Naftalina

As dores de cabeça só aumentaram. Ela já nem escondia que isso era só uma desculpa. Sem muito jeito, ele também deixou de insistir.

Dormiam separados: ela na cama, ele no sofá com a televisão ligada. Só ia pra cama quando as costas reclamavam demais. Depois de um mês, a quantia que ele deixava de manhã na mesa diminuiu. O cartão perdeu o limite bem quando ela fazia compras no supermercado. Nervosa, ligou para ele na fila mesmo e ouviu que a crise tava complicando os negócios. Foi obrigado a cortar os cartões.

Se arrependeu de não ter mandado a empregada. Tento descolorir o vermelho do rosto com o orgulho mais profundo que ainda lhe restava, pagou o que pode com o dinheiro guardado na bolsa, e foi para casa ciente de que daquela noite não passava.

Chegou em casa, tomou banho. Passou as últimas gotas do perfume no pescoço, pulso e barriga. Alisou o cabelo, e passou creme nas pernas. As crianças ficaram na casa da mãe. Pensou em acender velas, mas desistiu da ideia porque parecia exagero.

Quando ele chegou, foi recebido na porta com uma taça de vinho. O marido logo percebeu o jogo, e sorriu confiante de que tinha ganhado sua aposta mais alta. Foi mais fácil do que imaginava, pensou ela. E assim acabaria mais rápido.

A esperança era de que ele achasse na rua, usasse-a apenas para eventos. Mas não. Ele parecia fiel. Não chegava com o cabelo molhado, nem camisas diferentes, muito menos com o clássico batom na gola. Sentia-se culpada no início, mas aos poucos entendeu que não deveria sentir-se culpada. Não era culpa sua. Não sabia de quem era a culpa, e isso também não importava muito.

Ele tomou o vinho mais devagar do que o costume. E finalmente, se deitaram no sofá. Ele suou muito. Urrou até. Ela até sentiu alguma coisa, mas não entendia direito o que era. Talvez fosse medo. Ele morreu ao lado dela de cansaço no sofá, e ela foi para o chuveiro tirar o cheiro de roupa velha do corpo.

Na manhã seguinte, quando acordou, finalmente sorriu.

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