O gol alvinegro

Sobre a importância social do maior time paulista

É quarta-feira em São Paulo e nos encontramos atualmente no shopping Interlagos, zona sul da capital. O local, como sempre, está bem movimentado: há filas nos fast-foods, no cinema e os corredores parecem pequenas avenidas com veículos humanos indo e vindo naquele conjunto de artérias de um sistema venenoso.

Disfarçados entre cartões de créditos, refrigerantes, guloseimas, roupas caras e baratas encontramos algumas pessoas gastando aquele mirrado dinheiro pago todo dia 05 — quando é pago, é claro. Caso olharmos mais a fundo, com calma, vamos ver também algumas pessoas ajudando a polir a roda do capitalismo. Dentre elas temos Ivan, um rapaz que faz mil planos entre o fazer de uma casquinha mista e uma casquinha de chocolate.

“Volte sempre”, diz ele com seu largo sorriso branco envolto por grossos lábios encrustados em sua pele de ébano com algumas ligeiras espinhas — aqui damos um desconto para seus escassos problemas dermatológicos: acabou de fazer 19 anos e adora nuggets.

Do outro lado, não muito distante, vemos Amanda com seus 20 anos. Difícil não reparar em suas curvas dentro do jeans apertado e da camisa rosa com estrelas azuis. Sua pele branca se confunde com o interior bem iluminado da loja, mas que, paradoxalmente, contrasta com os delgados manequins muito coloridos na vitrine. Seu turno hoje vai até às 21:30. Talvez de tempo de chegar em casa para ver o segundo tempo do jogo.

Passando em frente à loja seu João e seu fiel escudeiro esfregão passam com seus muitos anos de uso e desuso. Já passa das 20:00 e João e o esfregão parecem bocejar discretamente. O rádio toca:

“Entendi”.

Lá vai ele atravessar o shopping. Alguém derramou um guaraná próximo a saída secundária. O criminoso não se encontra mais lá, e também quem fez o apelo ao cavaleiro errante da higiene também não. Corpos vão e vem ao redor da poça, mas nenhum deles parece ser uma pessoa. Tudo bem, João tem que limpar, não questionar. E lá vai ele limpar, como já faz há 20 anos sem um único agradecimento.

Nossos três personagens talvez se conheçam de vista, ou talvez não. Pouco importante na verdade. O fato que chama a atenção, e que talvez também não chame, é o fato dos três torcerem para o mesmo time: Sport Club Corinthians Paulista.

Como dito, não é de se chamar a atenção como pode sugerir a força extrínseca da palavra. É apenas um fato a ser mencionado, visto que, achar um corintiano é tão fácil quanto achar um prédio em São Paulo — a diferença é que se dá mais importância à construções do que pessoas, pois construtor e construídos são separados pelos frios tijolos da indiferença e da diferença que damos à pessoas e objetos. Bom, enfim, todos são corintianos.

Passa-se o tempo e, coincidentemente, é a hora dos três irem embora.

Amanda ruma ao Jardim São Luiz. Seu João ruma para a Vila Inglesa e Ivan para o São Jorge. Ainda que sejam dois santos e a terra da rainha, a dignidade que resta a esses lugares vem de dentro das pessoas humildes que lá habitam — e mal sabem elas desse detalhe, e talvez nunca saibam também — como é comum a todo o país no final das contas.

A rotina de quem não vive de grandes luxos é bem parecida: acordar, pegar transporte público, trabalhar, pegar transporte público novamente, ir para casa, tomar banho, comer (ou comer e tomar banho) e dormir. Depois achar que isso é normal e até correto para a manutenção da existência.

Um fato interessante dessa simples e complexa rotina que permeia a vida de muitos cidadãos, é o meio do caminho entre os sonhos e o jantar: televisão.

Sim, a grande falastrona de mil bocas e poucas palavras úteis. Hoje, quarta-feira, depois da novela, em especial ocorre um fato curioso: é dia de jogo. É claro que as coincidências elucidadas aqui até agora, sem o subterfúgio literário de querer causar espanto com banalidades, continuam. Como imagina o leitor, obviamente hoje é o jogo do Esporte Clube Corinthians.

Normal? Sim. Claro. Como o resto do dia, que se repete como se Sol e Lua nunca tivessem se mexido no mundo dos que ganham menos de 4 salários mínimos e ficam sob tutela de sindicatos suspeitos e empresas mais do que suspeitas em uma sociedade bem incriminável até — detalhes para uma avaliação futura, outro texto, caso essa voz que está em sua cabeça se lembre.

Porém, até mesmo na rotina acontecem coisas interessantes e de grande valia. Podem parecer pequenas, microscópicas, invisíveis, mas, no entanto, são deveras reluzentes em meio ao cinza do dia a dia. Como diria aquele grupo de rap paulista “até no lixão nasce flor”, portanto, digamos que a rotina nos dá um buquê durante a vida.

No caso, a fauna gloriosa a qual nos referimos é o gol. Sim, o gol.

O trecho a seguir é totalmente inútil, pode pular ao parágrafo seguinte caso você já tenha alguma vez na sua vida visto ou jogado uma partida de futebol. O grande gol: quando a bola atravessa a linha entre as duas traves e o travessão de forma legal perante as regras do jogo.

Nesse dia, felizmente, podemos acompanhar esse detalhe deveras arrepiante da rotina. Como já imagina, pois essa é uma crônica feita para ser óbvia e nada além, o Corinthians marcou um gol contra um time qualquer valendo alguns pontos no meio de um campeonato ainda por se decidir meses a frente. Algo de espetacular? Não. O gol foi daqueles que você pode imaginar. Sim, esse mesmo, pode ser esse. Não, creio que o outro era melhor. Tudo bem, pode ser esse mesmo, você decide, a imaginação é sua.

Enfim, o gol foi feito.

Paremos nesse momento, nesse exato instante. O atacante marca, está contente, mas, também seus torcedores estão. Normal? Obviamente, o que prova que esta crônica banal está se desenrolando exatamente como planejado, preciso me gabar. Desculpe.

Enfim, o gol foi feito e o torcedores sorriem, vibram e voltam ao seu estado normal.

Mas, entre a linha e o normal acontece algo, o qual podemos considerar como anormal, o que é muito bom, pois são com anormalidades que detectamos problemas ou algo a ser dada a devida atenção. Entre a grama e a rotina, Ivan, João e Amanda se misturam em um único ser que sorri um sorriso branco, amarelado e maroto ao mesmo tempo. Suas peles, assim como outras milhões de dermes entram em um caldeirão único que formam a explosão alvinegra de torcedores.

Durante o grito do narrador algo acontece com milhões de uma forma muito particular, com suas características específicas, mas que, no geral, pode ser entendido de uma maneira uniforme;

Ivan, João e Amanda, nossos representantes de uma massa da ordem de milhares, por alguns instantes esquecem do trabalho, da casa, do banho, da comida (ou da comida e do banho) e do sono. Por um instante não existem ônibus, baixo salário ou diferenciações sociais. Por um instante o coração palpita e seu retumbar sai pela boca em forma de uma melodia caótica harmonizada pelo mudo sorriso humilde.

Sim, é gol do Corinthians, é a rotina, mas é o gol alvinegro, salvando por alguns instantes, por mais ínfimos que sejam, uma legião de torcedores, os quais podemos de chamar de brasileiros.

  • Fim —

Obs.: esta crônica foi feita por um São Paulino.