A política de quem perdeu a eleição

O impeachment já aconteceu e ainda distrai parte da esquerda de seu objetivo real

Na sexta-feira passada (19/02/16), houve um evento de comemoração dos 36 anos do Partido dos Trabalhadores. Nesse evento, o presidente do partido, Rui Falcão, deu a entender que, se os movimentos sociais não forem fortes o suficiente, o PT vai ser obrigado a cumprir “o programa de quem perdeu a eleição” (PSDB). Ou seja, se o governo Dilma for “constrangido demais” pelas forças conservadoras do legislativo e ampliar ainda mais a Agenda Brasil, a culpa é da fraqueza moral dos movimentos sociais.

Cabe lembrar que o próprio PT ajudou a criminalizar como terroristas esses movimentos sociais aos quais recorre nas horas difíceis. Rui também se esquece de que a presidenta Dilma se elegeu “por um PSOL de diferença”, para semanas depois anunciar a nossa composição ministerial que nenhum Donald Trump colocaria defeito (ou seja, o PT teve o solicitado “apoio das ruas” e não fez nada de diferente com isso). O ponto deste texto é que, caro Rui Falcão e caríssimas frações da esquerda, o único exemplo de fraqueza moral dos movimentos sociais foi, desde as eleições do ano retrasado, ter se ocupado tanto em auxiliar uma vitória da presidenta no segundo turno, por puro medo de “um mal maior”.

Cada apoio que os movimentos sociais e partidos de esquerda dão ao PT se converte, quase de imediato, em um carimbo de legitimidade popular a todo decreto neoliberal de ataque à classe trabalhadora. Muitos membros de partidos socialistas vêm apoiando o governo PT contra os golpistas da direita. Em geral esse apoio vem associado a uma ideia de que o “ajuste da Dilma” é “menos pior” do que um “ajuste do PSDB”, e de que é necessária uma defesa às conquistas do povo, ou da classe trabalhadora. Sobre isso dizemos: nem sim, nem não, muito pelo contrário…

A resposta desses atores da esquerda não chega sequer a estar errada, ela simplesmente erra de alvo, ataca o boneco gigante enquanto a classe representada pelo boneco continua intacta. Chamar o impeachment é, sim, uma estratégia de frações da classe burguesa para impor um projeto político mais radicalmente alinhado com seus interesses. É, sem dúvida, um assalto ao proletariado. Esse projeto também é uma resposta quase automática às necessidades do capital de reagir contra uma tendência econômica de que taxa de lucro dos capitalistas venha a cair, como Karl Marx demonstrou há mais de um século. Essa estratégia dá certo com ou sem impeachment institucional. Para funcionar, basta ameaçar.

Digamos que quem perdeu a eleição ganhe o impeachment e consiga impor diretamente seu projeto político. Assim, teremos um governo de transição declaradamente neoliberal executando com afinco o projeto político de recuperação da taxa de lucro do capital global, que envolve ajuste fiscal e aumento da exploração da força de trabalho.

Se impeachment institucional não acontecer teremos um governo neoliberal que já vê puídas e rasgadas suas roupagens socialdemocratas. Esse governo, acuado pela perda de poder político, cede mais e mais ao “programa de quem perdeu a eleição” (que já era seguido muito antes do comentário do querido Rui). O Impeachment do projeto político reformista do lulismo já aconteceu, com ou sem Impeachment da presidenta Dilma. Quem perde, em qualquer um dos casos, é a classe trabalhadora. E ela perde mais se, ao invés de nos focarmos no acirramento da luta de classes, continuarmos disputando espaços perdidos da democracia burguesa.

A fração moderada da esquerda socialista e de alguns movimentos sociais anticapitalistas perde o foco e defende a burguesia ao lutar contra um impeachment que já aconteceu. Em tal defesa, essa mesma fração da esquerda, tacitamente, assina os documentos do ajuste fiscal e da Agenda Brasil e faz isso com as mesmas desculpas que na época do tal “voto-crítico” (que na prática é voto-voto envergonhado) de segundo turno.

O ponto deste texto não é dizer que devemos apoiar o impeachment e nos alinhar com o jogo da burguesia desavergonhada, mas dizer que, não importa qual a camisa do time que ganhe o jogo, a bilheteria vai para os mesmos patrocinadores. A esquerda apoiar a Dilma neste momento é dar força e legitimidade para uma política violenta contra a classe trabalhadora com desculpas de “defender a democracia e as conquistas populares que colocaram o PT no poder”. É dizer que os fins justificam os meios sem se lembrar que esses mesmos fins já se perderam. Alguns desses partidos que lutam pelo PT à esquerda foram construídos quase que exclusivamente nas ruínas do idílio de “lutar por dentro” das correntes mais progressistas do próprio Partido dos Trabalhadores. Eles mesmos parecem se esquecer das decepções para, ao final, mostrar que “você pode ter saído do PT, mas o PT não saiu de você”.

Se direcionarmos a luta em favor da classe trabalhadora e pela construção de alternativas de poder popular na luta de classes, ao invés de torcermos em favor de um time que já perdeu, que ganha é o proletariado. Se unirmos todas as forças que já demonstramos ter e ignorarmos o apelo de Rui Falcão, podemos construir vias para, efetivamente, lutar pela revolução. Caso contrário, estaremos perdendo mais uma chance para construir a única alternativa real contra a barbárie iminente e os partidos e movimentos sociais “contra o golpe” estarão fazendo a política de quem perdeu a eleição, juntos com o PT do Rui Falcão.