“Conta-me”, disse o Rouxinol. “Não tenho medo.”

Eu tinha doze anos, estava passando as férias no Rio de Janeiro, na casa do meu pai, quando descobri que eu podia inventar um mundo usando apenas 26 letras. Escrever eu já escrevia, o colégio incentivava isso de maneiras diversas; redações sobre as férias, poemelhos (poemas pentelhos) de presente para o dia das mães ou dos pais. Mas, até aquelas férias no Rio de Janeiro, textos não me pareciam produtos realmente fascinantes. Eu enxergava a escrita como algo apenas confessional, sentimental, como a poesia que eu não entendia, ou como algo sonoramente sagaz, como os versos fáceis e lúdicos da Casa engraçada e sem teto do Poetinha, que decorávamos para encenar numa apresentação para os pais. O fato é, eu ainda não entendia o que eram as palavras. Não que faltasse contato com a literatura. Minha mãe me colocava para dormir com contos, como “O Rouxinol e a Rosa”, de Oscar Wilde. E eu podia ver as frases ali no papel, guiando os olhos antes da boca que narrava. Mas esse conto me atacava o peito como uma confissão do escritor, as palavras não pareciam inventadas, vinham direto de uma experiência real e, por isso, eu sentia uma enorme tristeza ao imaginar uma rosa branca ganhando cor pela dolorosa transfusão de sangue do coração de um pássaro a doar-se a um homem apaixonado. Minha sobrinha, três anos mais nova do que eu, ouvia a mesma história, mas era impactada de um jeito diferente. Ela não chorava e estranhava eu sofrer tanto com aquilo (eu pedia que o conto fosse relido em diversas noites).
“Mas é tão triste, Thai”, eu lhe dizia, como uma justificativa para ouvirmos a história mais uma vez.

“Se queres uma rosa vermelha”, disse a Roseira,
“tens de criá-la com tua música ao luar, e tingi-la
com o sangue de teu coração. Tens de cantar
para mim apertando o peito contra um espinho.
A noite inteira tens de cantar para mim,
até que o espinho perfure teu coração e teu
sangue penetre em minhas veias, e se torne meu.”

Certa noite, ela me respondeu com uma informação que não me passava pela cabeça. Sobre a transfusão de sangue, ela simplesmente disse: “Não dá pra fazer isso.”

Era o equivalente a “isso é só um filme”, frase que o nosso cérebro é capaz de aplicar automaticamente ao sairmos de uma sala de cinema e voltarmos à realidade. É claro que a emoção, por natureza, desrespeita o saber e sofremos mesmo quando reconhecemos a ficção, mas eu sofria sem reconhecer isso, sem saber que as palavras estavam me enganando. Em algumas noites, minha mãe inventava histórias. Lembro de uma que me tocava profundamente, a do pinheiro de Natal, a história de um tronco de árvore arrancado e posto à venda com muitos outros troncos. Não me lembro exatamente de todo o percurso da árvore-protagonista, mas sei que ela tinha anseios de ser levada para uma casa quente e ser enfeitada com esmero, para viver a alegria da família. Quando esse sonho parecia prestes a virar realidade, o clímax vinha pela derrocada. O Natal haveria de acabar e nem todos os pinheiros seriam comprados. O pobre pinheiro não contava com isso, pois não entendia a mente humana. Ele voltava ao frio, sem suas raízes, sem enfeites.

Se o pinheiro não entendia a mente humana, eu não entendia que pinheiros não têm mente.

Homem carrega pinheiro cortado de floresta
de Svetlya Rochsha, para montar sua árvore de Natal.

Um marco dessa mesma ingenuidade foi quando minha sobrinha, outra vez ela, sempre antes de mim, sagaz e cética, viu-se na necessidade de me revelar que os presentes de Natal não vinham do Polo Norte, mas das portas mais altas do armário lá de casa. Isso aconteceu pouco antes de eu viajar para passar aquelas férias que mencionei lá em cima. Foi o meu primeiro Natal lúcido. E talvez por isso eu tenha experimentado tudo diferente.

Fomos ao New York City Center da Barra da Tijuca naquela noite, eu, minha irmã e meu pai. Havia estreado o primeiro Senhor dos Anéis e, ao passarmos pela livraria, meu pai me disse, apontando para a vitrine, que o filme era baseado num dos livros expostos. Não me lembro se demonstrei interesse em lê-lo ou se ele insistiu. Mas compramos A Sociedade do Anel e utilizei as poucas horas que tínhamos antes do filme para, durante o jantar, espiar as primeiras páginas. À meia-luz da sala de cinema, eu ainda percorria os olhos lentamente pelo onzentésimo aniversário de Bilbo; as primeiras cenas que Peter Jackson fez da festa no Condado foram as únicas que pude reconhecer do que já tinha lido no livro. Mas isso valeu por tudo. Foi o suficiente para que o filme parecesse o truque mais fabuloso de um mágico, pois uma realidade estava diante dos meus olhos e a outra, em palavras, nas minhas mãos, com o rosto do responsável pela magia ilustrado na contra capa.

O escritor que há pouco começara a me contar uma história claramente irreal, não estava ali para ver as páginas levadas à tela do cinema, mas suas palavras estavam. A palavra, portanto, viveria mais do que o homem. Esse era o seu segredo, sua maior graça e valor. Elas tornam a ficção mais do que real. Era possível, sim, a transfusão pelos espinhos de uma rosa.

Dá pra fazer isso, Thai!

Eu finalmente começava a entender a palavra, porque descobria o escritor.

Ao voltar pra casa, pedi ao meu pai para usar o seu laptop do trabalho, dizendo que eu queria escrever. Ele abriu o Word para mim e eu fiquei um tempo indeterminado olhando para a tela em branco, e para o teclado, percebendo pela primeira vez que ali, entre o apertar de cada tecla, podia estar um mundo tão imaginativo quanto o de Tolkien. Afinal, o branco do papel ou da tela é sempre o mesmo para qualquer primeira palavra, de qualquer escritor. Tudo dependeria de qual eu escolhesse primeiro, e, só então, de qual palavra viria depois. Uma por vez. Sempre mais uma, apenas. Senti muito medo.

“Se queres uma rosa vermelha”, disse a Roseira,
“tens de criá-la com tua música ao luar,
e tingi-la com o sangue do teu coração.”

J.R.R. Tolkien, meu primeiro mestre