Pedrinho

Quem diria que um ano depois acharia este trabalho de história e visse que a proposta valera à pena

Após inspecionar o ambiente e certificar que as únicas almas vivas eram apenas pássaros, Pedrinho recostou numa parede úmida e pôs-se a chorar. As lágrimas quentes o confortavam, seus soluços em desespero eram abafados pelas pedras, podendo facilmente serem interpretados como gemidos de um animal moribundo. Aquele era o único lugar que poderia ser ele mesmo, Pedro, apenas Pedrinho, sem Império, sem tutores, sem política, sem nomes pomposos, sem mais nada, o encontro do eu com o eu e a natureza, sua confidente. Desde que o pai o largara, com 5 anos, Pedrinho tomara aquela gruta nas proximidades como refúgio e desde então passava a maior parte do tempo possível, inclusive volta e meia faltava suas reuniões da maçonaria para desfrutar da paz que aquele canto trazia.

Nunca tivera muitos amigos, na verdade, talvez o único fora seu pai. Mas Pedro ainda se perguntava se amigos o abandonariam ainda que tivessem bons motivos. De fato era um jovem solitário, desde pequeno fora privado de uma infância normal para dar lugar aos estudos e a arte de liderar, ciente de todas as estratégias políticas, econômicas, com discursos populares adornados com palavras bonitas e um carisma excepcional para um futuro imperador. Na verdade, só queria encontrar um outro sentido para continuar vivendo que não fosse governar.

Ainda que não gostasse do seu fardo, Pedro decidiu assumi-lo. Com o tempo aprendeu a amar seu futuro império, seu futuro povo e desejava um dia livrá-lo de todos os males e começar uma época de ouro. Vira o poder passar de mãos em mãos. Primeiramente, foram três: Vergueiro, José e Francisco, um liberal, um restaurador e um conservador. Posteriormente houve uma eleição permanente e como ministro da justiça, temos o ilustre Diogo Antônio Feijó. Tempos difíceis para se governar, restauradores e exaltados faziam oposição aos regentes. Esse tal de Feijó, até tentou criar uma Guarda Nacional para conter os excessos, quem dera que fosse só isso, o pior ainda estava por vir. O povo estava insatisfeito, cada um com seus motivos, seus ideais, mas com a regência ninguém estava muito contente, começaram as revoltas. Pedrinho viu o Brasil sangrar de Norte a Sul, enquanto usava seu roupão de seda, lia cartas sobres os farrapos no Rio Grande. Deitado sob seu dossel imaginava o vermelho tinto do linho como as vísce–ras dos pobres ribeirinhos tingindo as águas do Amazonas. E os sabinadas, os malês, sangue negro, branco, muçulmano, católico, tanto sangue, tantas mortes, de um jeito ou outro sentia-se culpado por ser o próximo imperador e o máximo que poderia era mandar condolências a famílias de soldados. Uma hora isso teria de acabar.

Finalmente os liberais e conservadores tinha entrado em consenso, para acabar com essa carnificina apenas o glorioso imperador poderia restaurar a ordem. Antônio Carlos, um amigo de seu pai, levou a ideia ao senado, onde conseguiu bastante apoio. Pedrinho sabia o que estava por vir, tinha consciência de que seria oficialmente a marionete de seus tutores, não era conivente com isso, tampouco poderia fazer, fora criado por essa gente, não era mais forte que eles, não por enquanto. Ele era apenas um menino querendo ser menino, lavar suas mãos de tanto sangue, se apaixonar e viver. –Ah, Pedro, tudo tão bonito e inspirador, deveria ter nascido poeta, dizem que eles são livres e sabem viver, bêbados embriagados de vinho, amor e tudo do melhor e pior que puderem extrair do mundo- sussurrou o jovem para si mesmo, como se assim pudesse vislumbrar uma segunda vida- mas não sou, sou Pedro, Pedro II, futuro imperador, fui destinado a este cargo e pelo menos uma vez tenho de começar a aceita-lo, não posso trilhar um novo caminho mas ajustar o meu próprio- foram os últimos soluços de Pedro, que calmamente secou suas bochechas quentes e marchou para fora da gruta, de onde nunca mais voltou.