O Novo Bom dia

Preciso falar sobre meu transtorno, cada vez mais comum na nossa sociedade. É constrangedor, nojento e pesado. Por isso, é preciso abordá-lo ao invés de fingir sua inexistência.

1.1 Ontem

18:08. A aula começara às 18. Observo pela grade do elevador os andares passando, uma eternidade até o térreo, vou cutucando involuntariamente a cutícula com as unhas, os pés não param quietos. Finalmente a grade se recolhe e deparo-me com a porta vinho, talhado um A branco descascando. Vou caminhando a passos ligeiros até a saída do prédio sem muito prestar atenção no ambiente. Um senhor negro de cabeça grisalha faz contato visual, de primeira não o reconheço sem meus óculos, mas logo desvio o olhar para a regata vermelha e branca, cores do Salgueiro. Era José, avô de minha amiga.

-Engordou, heim!!- zombou o velho com um sorriso de uma orelha a outra.

Engordei?! Engordei… Ainda que eufórica parei na farmácia. T@irei celular, chave e até mesmo um papel de bala do bolso, cada miligrama contava. Subi na balança: xkg. De fato, engordei. Um teto de vergonha desabou sobre minha cabeça. Engordei, sim, engordei! Mirei o mendigo espreguiçado na porta, vestia farrapos apenas o suficiente para cobrir suas coxas, os pés desnudos eram carvão e as unhas esverdeadas, já saiam dos dedos. Eu era mais suja que ele. Senti falta de ar, minha garganta estava entupida com a culpa e desespero. Poderia romper em lágrimas ali mesmo. A aula, sim, a aula! Já faltara a semana anterior, não consegui sair de casa, mais algumas e estaria reprovada. Pior que ficar gorda é gorda e reprovada, dupla desonra.

Durante a aula volta e meia me pegava fitando os braços –maiores, mais rechonchudos-, as pernas –flácidas, imensas-, o short que um dia fora largo pressionando a barriga… Gorda! Gorda! Muito gorda! Podia ouvir os risinhos voltando, os risinhos, as brincadeiras, apelidos, a amiga cheinha, fortinha, bem avantajada, a bonita, mas só se tivesse xkg a menos. Será que os meus colegas de turma também me olhavam assim? Analisei cada um deles, alguns mais magros, outros mais gordos, será? Será? Era evidente que eu era mais magra que a maioria, mas mesmo assim, achava-os bonitos, da forma que eram, porém, repetia para mim mesma que nunca queria chegar naquela silhueta, mas poderia, afinal estava engordando, e tão depressa!

Chegando em casa fui tomar um banho, a água escaldante quase dissolvia minha pele. Abaixei a cabeça, um amontoado de pele e banha salientava na altura do umbigo. Não era assim, não, não, não era, porque está assim? Eu falhei? Não estou me alimentando bem, não pode ser! Nua e pingando, em frente ao espelho conseguia imaginar os ossos esculpidos atrás de tanta gordura. E chorei, chorei um choro baixinho e desesperado, de quem fez algo errado e não sabe o que. Perguntei-me como as pessoas viam isso, como andavam ao meu lado sem sentir vergonha, como meu namorado conseguia amar essa aberração e os elogios se tornarem tão constantes. Era pena, só podia ser.

Comi. Preenchi a vergonha, o vazio com doces e o que tinha. Parecia que aquela aumentava cada vez mais e esse sempre que preenchido se esvaziava. E foi-se tudo por água a baixo, tudo: meus pensamentos, minha dignidade, minhas esperanças, meu amor, meu orgulho e meus dias de recuperação. O pior: toda a minha essência, a minha vontade de ser eu, de me cuidar circulavam em alguma tubulação do prédio. O vazio engoliu o vazio, em meio a tanto vazio não sabia o que era eu, se é que eu existia.

Tive uma péssima noite de sono, o esôfago em chamas e o estômago preenchido com ácido e remédios. No canto da língua ainda sentia o gosto de vômito, por mais que tenha escovado os dentes 3 vezes e usado antisséptico bucal. A pressão baixa, as mãos trêmulas, a visão turva, mais uma vez eu tinha me matado. Ia me mutilando aos poucos, a cada dia um pedaço meu dilacerado se despedindo no banheiro. Apesar do caos, em algum lugar bem distante permanecia a ideia de um novo e limpo amanhã.

1.2 Hoje

Não tão limpo quanto esperava, mas mais limpo. Sim, aconteceu de novo. Fazer o que né? As vezes me pergunto se esse “fazer o que” é prejudicial na minha recuperação, assume uma posição comodista mas ao mesmo tempo é uma forma de sentir menos culpa- nossa, e já tem tanta! O meu transtorno alimentar vem me consumindo um pouco mais de Um ano e meio. Tem dias que eu não conseguia me levantar da cama, outros, comer, e quando comia, comia, e vinha a culpa. Há um ano e meio venho privando meu corpo de alimento, combustível para o nosso organismo. um ano e meio de compulsões e bulimia. Um ano e meio me olhando no espelho e desejando os ossos cada vez mais exposto mesmo quando já estavam rasgando minha pele. Um ano e meio me afastando de eventos sociais. Um ano e meio desejando morrer para não ter que comer. Um ano e meio apagando em locais públicos como um motor de carro morre por falta de combustível. Um ano e meio se pesando diariamente e contando calorias. Um ano e meio sem menstruar.

É muita coisa tanto para uma menina de 15 anos ou 17, para qualquer um. Senti os sentimentos mais horríveis e enxerguei os demônios mais macabros no espelho. Não quero isso para mim, não mais. Afasto-me mas os malditos voltam e arrastam-me pela perna. Tudo que eu consigo agora dizer para mim mesma é “Desculpa”. Espero que meu corpo perdoe minha mente, eles tem andado em completa dissintonia, só quero fazer as pazes, encontrar um equilíbrio. A batalha na minha realidade virtual gera desastres catastróficos no meu fisiológico. Não vale a pena comprar essa guerra. Infelizmente é uma luta constante não só presente na minha cabeça mas na de muitos atualmente. Os padrões de beleza cada vez mais magros, esqueléticos, impostos pela mídia: mulheres magras como passarinhos e homens musculosos como touro, todos em forma, felizes, a pele perfeita de photoshop, a aversão a gordura, afinal-gordos só servem para comer e serem os amigos engraçados nos filmes, não é mesmo?-, as dietas milagrosas e o estilo fitness de se viver, acabam tendo consequências na mente de qualquer um exposto a esse meio tóxico e nojento. Lembro-me no “auge” da minha anorexia uma pessoa muito próxima falou: “Já que quer ficar magra desse jeito ao menos vai fazer algo útil e ser modelo!”. Como sou uma pessoa impulsiva, assim o fiz, e enviei currículos com fotos. Xxkg. Shorts largos, clavículas marcadas, pele e osso. Admissões, ligações, ensaios. Queriam comprar minha doença. Queriam me comprar, pela minha doença. Isso doeu. Uma pontada no fundo da alma, dá vontade de urrar de ódio como um animal selvagem moribundo. Onde chegamos? Onde eu cheguei? No que me tornaram?

O mundo está cada vez mais obcecado em expor como está saudável mediante tanta oferta de comida industrializada e sedentarismo. Obcecado em diminuir os modelos nas lojas de roupa e transformar seres-humanos complexos no tamanho de sua calça ou nos números que marcam na balança. Você sai na rua e não ouve mais “Bom dia, tudo bem?”, o assunto é sempre “Engordou! tá comendo demais?”ou “Emagreceu! Qual foi a dieta?”. Ouvi muito esse. A cada vez que perdia mais peso os elogios aumentavam, quanto mais doente, mais bonita. Ninguém se continha para questionar-se ao mal que estavam fazendo, cada vez me envenenando mais e mais. E eu gostava de ouvir isso, e olhava para trás e me afastava do monstro que faziam pensar que eu era para tornar-me um novo, um real e infeliz. Então, não me desculpem, mas prefiro ficar com o meu “Bom dia”.