Enredo de Domingo
Tom Wright

Como os escravos se libertam? Vivendo o presente à luz do futuro. As parteiras e a mãe de Moisés atuam a partir dessa esperança desafiadora. Moisés, destinado a liderar Israel na travessia do Mar Vermelho, começa sua própria vida sendo arrancado de uma cova na água. A liberdade futura vem correndo até a escravidão atual e a transforma.
Fitafuso, o experiente diabo, apontou para o seu sobrinho Vermebile [nas Cartas de um diabo a seu aprendiz, de C. S. Lewis] que os tentadores efetivos não colocam coisas na cabeça das pessoas; eles mantêm as coisas afastadas. Aprenda a pensar cor-reta-mente (think straight), exorta Paulo, acerca de onde você está no propósito de Deus, que horas são, qual o papel que você tem no corpo único de Cristo. O pensamento correto não é uma questão de razão sem ajuda alguma. Aqui em Romanos trata-se da transformação da mente: a mentalidade escrava da era presente deve ser abandonada em favor da liberdade dos filhos de Deus, que, sabendo-se pertencer à nova era que nasceu com o Messias, aprendeu a viver no presente à luz desse futuro.
A mente tem que viajar, por assim dizer, à frente do restante (“corpo” em 12.1, como muitas vezes em Paulo, não significa apenas “seu eu físico”, porém mais o que queremos dizer com “pessoa”, ou mesmo “personalidade’). À medida que a mente é renovada, ela deve liderar o caminho para o futuro, produzindo atos de vontade e, portanto, ações sacrificiais de toda a pessoa, que descobre, experimentam na prática e celebram em performance, o comportamento que é agradável a Deus.
Por que Deus se agrada? Porque a imagem divina é restaurada. Imagine uma grande rainha, cuja semelhança real tenha sido desfigurada nas moedas do reino, descobrindo com alegria que as próprias moedas escolheram ser refeitas à sua verdadeira semelhança. […] Conserve essa história em sua cabeça, e você tem a sequência da re-humanização que envolve Romanos de 1.18 (Pois a ira de Deus se revela do céu contra toda impiedade e injustiça dos homens, que impedem a verdade pela sua injustiça) a 12.2 (E não vos amoldeis ao esquema deste mundo, mas sede transformados pela renovação da vossa mente, para que experimenteis qual seja a boa, agradável e perfeita vontade de Deus), passando por 8.29 (Pois os que conheceu por antecipação, também os predestinou para serem conformes à imagem de seu Filho, a fim de que ele seja o primogênito entre muitos irmãos). Deus criou, em Cristo, a verdadeira semelhança que, pela graça, um dia portaremos. Nós, por nossa escolha livre e ponderada, devemos nos tornar no presente o que Deus projeta que devemos ser no futuro. Este é o fundamento do comportamento cristão.
Pedro vislumbrou o futuro de Deus e declarou que Jesus era o Messias. Mas Jesus também deu a Pedro um futuro que teve que ser trazido para a realidade presente. A ideia de que Pedro e, portanto, o papado, era o fundamento “rocha” da igreja foi uma inovação do século XVI. O próprio Messias é a fundação do novo Templo. Reconhecer Jesus como o Messias significava, para o perplexo Pedro, aprender a pensar na linha (cor)reta que levava do eventual futuro de Deus, passando pela cruz, a um presente mais desafiante do que ele tinha suspeitado.
adaptado de
Tom Wright,
Twelve Months of Sundays: Biblical Meditations on the Christian Year.
