Milagre da Manhã

Com certeza estava em Minas Gerais. Não Minas Belo Horizonte ou aquelas cidades grandes, mas no interior mesmo. Como eu chegara aqui? Não sei. Tampouco importava. Já estava amanhecendo, vislumbres de raios solares crepitavam no horizonte. Ainda assim, não diria que esta noite era uma das mais escuras.Escondendo-se atrás de brumas, jazia uma tímida lua cheia, embebecendo a ínfima escuridão que ainda restara com seu encanto prateado. Uma gélida corrente de ar surpreendeu eriçando-me a nuca, carregando consigo o aroma de brejo e café. Poderia reconhecer aquele cheiro a quilômetros de distância. Era um cheiro gostoso misturado ao do frio, enchia meus pulmões numa jorrada sinestésica. Mordi o lábio inferior verificando se era um sonho. Quando você transforma comportamentos despretensiosos e corriqueiros em algo completamente mágico e prazeroso, pode-se dizer que é um pequeno milagre. Inspirar a álgida e perfumada brisa decerto era minha água em vinho.

Inerte na grama úmida, assim permaneci desfrutando do momento. O vento batia, meus cachos rodopiavam. E voltava, fazendo com que os babados de meu vestido dançassem. Batia de novo, chamando o orvalho para sua valsa. Retornava a fragrância de terra molhada. E batia. E voltava. E batia E voltava. E trazia. E levava… E cessou. Da canção dos ventos fez-se o silêncio, um uivo do vácuo. E o frio antes agradável, o próprio lobo. Com os braços juntos ao peito e membros tremendo, levantei-me em busca de refúgio. Procurei para um lado, procurei para outro, apenas os morros da Serra da Mantiqueira ao meu redor. Talvez fosse uma bela visão de dia, mas no momento meu pensamento estava voltado unicamente ao congelar lancinante mordendo cada milímetro da minha pele. Uma singela estrada de barro e pedregulhos apontava para o oeste, não havia outra opção senão segui-la e quem sabe encontrar algum sítio. O caminho era largo e enlameado, cuidadosamente, cambaleava tentando não topar em uma jararaca por engano. Seria o fim: no meio da verde imensidão, sem civilização, sem primeiros-socorros, um descuido, uma picada e poderia no máximo fazer um torniquete mas até encontrar ajuda o membro afetado já teria apodrecido.

A medida que avançava, tinha a impressão do céu escurecer. Olhei de soslaio por detrás do ombro esquerdo, a aurora eminente dera lugar para pura trevas. O fulgor das estrelas me fitava quase desafiador, juntamente com a lua, cegando quem quer que ousasse a dirigir o olhar com sua beleza virginal. Logo a minha frente, uma escassa fumaça subia pelos pinheiros, atrás dela uma única lamparina incandescia em meio aos troncos, onde a estrada aparentava terminar. Tal final do meu ponto de partida, fora impossível prever. Comecei a correr em sua direção, escorreguei em uma poça e afundei minhas mão na lama, enquanto meu rosto ia de encontro a cascalhos. Rapidamente me levantei e continuei, um filete de sangue escorria sobre meu supercílio e empapava a sobrancelha, poucas gotas foram suficientes para embaçar minha visão.

A casa era bem pequena-menor do que imaginara-, sua grotesca pintura branca descascava nos cantos, exibindo uma simplória parede de pau-a-pique. Grandes janelas azuis rangiam sem indício de movimento. Algumas telhas estavam faltando e as outras aparentavam ser bem velhas e desgastadas. Não devia ter muitos moradores, sequer tivesse um. Sequer aquela única luz que irradiava nos fundos da casa não fosse um refugiado que nem eu. Apesar de todos os descuidos, aquela singela construção a trazia um sentimento de conforto. Contornei a casinha sem muita discrição, folhas e gravetos estalavam sob as botas, gostaria de que minha presença fosse notada antes mesmo de atingir o quintal.

Ao contrário da casa, o jardim estava muito bem preservado. No centro um Bougainville roubava a cena, avivando o chão barroso com suas flores púrpuras. Junto ao seu tronco, um senhor descansava em pé segurando a lamparina.

-Senhor?

-Querida?-sussurrou a voz trêmula, como se estivesse fazendo o maior esforço do mundo

Conhecia aquela voz. Conhecia aquele jeito corcunda. Conhecia aquelas roupas velhas e desbotadas, sempre de listras e em cores pastel. E além de tudo, conhecia aqueles olhos que agora sorriam para mim com tamanha ternura.

-Vovô!

Vô deu um risinho tímido e silencioso, inclinou-se sobre um arbusto e colheu o que ali crescia: bolinhos em forma de rosa.

-É verdade! O senhor sempre me disse para plantar o que quisesse que cresceria!

Ele continuou a me fitar como se estivesse recheado das mais mirabolantes histórias que sempre contava e quisesse dar mil conselhos como sempre fazia. Porém continuou no seu silêncio. Pôs o bolinho de flor em meu bolso, deu um suave beijo na minha face, apagou sua lamparina e entrou na casa. Sozinha novamente eu estava. Rompi em lágrimas de frustração, lágrimas quentes que lambiam minhas bochechas, misturando-se ao sangue. Não sentia mais o perfume das flores. As cores pulsantes não enchiam mais os olhos. Só sentia o odor férrico dos meus machucados e enxergava o que os astros permitiam.

De repente, o choro parou. As lágrimas não vinham. Fez-se um silêncio mortal e o vento frio subiu pela minha espinha. Involuntariamente prendi a respiração, mas também não consegui soltar depois. Uma súbita vontade de gritar ocupava minha garganta. A boca não abria, o som não saia. Queria correr, fugir, esconder-se, as pernas não mexiam. Fiquei estática, presumindo o mal se aproximar e romper de trás das folhas em forma de um animal raivoso ou alma penada. Nada acontecia. O único som eram os batimentos acelerados do meu coração. O frio aumentava gradativamente, não um frio só físico mas aquele que congela o corpo e bafora a alma, extrai de si todos os sentimentos bons, todo o calor, todo vestígio de vida e deixa apenas o medo. Medo que o consome a medida que ele chega mais perto. Você pode senti-lo se aproximar. O medo é parte dele e pulsa a medida que ele chega. Perto o suficiente é quando você encara a morte como misericórdia e a toma como primeiro desejo. Era exatamente o que eu queria: morrer. Qualquer coisa que me afastasse disso. A sensação era de estar presa em um cúpula do medo e aos poucos sendo sufocada pelo mesmo. Ainda não tinha conseguido soltar a respiração, estaria morta? Morri sem perceber? Porque não parava? A atmosfera pesou sobre minha cabeça e senti uma mão pousar sobre meu ombro. Consegui virar meu pescoço e olhar nos olhos daquilo por um segundo: órbitas negras como piche, o verdadeiro vácuo. O corpo de forma humanoide porém sem uma matéria identificada.

Quando abri os olhos, estava em meu quarto. Meu coração não desacelerara o ritmo. Ainda sentia aqueles olhos piche me observando, nada poderia fazer. Agora ao menos, o sol já rompia dentre os prédios, o amanhecer estava próximo. Era apenas uma questão de esperar, e assim, com medo, esperei, acuada e imóvel. Até sentir um cheiro de café e ouvir o apitar de uma chaleira, traziam a manhã, e com ela, a retomada da minha consciência. Era um milagre.