Uns vários por eu mesmo
Sabe quando você muda de humor repentinamente umas duas vezes no dia?Hoje eu senti a eclosão de sentimentos intensos (e desconexos).
Variados, variantes e variáveis, esses sentimentos estavam vindo de maneira tal à minha cabeça que parecia que eu estava vendo vários eus num palco contracenando uns com os outros.
Mas, felizmente, por mais que eu soubesse que aqui dentro a realidade era outra e, num mesmo momento, eu queria responder a estímulos de maneiras muito divergentes, os sentimentos tiveram a decência de se manifestar exteriormente um de cada vez.
E, como cada se mostrou em diferentes instâncias, lugares e momentos, não ficou parecendo que eu estava tendo um distúrbio de personalidade.
Mas, afinal, era isso? Bem, não.
Melhor dizendo: quase não.
O que estava acontecendo (está… porque, se você reparar bem, escrever e publicar esse texto é exatamente isso) era a necessidade de se fazer personagem.
De uma maneira controlada e evitando marcas (por mais que em alguns momentos fosse lastimável que eu tivesse que evitar uma atitude que deixaria a cena tão mais bonita) que fizessem os outros participantes perceberem que eu estava dramatizando, passei o dia distribuindo reações, daquelas múltiplas faces que citei, em lacunas que achei que eram bons lugares (momentos e situações) pra isso.
Porque eu fiz:
Estava sentindo algumas daquelas coisas e precisava, de alguma maneira, externalizar? Pode ser. Estava entediado? Talvez.
Mas, se foi algo com isso, não foi só. Acredito — com um lado de mim, pelo menos (o que quer ouvir Iron Maiden e, talvez, com o do Chitãozinho e Xororó também) — que os eus nesse palco e a distribuição foram organizados para suprir meu desejo (vontade que se faz quase necessidade) de criação.
Fui fazendo provocações e estímulos, e com isso foram constituídas, ao longo do dia, histórias que amenizaram a minha vontade de levar personagens a locais e situações onde eles matassem minha curiosidade sobre o que aconteceria.
E isso resolveu o problema. Por hoje.
Porém, fazer isso todos os dias seria muito problemático e cansativo. Então, há pouco mais de uma hora, liguei pra acordar meu psicólogo. Falei do que estava havendo e ele, o melhor no que faz, me recomendou um tratamento simples e efetivo.
Ele disse, com a voz meio embargada do sono: “Vai escrever e me deixa dormir, droga.”
Viu o porquê dele ser o melhor de todos. É simples.
Só tem um lugar onde eu posso saciar as minhas curiosidades, distribuir reações e provocações em faces, vivenciar conflitos, isso sem tirar o sono de ninguém. Eu já sei o que fazer e recomendo o mesmo pra quem estiver enfrentando situação parecida.
Eu vou retomar ainda hoje o meu romance.
E, saiba!, esse texto não foi escrito pra aliviar minha vontade de escrever (vou precisar dela agora). Ele foi feito pra você (que, como eu, quase não tem múltiplas personalidade). Ele está aqui pra te ajudar a entender como pôr ordem nos seus cenários, amarrar seus conflitos, nomear seus personagens.
Resolva o seu problema. Escreva uma história!
Escreva hoje. Escreva agora. Escreva imediatamente.
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Ps.: Os elementos desse texto são (provavelmente) fantasiosos.
Mas você sabe muito bem que você não vai precisar da verdade pro que vai fazer agora, não é mesmo?
Quando você terminar, vai poder voltar lá no começo do texto e pegar ela no guarda-volumes.
Pss.: Liguei pro Pessoa e ele, que é o especialista quando o assunto é ser vários, disse pra eu assinar o texto assim quando acabasse, ó: