O Templo de Salomão, a dúvida e as faxineiras

Crônica sobre a dádiva do questionamento


Dona Marilene e Dona Eulaia pegam o ônibus em um típica manhã de quinta-feira em São Paulo. Estão passando pela meia idade. A pele já está meio amassada e os cabelos platinados começam a ameaçar a hegemonia castanho-escura. São amigas de longa data e, como sempre, conversam assuntos variados quando se encontram. Para não fugir a tradição, naquele dia também houve uma conversa, e o tema era religião. Ambas são religiosas praticantes, mulheres castas, mas, em certo ponto da conversa, chegam à uma dúvida levantada por dona Eulalia:

- Mari, e aquele Templo de Salomão em, menina!

Dona Marilene prontamente responde, empolgada com a novidade:

- Eu vi! Coisa grande demais. Bonito pra caramba…

Subitamente, dona Eulaia faz uma observação que pegaria todo o ônibus desprevenido:

- Mas, deixa eu te perguntá algo, aquele lugar lá é muito luxuoso, né? Luxo não é pecado não, menina?

Dona Marilene fica quieta durante alguns segundos. Sua voz parece ter se perdido em algum lugar de sua garganta. Pode-se ouvir tudo: o motor, as folhas de algumas árvores roçando as janelas do grande veículo, sons incômodos de fones de ouvidos, algumas buzinas, mas não a voz de dona Marilene, que tarda a vir em um sofrido:

- É… Eu acho que sim.

Dona Eulaia, contestando anos de fé no alto de sua graduação em ensino fundamental incompleto, ocasionado pela necessidade de ter o que comer em casa, continua:

- É tão estranho isso aí, não? Sei lá, meio errado isso aí. Eu acho.

Dona Marilene, visando fugir daquele questionamento – quem tem a coragem de questionar Deus?! — pula para um tópico mais ameno.

- Cê viu a Jurema? – Dona Eulaia cai direitinho na arapuca para a fuga, mas dona Mari não contava com o que viria a seguir:

- Vi sim, menina… Coitada, ela tá tão mal de saúde.

- Verdade, mas há de melhorá, né?

- Claro, mas ela que tem que se ajudar também, né? – Dona Marilene olha confusa para ela, então pergunta:

- Por quê? – Mal sabia ela que se arrependeria de ter questionado. O ônibus freia com força, mas, o baque que sentiu foi outro:

- Por quê?! Ué, a mulhé trabalha em três emprego e não tem um real pra come nem compra remédio direito. Já viu as roupa dela? Só trapo. Ela doa tudo pra igreja.

Dona Marilene não pode acreditar no que está ouvindo. Mas não é hora de ficar impotente diante daquilo, é hora de agir em nome da fé, como uma cruzada em forma de palavras:

- Eu sei… Mas Deus tem um plano pra todo mundo e… – Não esperava aquele outro golpe vindo do nada, como o famoso soco fantasma de Muhammad Ali. Fora brutalmente entrecortada por dona Eulalia:

- Ma’menina! Desde que ela entrou nessa igreja ela só vive pra ela, dá o dinheiro todo dela pra ela e num’contece nada com ela. Ela devia pegá esse dinheiro e paga um tratamento, compra comida e roupa, sei lá. Né?

Para sorte de Dona Marilene, do Pastor, da instituição e do Templo de Salomão chega seu ponto.

- Oia, menina! Meu ponto! Tô indo, depois nois se fala mais. Inté.

Dona Eulaia, como se aquele fosse apenas mais um dia se despede normalmente. Dona Marilene desce, caminha em direção ao serviço – é empregada da faxina de uma grande empresa multinacional no bairro nobre do Morumbi (São Paulo — SP) – mas sua cabeça está em outro lugar.

Sabe que sua amiga não deveria ter dito aquele monte de injúrias. “Que isso, quem questiona Deus?” Caminha mais um pouco, está quase chegando no serviço. Um homem com pressa quase esbarra nela – só assim para as pessoas enxergarem esse tipo de cidadã – mas ela nem liga. Para em frente ao serviço. Antes de subir a escadaria para o saguão do prédio ela mete a mão no bolso; procura seu crachá branco, meio amarelado pelo tempo, com a fivela azul que o segura em seu pescoço. Quando o encontra sente um ligeiro arrepio na mão. Está gelado. Junto dele, outro arrepio se soma ao lembrar das palavras de Eulalia.

O pior então acontece: uma interrogação surge em sua mente, bem em frente à uma palavra. Uma interrogação… O sinal gráfico que todo manipulador teme. A dúvida aflora, junto da mais nefasta palavra possível e imaginável no mundo crente dos pastores:

“Será?”

Disseram no jornal que ia chover, mas lá fora faz um belo Sol atípico. Ajeita o crachá, sobe a escadaria e parte para a labuta.

Uma crônica baseada em um relato verídico de Taís L. Muito obrigado pelas informações para esse montinho de palavras. Essa crônica eu dedico a ti!
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