Pequena Laís e seus cabelos

Lais é negra e alisa seus cabelos. Não porque ela é tragada pela indústria do bonito e do belo que povoam os meios de comunicação, recheados com suas loiras, arianas, altas e esbeltas mulheres que parecem ter sido produzidas em alguma indústria (o que realmente deve ter acontecido), não, não…

Laís não tem problemas de identidade. Ela é segura de si e escolhe o que realmente lhe convém. Laís é até dita como arrogante e agressiva. É uma alma combativa. Pode ser o que for, mas é uma alma de personalidade.

Infelizmente, quando os cabelos alisados de Laís saem às ruas aprumados em seu cocuruto, de duas uma: ou não notam sua beleza, ou, quando notam, dizem que ela não faz jus à sua natureza negra, que deveria deixar as voltas de seus cabelos domarem essa sociedade impositora e patriarcal que só aceita cabelos lisos e brilhantes. Deste último grupo ela ouve indiretas sobre seu não posicionamento político capilar, fazendo parecer que ela envergonha a suposta “causa”.

A “causa” em voga, que dizem os causadores, pode ser definida na seguinte maneira: não render-se a imposição atual da mídia e da sociedade burguesa-branca de direita e respeitar suas origens. Mas nisso há um pequeno problema: ninguém perguntou as origens de Laís.

Laís é escura, escura como chocolate, de pele linda como um belo bombom à luz do crepúsculo, mas ela não é só derme. Indo não muito longe, os bisavós por parte de mãe de Laís remetem ao tempo da escravidão, onde um holandês conhece uma negra. Do outro lado, uma Índia tem um belo caso de amor com um dentista baiano. Em seguida vêem seus avós, que por sua vez puxam um pouco do lado indígena com o lado negro e branco e um não identificado — talvez português. Só por parte de mãe, vemos ai sete pessoas envolvidas em três origens diferentes acrescidas de uma supranacionalidade: Holanda, Brasil, Portugal e Indígena.

Laís, pelos quereres e desquereres da vida e do DNA nasceu negra, mas seu genótipo carrega misticismo e misturas variadas, o que a torna brasileira.

Laís ainda assim sofre com a velha máxima, mas invertida:

“quem vê cara não vê coração”

Laís é uma moça inteligente, antes que perguntem. Laís sabe que as mulheres, em cargos equivalentes, ainda ganham metade do que os homens ganham. Laís sabe que muitos termos são pejorativos para mulheres enquanto para homens são (belos) adjetivos superlativos, como “puta” e “putão” respectivamente. Laís não gosta de receber cantadas na rua e sabe o quanto isso objetifica uma mulher. Laís sabe escolher em quem votar e luta por igualdade. Mas Laís também pega ônibus lotado, trem lotado de segunda a sexta (as vezes até de final de semana) para o trabalho que não é necessariamente longe de casa, mas que têm poucas linhas de ônibus disponíveis. Laís tem que acordar as 07:00 para ir ao trabalho, e por isso alisa o cabelo. Se tivesse cachos deveria acordar às 06:00 para tratar deles, pois o cabelo dela não é o mesmo de quem quer que ela respeite suas “origens”. Laís também não tem dinheiro para comprar todos os cremes, xampus e condicionadores que precisaria para manter o cabelo todo dia. Ela pede à mãe que o arrume sempre que dá, pois ganha um troquinho como cabeleireira.

Para Laís a vida não é das mais fáceis, portanto, Laís quer apenas dormir um pouco mais e ter, pelo menos, uma preocupação a menos, que é seu cabelo — que não é o cabelo de mais ninguém.

Laís quer ser livre para ter o cabelo que quiser, pois isso é democracia.

Laís é preta, sofre com as imposições naturais da sociedade patriarcal e branca, mas isso consegue ser ainda pior quando querem impor a ela que ela seja ela, sem ser ela, coisa que ela não é, mas é além do que se imagina.

Quem vê cara, não vê coração.

Quem vê corpo, não vê — as regras da pessoa.

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