Abstinência moderna

Crônica sobre o nosso atual apego à tecnologia


São 19:20 da noite. Zé chega à faculdade. Vai ao banheiro, em seguida toma água no bebedouro. Ruma à sala de aula. A professora ainda não chegou, tem um tempinho para dar uma olhada no Facebook, Whatsapp, Twitter… Mas, espere. Zé não encontra seu celular. Deve ter deixado no serviço. “Saco”, pensa. Mas, nada demais. Um dia sem celular não mata ninguém.

Uma pequena abstinência toma seus dedos. Que ódio é estar desconectado do mundo! Muito bem. As horas vagas se transformam em um martírio. Mas “tudo bem, amanhã cedo no serviço eu o pego”. A abstinência aumenta, mas não é o fim do mundo.

A volta pra casa é um tormento: todos falam alto demais, há barulho demais nas ruas. “Cadê esse celular quando eu preciso dele?”. Os dedos coçam. Aqueles seis quilômetros se transformam em uma viagem de volta ao sudeste asiático.

Finalmente, após aguentar “horas” insuportáveis de sociedade, desce do veículo e ruma para casa. Minha nossa, que caminho longo e tenebroso: ruas escuras, pessoas estranhas, perigo, assalto, morte… Cadê o celular para me defender nessas horas?

Caminha rápido. Nunca reparou nos detalhes daquela via: quantas casas, quantas cores, quantos carros… Aquilo tudo parecia novo para Zé. Mesmo assim sua mente estava no celular. Finalmente chega em casa, arfante. Ruma para o banho com pressa, depois janta — mal sente o gosto da comida. Escova os dentes e dorme. Não consegue dormir logo. “Cadê o celular nessas horas?” Ver as mesmas velhas novidades sem muita utilidade no Facebook, ou as conversas, videos e fotos do Whatsapp que não agregam muita coisa fazem falta para embalar o sono.

Com muito custo dorme, sonha com o celular. Acorda. Se veste rápido como nunca. Engole o café , o pão e a manteiga como se fossem uma coisa só. Corre para o ponto – “cadê meu celular nessas horas?”. Outra sofrida viagem do sudeste asiático até o serviço. Muita gente, muitas buzinas, muitos carros, muito… Muito nada.

Finalmente desce. Chega ao serviço. Corre lá para dentro, como um Indiana Jones em busca do Santo Graal. Porém, se aquelas horas anteriores foram trágicas, essa então veio para ser uma punhalada de ouro nas costas – nem Sófocles imaginaria uma narraria de infortúnio tão grande!: o celular não está em lugar nenhum. Procura andar por andar, sala à sala e nada…

O suor corre em bicas pela testa, o coração acelera. Mil visões do que não viu nas últimas horas passam por seus olhos. Não aguenta. Desaba ao chão. Infarto.

“Cadê meu celular nessas horas?”

FIM

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