Meu pedido de desculpas ao Pequeno Príncipe

Confesso que sou chato com os livros que leio. Tenho aversão à literatura excessivamente “boba” — digamos assim — como romances apelativos, aonde tem muita gente sorrindo na capa. Por isso, geralmente, me volto à leitura de clássicos consagrados e, vez ou outra, para literatura medieval.

É claro que ninguém é de ferro. Gosto de Percy Jackson e Harry Potter, por exemplo. Leituras pesadas demais acabam pesando demais dentro de nós. Por isso pegar leve na leitura de vez em quando faz bem. Não há mal em algo que você lê apenas para se entreter, mas para tudo há um limite de bom senso. Nada contra os romancistas que adoram colocar um câncer, uma doença terminal ou uma paralisia no meio do romance para aumentar as vendas — corrigindo: na verdade tenho muito contra sim, mas isso fica para um texto futuro.

Deixando isso claro, rumemos à leitura que sempre tive certa dose que preconceito com, que era uma incógnita em minha vida:

O Pequeno Príncipe.

Tecnicamente se enquadra no meu tipo de leitura: cult, renomado, extremamente usado em citações e lembrado nas mais variadas rodas literárias. Ótimo, não? Estranhamente não para mim. Mas o erro vem de muito tempo atrás, quando era adolescente e tentava enveredar por leituras acima da minha capacidade de interpretação na época — isso somado à falta de maturidade para tal.

Hormônios a mil junto de um ser um humano super hiperativo que se gabava de ler livros com rapidez acima de média. Ou seja:

Passe o verbo para o passado, tudo bem? É que eu estava com a música na cabeça.

Então num belo dia calhei de ler sobre a diminuta realeza espacial pelo justo motivo de ser um clássico. O encontro não foi dos melhores; devo ter lido em questão de uma hora — se é que foi tudo isso. Conclusão? Vi nada demais. Achei que era mais um desses frutos de intensa propaganda, reforçado por sua origem europeia — a frase “literatura francesa” assim como qualquer coisa anexada à palavra “francesa” ganha outro status. Há de concordar comigo que “merda francesa” carrega certa elegância. Não é uma merda qualquer. E isso me irritava.

Enfim, não gostei do livro e essa leitura se arraigou negativamente em meu interior durante muito tempo, tempo suficiente para eu apenas saber que não gostava, sem poder apontar algo em especial

— ainda mais eu que sofro de uma péssima memória, o que piora para as coisas que não são do meu paladar mental.

Felizmente os anos passam e você fica mais reflexivo. Foi o que aconteceu com o Magnum Opus de Saint-Exupéry. Um livro tão quisto pelos altos e baixos do mundo livreiro deveria ter algo que eu não vi nos tempos passados. Seria justo uma segunda leitura agora, em um ponto de maior maturidade — se é que existe algum ser humano do sexo masculino maduro.

A estratégia dessa vez foi diferente: ao invés de ler em uma sentada, pelo fato de serem poucas páginas, deitei na cama durante algumas madrugadas tomando notas. A leitura durou cerca de duas semanas.

“TUDO ISSO?!” Sim. E explico o porque: se O Pequeno Príncipe é pequeno em tamanho ele é grande em mensagem — foi o que primeiro me arrebatou quando comecei a ler com seriedade. Aqui começa meu processo para pedir perdão à Saint-Exupéry e ao nosso astronauta loiro.

Das noventa e pouco páginas do diminuto livro da L&PM Pocket, em pouquíssimas não fiz sequer uma anotação — sim, n‘alguns livros que eu acho que exigem mais do meu cérebro eu faço anotações. Sinta-se livre para me criticar, mas acho isso um ótimo costume. E outra; meus livros, minhas regras (adaptando-parafraseando minhas amigas feministas — obrigado pela luta e pelas frases de efeito!).

Ao longo do texto colocarei algumas páginas que anotei. Caso você seja uma alma expert em decodificação de hieróglifos sinta-se a vontade para tentar ler, mas, para o grande público normal desse meu Brasil Varonil, coloco aqui essas fotos apenas para ilustrar como esse livro é cheio de detalhes sutis e importantes.

Cada página, cada capítulo, tudo é carregado de uma mensagem muito forte sobre como nós nos deixamos corromper pela idade e perdemos muita coisa importante. Tudo aquilo que nos deveria acompanhar por toda vida, como a capacidade de dar valor às pequenas coisas e, não que devamos deixar de lado - é claro - saber como a vida vai muito além do racional, do escritório, do dinheiro, das contas, da vida adulta com seu milhar de exigências que nos levam a algum lugar seríssimo e sem sentido.

Exupéry nos leva a refletir e questionar (muito) sobre poder, maturidade, vaidade, o valor das pequenas coisas, assim como os pequenos problemas que podem vir a tornar-se baobás titânicos.

Realmente é uma leitura muito rica e ao mesmo tempo muito simples, tanto em tamanho como na forma em que foi escrita.

Se Da Vinci uma vez disse que “La semplicità è la sofisticazione finale” com certeza o pequeno príncipe é uma possível ilustração dessa máxima.

Por mais que peça desculpas ao finado ao autor, aos personagens e ao grande público que cultua este cânone literário, não me sinto mal, me sinto muitíssimo bem na verdade: além de ter o prazer de corrigir minha opinião a respeito do livro, ele me ajudou a ver como eu cresci como leitor e pessoa de uns anos para cá. Uma ótima medida sobre maturidade intelectual e social.

Daqui mais alguns anos farei novamente a leitura — com outro livro. Farei novas anotações e um comparativo com o livro atual para ver as diferenças. Espero não demorar duas semanas, mas um mês lendo, pois tenho certeza que ainda há muito no Pequeno para ser apreciado e estudado.

Fica ai então a (óbvia) dica de leitura caso você não tenha se jogado de coração no pequeno e vasto mundo de Antoine de Saint-Exupéry.

Poderia finalizar com uma das várias frases marcantes desse livro, mas isso você acha tranquilamente na internet, em tatuagens ou mesmo lendo por conta-própria essa obra. Vou encerrar de forma diferente; vou deixar uma anotação minha (traduzida) sobre o capítulo V.

“Quando crescemos, algumas coisas ficam mais raras e mais difíceis, tanto por causa do meio em que estamos como, principalmente, por nós mesmos. Mas não é por isso que vamos desistir delas, jamais”.

Obs.: esse livro na verdade não é meu. É da minha namorada. Pensava que era um dos tesouros em celulose que residia no meu armário. Gostaria de, primeiramente, agradecê-la por ter me emprestado o livro e dizer que vou comprar outro pra ela.

(Risos e um pouco de suor frio e nervoso pela bronca que eu vou levar)