Caminho n. 1
Desci atrasado. O porteiro já sabia disso. “Será que vai ter um dia que você vai sair na hora”, ele provocou, rindo de um jeito que não pedia tréplica. Eu caminhava rápido até o metrô, mas nessas horas sempre aparecem um milhão de pessoas na sua frente. Um homem sem um pedaço da boca pedia dinheiro. A baba escorria como um riacho, porém não dei nenhum. Me arrependi depois. Finalmente cheguei no ônibus. Estava quase vazio, mas alguém já tinha sentado no meu lugar. Eu me convenci a não brigar por ele, e fui para o fundo. Um homem gordo sentou do meu lado. Toda hora roçava o braço dele no meu. Era judeu, soube logo que vi aquele chapeuzinho. E peludo. Eles usam isso porque acreditam que assim Deus sabe onde eles estão. E fiquei pensando no que eles usam para se esconder de Deus. Ele teclava no celular entusiasmado. Não tinha ar-condicionado, e ele roçando toda hora em mim… quando cheguei ao ponto, outro milhão entrou na minha frente. O céu estava escuro. Talvez choveria. E pensei que na chuva fosse o único lugar onde dê pra se esconder de Deus. Ele também não quer se molhar. Só.