que me sobra um tempinho.

Ah, e tenho que se lembrar de ir acender uma velinha pra minha mãe, mas tá difícil, sem tempo… (suspiro) tempo.

O CLICHÊ SOBRENATURAL

Muita gente sempre pergunta se vemos alguma coisa por aqui, mas não… Minha segunda esposa, que tá há 15 anos comigo, trabalha com limpeza de túmulo aqui, junto com o meu filho. Agora pouco ela estava ali abaixada limpando e uns meninos perguntaram para ela: “a senhora não tem medo de trabalhar aqui?” e ela disse: “não, quando eu era viva até que tinha, mas agora…” (risos) Vai dizer, tem é que ter medo dos vivos!

Carlos Pereira*, 67 anos.

Curitiba/PR — Ago/2016

*nome fictício para privacidade da fonte

    Larissa Nicolosi

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    Contando uma história sem perder a estribeira // Jornalismo, UFPR.