Tempos de Red Hulks

Muita energia, ódio e pouca reflexão em uma sociedade dividida.


Foi-se aquele tempo em que falar mal de política era apenas mais um clichê. Alguns minutos — se é que chegávamos a tudo isso — e logo a conversa voltava ao bom e velho futebol e à problemas domésticos.

Após a volta da democracia no fim dos anos 80, após o movimento das “Diretas Já” — que saudades de Henfil! — a sociedade imperava muito passiva entre os governos FHC e Lula — não levando em consideração aquele famoso episódio com Fernando Collor. Até certo ponto, no governo Dilma, a passividade também estava muito presente no ar. Porém, tudo que dorme uma hora acorda — seja de bom ou mau humor.

“O gigante acordou”

O slogan que surgiu em 2013 em meio, primeiramente, à Copa das Confederações (foi o ponto mais antigo em que consegui pesquisar a origem do termo) ganhou força com a Revolta da Salada, aquela que teve início em São Paulo, tendo como ponto central insatisfação com o transporte público e o aumento no valor das conduções.

Pessoas saíram às ruas — inclusive quem vos escreve — revoltadas e pedindo muitas mudanças, o que acabou sendo um problema, pois logo não houve foco, tudo ficou muito superficial.

Pelo menos a passagem de ônibus não aumentou em um primeiro momento e hoje temos passe livre para estudantes (São Paulo — SP).

A flor de uma aurora revolucionária acabou murchando como uma rosa comprada para o dia das mães: presente para um momento importante, pomposa em um dia, mas logo depois murcha.

Enfim a vida voltou ao normal.

Ou quase.

Dentro da mente dos brasileiros um quase algodão branco com um pequeno feijão social foi umedecido. Uma pequena rachadura surgiu nessa semente.

O trecho anterior pode parecer bonito, mas seu desfecho não é.

Durante as eleições de 2014 — ou melhor, “gladileições”, porque o Brasil durante a campanha eleitoral por pouco não virou um grande coliseu — , essa semente foi ainda mais encharcada. Acabou ganhando duas pequenas folhas carnudas

Após isso, definitivamente, parece que a população brasileira em grande parte criou certa consciência política nacional, ficando — a trancos e barrancos — mais atentas ao cenário atual.

O problema nisso são os vieses da consciência coletiva:

Quer-se mudanças, mas ainda ainda há uma cultura de não procurar fontes que vão além de zona de conforto mental, do achismo ou de pessoas com a mesma opinião — superficial. No máximo há quem vá atrás de mais dados que comprovem sua opinião, mas não existe uma pesquisa imparcial sobre os temas propostos (geralmente).

A Esquerda e a Direita no país deixam de ser braços transparentes para criar um pouco de carne, ossos e certo comprimento. O problema é que, não raramente, esses braços se assemelham ao do Homem de Neandertal segurando um tocha: pode-se fazer comida, esquentar e iluminar a caverna, mas pode acabar ferindo, machucando e até matando.

Sim. Creio que vivemos a aurora da tentativa de um pensamento político sério, mas, como toda manhã, luz e sombras se confundem, e que toda essa confusão e histeria atuais são normais para esse momento — haja visto o desenrolar da revolução francesa, um grande movimento histórico contra as monarquias absolutistas, mas que foi amplamente fomentado por sensacionalismo e certa histeria.

É aquele meio tempo entre passar mal e melhorar da doença.

As conversas pós ditadura nunca foram tão duais, nunca foram tão arredias, nunca as discussões foram tão calorosas.

Hoje, em especial, não estou defendendo um lado, embora eu tenha tendências de esquerda. Estou apenas fazendo um grande comentário sobre o momento atual do debate político, rezando ao melhor estilo laico sobre o futuro do povo:

Que não debatamos ignorantemente.

Que busquemos fontes fora da nossa pequena esfera individual do achar.

Que não sejamos grosseiros.
Que discutamos civilizadamente e com um pingo de bom senso,

porque estamos em tempos de Hulks Vermelhos, seres cheios de vontade, mas com pensamentos descontrolados.

Amém.

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