As duas lâminas da tesoura


É sábado de manhã, dia oficial do corte de cabelo masculino. Dentro de casa está frio, frio como é típico do inverno paulistano. As paredes são fronteiras separando um faustoso Sol pendurado em bela uma abóboda ciano de um reino escuro é ártico que é a residência do cidadão classe média. Sendo assim, mal vejo a hora de sair de lá e subir algumas ruas em direção ao cabeleireiro. Os ossos estão mais do que frios, estão gelados.

Saio de casa com a certeza de quem volta dentro de alguns minutos, como se aquele sábado de manhã fosse um sábado de manhã no primeiro mundo, onde o maior crime que possa ocorrer depois do aurora é o ato de acordar antes da hora do almoço.

Vou-me.

Passo por ruas um pouco vazias, vejo a lotação que sai da Vila Joaniza — lugar deveras humilde com pessoas mais humildes ainda — trafegar a dicotomia das vias, rumando até a Conceição, lar do aluguel de um metro quadrado mais caro que um ano de salário de um simples pai de família.

Está quente, isso é bom. O chinelo do tipo Havaianas sob meus pés pode não parecer dos mais confortáveis, mas naquele misto de frio escoando da derme com banho de Sol e o asfalto começando a ganhar certa temperatura animam minha caminhada. Por outro lado, preciso praticar mais atividades físicas: passam-se 5 minutos de caminhada e já estou respirando com mais amor pelo oxigênio a minha volta do que o de costume. Isso que dá ter uma vida classe média, onde se trabalha de manhã à tarde e se estuda de tarde à noite — e de final de semana se quer descansar. Com certeza culpa minha e de mais um número que não faço ideia de pessoas na mesma situação.

Chego ao salão. Fica logo depois da padaria e de uma pequena praça onde senhores usam uma mesa de xadrez para jogar dominó. Ficam à sombra de uma grande árvore que eu não sei o nome. Todos de blusa, calça comprida e sapato. Um com uma boina que remete a tempos antigos, tempos que não eram tão frios assim ao pé de um árvore.

Entro. O salão não é grande, mas também não é minúsculo, ainda mais agora que, milagrosamente, há apenas uma pessoa na minha frente já finalizando o corte de cabelo. Tomo uma água do filtro na parede. Copo de plástico transparente com água gelada — caminhar um pouco fora das paredes dos dias me faz lembrar que ainda existe calor lá fora. E que calor! Cada gole bem servido é uma vitória.

Sento, leio duas ou três páginas de um livro de terror que trouxe para passar o tempo, já imaginando a fila de outros caras tão apressados quanto eu para cortar o cabelo — felizmente me equivoquei. Ao final da terceira página já é minha vez.

O cabeleireiro está bem humorado como o Sol lá fora. É um paraibano bem de vida, criado na roça — tempos de muita dificuldade para ele e para a família — que adora a vida como zagueiro em um time de várzea da Zona Sul do estado. Conta um pouco das viagens que pretende fazer, dos jogos que vai jogar e dos filmes que viu. Ouço tudo, dou uma risada aqui e outra ali e falo um pouco de como é fazer uma faculdade e trabalhar quando sou questionado sobre minha rotina.

Conversa vai.

Conversa vem.

Passam lá fora duas meninas com roupas o suficiente para ativar sonhos eróticos de qualquer jovem na puberdade. Se está quente lá fora, também há carnes quentes indo e vindo em seus 20, 23 anos. Ele esbraveja, fala mal dessa geração de “piriguetes” e envereda por questões morais que ele acha corretas — e que eu não concordo tanto assim, mas o deixo desabafar — até que chega as suas origens.

Como a Ponte Estaida de São Paulo, cartão postal da cidade e do estado, suas palavras cruzam um rio de coisas sujas e acabam em seu pai, um homem meio distante dele, com aquele jeito truncado de interiorano linha dura, sempre lembrado pelas palavras duras, pelas surras mais duras ainda com “espada de São Jorge”.

A tesoura corta mais devagar, as palavras com pesar são mais constantes. Chega no momento em que ele conta a última vez em que viu pai. O corte para definitivamente. Ele tem os olhos fixos na rua, onde as duas meninas com toda sua fazenda luxuriosa passaram a pouco.

“Meu pai veio aqui no salão aquele dia. Disse que tava pensando em morar em Pernambuco. Ele sempre quis e eu falei pra ele. Vai lá, pai. O sinhô tem que í memo. Ele foi embora e…”

A pausa durou dois segundos, mas foi possível sentir a eternidade daquele momento — entre tufos de cabelo duro caídos a esmo, e a lâmina afiada e muda da tesoura.

“… quando ele chegou do outro lado da rua ele me olhou, eu olhei ele. Então ele foi embora. Se eu soubesse que era a última vez que eu ia vê meu pai, teria dado um abraço no meu pai”.

O corte volta, mais sereno do que antes, não tão animado, porém mais cuidadoso.

“Hoje eu fico feliz em dormir e sonhar com meu pai. Posso passar a 01 na barba?”.

“Pode”, respondi.

Mais 5 minutos e eu já estava na rua, com o cabelo cortado, barba feita e sob o Sol diurno do final de semana.

Voltando pra casa, ruas ainda vazias, infestadas de sono de outrem.

“Pode”

Aquela palavra ficou na minha cabeça o caminho todo.

“Pode”.

À cada esquina, à cada casa e à cada árvore eu ouvia minha voz:

“Pode”

Chego ao portão de casa. Pego aquele molho de chaves gélido como o interior dos dias. Ao girar a fechadura entendi que o dia é quente, mas dentro de nós há coisas frias.

Vi como nunca o que é São Paulo, essa dicotomia de sentimentos, seres e casas em um corte de cabelo.

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