Patrimônio, de Philip Roth

Patrimônio, de Philip Roth Companhia das Letras 198 páginas

“Patrimônio”, do americano Philip Roth, não tem a responsabilidade divina de entender para quê serve a morte, mas reduzida na relação do próprio escritor com seu pai, tem uma tremenda força de compreendê-la. Mas escritor Philip Roth não se esconde daquilo que vai contar. Em vez de distender a história com sentimentalismos, ele vai direto ao ponto. Cruelmente.

O pai descobriu um tumor no rosto. Aos 86 anos, sofrer com uma doença dessas é muito cruel. Muito da vida já passou, o pai passou por cada uma das dificuldades, resistiu a todas, mas o corpo não tem a mesma impetuosidade da mente: é falível, perecível e descartável.

É importante frisar a idade dele. De certo modo, ela é um alívio. Mas, diante da opressão que é enfrentar a morte, 86 anos é uma idade para morrer?

Philip usa “Patrimônio” para se questionar.

“A sós, eu chorava quando me dava vontade de chorar, e nunca essa vontade foi tão grande como quando tirei do envelope a série de imagens do cérebro dele — não porque eu fosse capaz de identificar com facilidade o tumor que lhe invadia o cérebro, mas simplesmente porque se tratava do cérebro dele, do cérebro do meu pai, daquilo que o fazia pensar da forma curta e grossa com que pensava, falar da forma enfática com que falava, raciocinar da forma emotiva com que raciocinava, decidir da forma impulsiva com que decidia. Aquele era o tecido que produzira seu conjunto de infindáveis preocupações e por mais de oito décadas sustentara sua teimosa autodisciplina, a fonte de tudo que me havia frustrado tanto como filho adolescente, a coisa que comandara nossos destinos nos tempos em que ele era todo-poderoso e ditava os propósitos da família — tudo isso agora estava sendo comprimido, deslocado e destruído por uma ‘grande massa localizada predominantemente na região dos ângulos cerebelopontinos e das cisternas prepontinas.”

Esses flagrantes sobre a situação anatômica do pai ganham através do relato cru — mas emotivo — uma imagem universal: ninguém entende a morte. O que o médico diz é um dialeto ininteligível pela simples razão de que não há explicação para a morte. Seja aos 80 anos ou aos 8, a vida é preciosa.

A sinceridade do texto também não se perde em didatismos sobre o câncer, muito menos na posição de fé (ou incredulidade) que supostamente todos assumem em casos assim. Não é auto-ajuda. Não se lê um depoimento sobre como vivenciar a esfacelação de alguém querido, mas apenas o relato do seu impacto. E isso é um tremendo feito narrativo.

A relação de Philip com o pai aos poucos é desossada de maneira tão cruel quanto o momento que ambos vivem, e isso torna o final previsível um verdadeiro soco no estômago.

“Pela manhã, me dei conta de que ele aludira a este livro, que, confirmando a fata de decoro da minha profissão, eu vinha escrevendo enquanto ele estava doente e morria. O sonho me dizia que, se não nos meus livros ou na minha vida, ao menos em minhas fantasias eu viveria eternamente como seu filho pequeno, com a consciência de um filho pequeno, tal como nelas ele continuaria vivo não apenas como meu pai, mas como o pai, proferindo sentenças sobre tudo o que faço.”

“Patrimônio” é um testamento poderoso porque o pai de Philip Roth parece meu pai. Ou o seu: é um super herói sem capa, ou superpoderes, que não sabe vencer a morte, mas deixa seu amor, seus exemplos, suas falhas e virtudes como maior herança.


Originally published at indiqueumlivro.literatortura.com on March 18, 2014.