Verdades pré-concebidas

Como somos bons em reconhecer padrões e em estimar relações causais — embora nem sempre de maneira precisa — é normal que poucas coisas nos surpreendam e que dados e informações novos sejam imediatamente interpretados sob uma ótica previamente conhecida que estabelece uma noção básica de como funciona a realidade. Assim, a menos que façamos um esforço consciente para analisarmos racionalmente o que nos é novidade — ou a menos que a novidade seja desconcertantemente surpreendente — , adicionamos o novo à concepção anterior de mundo.

E a respeito das tarefas cotidianas isso costuma funcionar muito bem. Por exemplo, alguém que nunca viu determinada fruta consegue estimar se ela está ou não própria para o consumo na maioria das vezes: só algumas frutas muito bizarras cheiram ou se parecem com algo podre mas estão boas para o consumo.

Mas quem se dedica a compreender sistematicamente alguma variedade de eventos não pode se dar o luxo de jamais conferir se as coisas realmente se encaixam nas estruturas pré-concebidas de realidade. Aqui também se aprendem novos modelos pré-concebidos, muitos dos quais são contra-intuitivos, aos quais tentamos encaixar as novidades num primeiro momento e, desta forma, compreender os eventos e extrair sentido do mundo ao nosso redor.

Esta tarefa investigativa nos possibilita, na prática, contínua melhora na compreensão de como, de que maneira e por quais processos os fenômenos ocorrem e, assim, fornece ferramentas para modificar o mundo de acordo com nossa conveniência. É assim que temos computadores, produção industrial de alimentos, medicamentos e ferramentas diagnósticas.

O trabalho investigativo exige uma constante revisão destas estruturas de concepção prévia da realidade. A enorme maioria das pessoas não tem como rever constantemente tais estruturas, por isso que esta tarefa é, em geral, realizada caoticamente por um enorme coletivo. Apenas quando ocorre alguma crise estrutural, evidente através de uma falha grave no entendimento de algum conjunto de processos e eventos, é que há um esforço conjunto organizado para revisar as estruturas prévias de concepção da realidade.

A identificação destes “terrenos críticos”, nos quais as estruturas formais de concepção da realidade falham, é de grande importância para a contínua tarefa de melhor compreender o mundo. As revisões estruturais decorrentes da solução de problemas específicos de conformidade entre observação e pré-concepção da realidade resultam, em geral, em grandes saltos na capacidade de entender e modelar a realidade.

Pois bem, o ponto é que as linhas investigativas deveriam se submeter a ininterruptas e constantes revisões de sua estrutura de concepção prévia do mundo segundo sua melhor capacidade de explicar o que é investigado. Esta pretensão racional é genericamente atribuída à ciência, mas a matemática e a filosofia também precisam seguir este padrão para aprofundarem as investigações.

Acontece que outras estruturas de concepção prévia da realidade competem com o formalismo investigativo. As pessoas nomeiam facilmente miríades de preconceitos culturais, religiosos, etc que, sim, limitam a desenvoltura individual das pessoas no domínio das ferramentas investigativas. Isso é dirimido através da crítica aberta interpares e em grande escala, muito embora questões práticas deixam este processo muito aquém de uma eficácia ótima.

Entretanto, há outros fatores que, perigosamente, competem com as estruturas formais de concepção prévia das disciplinas investigativas: dentre eles os mais tóxicos são as poderosas ideologias — geralmente políticas — que interferem e por vezes se sobrepõem ao formalismo investigativo.

O que ocorre é que as pessoas comprometidas ideologicamente aceitam as pré-concepções ideológicas como fundamentais e revisam as ferramentas investigativas — e, principalmente, seus resultados — de acordo com o modelo ideológico da realidade. Isso obviamente “filtra” de antemão as investigações e racionaliza a obtenção de resultados enviesados.

Por vezes o próprio formalismo investigativo se torna submisso às ideologias por tanto tempo que as fronteiras entre uma coisa e outra ficam nebulosas. É relativamente fácil identificar onde e quando isso ocorre: a nomenclatura investigativa deixa de ser objetiva, há pouco ou nenhum compromisso com dados empíricos e a interação com outras disciplinas é hostil, com pouco diálogo e acusações mútuas de parcialidade explícita nas análises, não discussões técnicas acerca da metodologia analítica e da validade teórica dos modelos adotados.

Acontece que campos inteiros de pretensa investigação racional foram dominados por ideologias políticas às quais se submetem as ferramentas investigativas. Há campos onde a supremacia ideológica é tão feroz que a própria tarefa investigativa é, de antemão, dada como fugaz, impossível — ou pior: potencialmente prejudicial.

A empreitada investigativa racional tem por objetivo a constante atualização das estruturas de concepção prévia da realidade de acordo com sua melhor adequação na tarefa de explicar aquilo que é investigado. É como se obtém o conhecimento necessário para modificar o mundo de acordo com nossa conveniência e o que nos possibilita termos técnicas melhores. Por exemplo, temos técnicas diagnósticas cada vez melhores; medicamentos cada vez mais eficientes; computadores cada vez mais poderosos; automóveis cada vez menos poluentes.

Quando as ideologias se sobrepõem às estruturas formais de investigação o entendimento do que é investigado deixa de ser aprofundado e as tentativas arbitrárias de intervenção na realidade frequentemente são ineficientes. Os territórios investigativos mais submissos às ideologias são os que menos aprofundam sua capacidade de compreensão da realidade — até porque frequentemente nega-se esta possibilidade — e os que menos possibilitam a utilização de seu conhecimento para aprimorar o bem-estar humano.

Enquanto a neurociência, a genética e a bioquímica progridem, em conjunto com a tecnologia de materiais e informática, cada vez se compreende melhor aspectos importantes da natureza humana — algo cuja existência é negada por muitos investigadores ideologicamente submissos — e propostas factíveis e potencialmente eficazes de intervenção decorrem do conhecimento obtido, sugerindo soluções para amenizar problemas cotidianos. Entretanto, todo o onanismo ideológico dos estudos de gênero e raça não só não aprofunda o entendimento da realidade, como é incapaz de sugerir intervenções eficazes. E, pior, muito do discurso destes territórios investigativos ideologicamente submissos é potencialmente danoso ao bem-estar das pessoas: por exemplo quando afirma não haver diferenças fundamentais entre homens e mulheres, o que pode resultar em terríveis consequências na aplicação da medicina.

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