O erro fundamental da Direita

Um erro fundamental da “direita”, fundamental no sentido de que dele derivam tantos outros, é que no fim das contas a “direita” não existe por si só, mas se define por contraste, por oposição, à “esquerda”. Isso impede que este conglomerado desordenado e conflitante seja capaz de propor soluções coerentes, coesas e conexas. As definições do que constitui a “direita” só podem comportar toda a variedade de tipos desconexos sob este rótulo se, e somente se, a definição for frouxa do tipo “não é esquerda e, mais, a ela se opõe”.

Algumas visões de mundo são quase que exclusivamente “de direita”, como a maioria dos tipos de conservadorismo (em especial os religiosos); os lânguidos posicionamentos de, seja quem for que estiver se beneficiando da coisa pública, manter o status quo; praticamente todo aquele que, ainda que deseje alterações pontuais das condições vigentes, rejeite os excessos revolucionários; muitos daqueles que só querem um Estado forte que imponha “ordem” e beneficie os “amigos do rei”. A estas variedades se somam muitos dos “liberais clássicos”, os liberais em sentido amplo e primitivo; os que são liberais apenas em sentido econômico, ou com maior foco na porção econômica do liberalismo; os libertários, que realmente deveriam ter motivos de sobra pra não se sentirem à vontade nesta aglutinação.

Insisto que o que une estas diversas visões de mundo, entre outras, sob o rótulo de “direita” é sua mordaz oposição à “esquerda”. Muitas destas visões de mundo são incompatíveis entre si, como, por exemplo, um dominionista nacionalista e um libertário globalista. O que estes dois tem em comum é repúdio, por motivos diversos e a pautas diferentes, do que quer que percebam como sendo “de esquerda”. Sua união é, portanto, vaga, frágil, oportunista e de ocasião: o que explica muito de seu insucesso por décadas ao longo do século XX, embora sejam tantos os que se dizem “de direita”.

Ainda que um dos pilares fundamentais da “esquerda” — e responsável por seus piores males — seja o profundo repúdio axiomático ao Capitalismo e/ou ao “sistema”, não é como se a “direita” fosse tão somente o oposto disso: tendo por axioma que o Capitalismo (ou o “sistema”) seja inteiramente benéfico, perfeito, devendo ser deixado como está, sem retoques ou críticas. Muitos da “direita” realmente tem alguma simpatia pelo Capitalismo, sim, mas tantos outros almejam profundas reformas no sistema (Capitalista), enquanto os mais religiosos dos conservadores veem o Capitalismo em si, o consumismo, a modernidade e afins como algo a ser combatido ou então domado.

Sem sequer um eixo ideológico comum, uma concordância propositiva fundamental, dificilmente resultaria deste conglomerado propostas claras e factíveis. Como discordam profundamente entre si no conjunto de valores a ser defendido ou repudiado, não há defesa de uma tese, mas apenas oposição mordaz às teses alheias. Como o vínculo que une as partes deste todo é tão somente o desgosto, muitos intelectuais não veem atratividade nesta nuvem difusa de visões de mundo conflitantes: e preferem fazer oposição a uma tese específica de “esquerda” fundando uma nova vertente de esquerda.

Assim, uma das consequências da falta de coesão e coerência da “direita” é que ela se torna majoritariamente pouco atrativa a intelectuais, sendo terra fértil para irracionalidades, intuições viscerais e populismo. Não que a “esquerda” não tenha frondosos bosques de irracionalidade e populismo, mas a questão é que em meio à “direita” sobra pouco espaço para a racionalidade, para análise crítica.

Sim, muitos subgrupos de direita, em especial os diversos subtipos de liberais, tem sua produção intelectual profícua e suas leituras de mundo analíticas — muitas vezes são bem mais objetivos e rigorosos do que a “esquerda” em geral — , mas não são estas as escolas dominantes de pensamento. Não se reconhece, em geral, um partidário de “direita” por sua argumentação clara, lógica e embasada à lá Stuart Mill. Pelo contrário, as intuições viscerais, os preconceitos rasos, a desconfiança em relação à intelectualidade e afins são as marcas características de um “direitista” típico.

Então, em meio à carência intelectual e à ampla desconfiança de seus partidários em geral à intelectualidade e aos acadêmicos, floresce todo tipo de irracionalidade e resistência à ciência, à tecnologia e às conquistas da modernidade. Um vício que compartilham com a “esquerda”, em especial com a ala pós-moderna.

Outra funesta tendência da “direita” compartilhada com a “esquerda” é seu despudor anti-Humanista e anti-Iluminista. Parte disso se deve aos tradicionais adversários do Humanismo, como os ferrenhos defensores de narrativas míticas e de entidades clericais, em meio às fileiras da federação “direitista”. Parte disso se deve à esterilidade intelectual típica de boa parte da “direita” e de sua quase hegemônica desconfiança nutrida contra a intelectualidade, a ciência e a modernidade.

Mas o pior e mais desumano da “direita” se manifesta quando ela é capaz de mover as paixões das massas e liberar uma perigosa — e muitas vezes genocida — fúria irracional. Isso decorre exatamente da “cola” que define a direita: sua oposição e repúdio à esquerda. Sempre que a esquerda manifesta o pior e mais hediondo de seu modus operandi anti-Capitalista e “contra-o-sistema” — o que não é exatamente raro, diga-se de passagem — a direita responde de maneira visceral, agressiva e potencialmente violenta. A insegurança e o medo generalizado causados pelas piores peripécias da esquerda alimentam a capacidade da direita de sufocar suas vozes racionais e apostar tudo na intuição visceral, na fúria, na revolta, no medo.

Pode-se dizer que a direita pensa combater monstros, vários deles terríveis e inumanos, e que muitas vezes ela mesma se torna monstruosa ao desempenhar esta tarefa. E que, muitas vezes, ganha imenso poder justamente quando não deveria — quando está tão ou mais monstruosa do que a ameaça que diz combater.

Neste cenário de “batalha final” contra demônios, ai dos vencidos! Ai de todo aquele que questionar ou criticar seus abusos! A farra dos beatos se regozijando com a pena dos danados é substituída pelo vae victis, e com ele toda justiça, toda sensatez, todo Humanismo se esvai. O respeito pela dignidade humana é deixado em segundo plano, os direitos individuais são desrespeitados, os Direitos Humanos repudiados.

Quem precisa de pena proporcional, presunção de inocência, liberdade de expressão quando o assunto é terminar, de uma vez por todas, com os terríveis esquerdistas e com sua corja de apoiadores ou de zumbis endoutrinados? Já o Secularismo, para muitos na direita, está morto e enterrado por princípio. E que mal há conceder poder e influência a clérigos e entidades clericais se estes se aliarem aos cruzados anti-esquerda?

O erro fundamental da “direita” é ser nada mais do que “anti-esquerda”.

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