Obra da coleção Prazerosa da artista Ariádine (http://ariadineart.tumblr.com/)

Mais orgasmos, por favor: gozar é um ato político

Por alguma razão, sempre me fixo nos pequenos detalhes: naquelas palavras que repetimos sem perceber, nos comportamentos cotidianos de aparência insignificante. Se “o diabo mora nos detalhes”, a heteronormatividade é sua vizinha de porta. É nos diálogos minúsculos, naturalizados e inocentes que a norma se esvai de nossos punhos feministas.

A reclusa Siririca 
Uma das coisas que me chamou atenção quando cheguei ao Brasil foi o fato de que existem duas palavras diferentes para a masturbação: uma para as mulheres, e outra para os homens. Aquele mandato binário se infiltrou até no ato mais íntimo e individual.

De fato, Siririca e Punheta são bem diferentes. A Punheta, senhora do bem, foi sempre reconhecida e respeitada a ponto de ter à sua disposição até casas de massagens. Já a Siririca - sempre reprimida e ignorada - vive reclusa e por vezes escondida.

Existe uma diferença entre o prazer feminino e o masculino. O feminino assusta, pois, como bem formulou a jornalista Luciana Peker, em seu livro ‘Putita Golosa’, “o desejo é o núcleo da autonomia feminina”. Essa é a chave para a libertação das amarras.

A história do orgasmo feminino confirma essa tese. O vibrador nasce no século XIX, como um tratamento médico para curar a histeria. Temos tanta dificuldade em reconhecer que a mulher é um ser que tem desejos sexuais que tivemos que inventar uma doença. Os sintomas que apresentava a mulher daquela época são os que apresentaria qualquer ser humano que estivesse preso num espartilho, num lar e num matrimônio obrigatório. Os sintomas são mensagens do inconsciente gravadas no corpo. A histeria é o desejo pulsando no corpo, procurando ser ouvido. É um ato rebelde de um corpo que reluta em viver uma vida insatisfatória.

A história das descobertas científicas é um bom parâmetro para compreender quão tabu é o prazer feminino. A ciência, orgulhosa de sua objetividade, é subjetiva no que diz respeito a isso. O orgasmo feminino no século XIX foi entendido erroneamente como uma manifestação uterina (ao invés de clitoriana). Como a mulher era reduzida a seu aspecto maternal, era inconcebível que ela pudesse ter um órgão específico destinado unicamente ao desfrute. Por isso, ao prazer sexual feminino foi atribuída uma função reprodutiva.

De fato, a ciência se debruçou no conhecimento de cada aspecto do corpo humano. Tem pesquisado sobre cada órgão com tanta minúcia que conseguiu transplantá-los. Porém, esqueceu de um órgão em particular: o clitóris. Só hoje, no século XXI, começamos a compreender seu funcionamento.

Aeromoça servindo Roger e Don no seriado Mad Men

Ela dá, pra ele comer 
Outra coisa que tive que aprender no Brasil foi a especificar o gênero para falar sobre um caso. Demorei alguns anos até assimilar que se eu vou contar para uma amiga que fiquei com um cara o mais comum é dizer que “eu dei para ele”. Mas se eu vou contar que um cara ficou com uma mina, a expressão muda para “ele comeu...”

A minha resistência para aprender essa distinção é proporcional ao tanto que ela me incomoda, por isso até hoje não a incorporei completamente. Quando eu digo que dei para fulano, me teletransporto instantaneamente a um restaurante: em minha tela mental eu sou uma garçonete que deixa um prato de comida na mesa de um homem. E, enquanto ele o saboreia, eu simplesmente aguardo ao lado, para ver se ele precisa que eu traga algo a mais da cozinha.

De onde vem a ideia de que quando a mulher transa ela está dando algo para alguém? O sexo não é uma troca na qual os dois se dão um ao outro, se entregam, se permitem, se libertam? E como só ele come? Não são os dois que se comem, se desfrutam, se saboreiam?

“Dar para se dar não é dar, lhe dá, lhe dou. Dar não é dar. Transar não é ceder quando se transa bem. É ceder não é se entregar. Se entregar não é ceder. Toda a sexualidade está revestida de metáforas de dominação. E ao mesmo tempo que capeamos a dominação procuramos o desejo perdido no dever-ser”.
Putita Golosa (2018), Luciana Peker

A maneira como o dar e comer se emprega remete à ideia de que para a mulher o sexo é um serviço, uma entrega sem desfrute.

As estatísticas de orgasmos femininos no Brasil mostram que isso se traduz em porcentagem: a mulher goza pouco. De acordo com a USP, a metade das brasileiras não tem orgasmo nas relações sexuais.

A família perfeita: Betty em comercial da Coca-Cola

Ela só quer, só pensa em namorar

“não é possível
que estejamos aqui
para não poder ser.”
O jogo da amarelinha (1963), Julio Cortázar.

O patriarcado descansa na ideia de que nossos órgãos sexuais determinam a nossa identidade. Se estabelece um modelo binário por meio do qual os aspectos e comportamentos do ser humano estão divididos em dois: metade são atribuídos às mulheres e a outra aos homens. Nesta construção, o homem se caracteriza por ser duro, fornecedor, potente, firme, racional, ativo, sexual, forte e direto. A mulher, por outro lado, é exatamente o oposto: branda, receptiva, impotente, penetrada, frágil, emocional, passiva, assexual, débil, e indireta. O problema desta narrativa é que o ser humano está impedido de viver toda sua potencialidade: pensar e sentir, ser receptivo e ativo, sexual e familiar.

Uma identidade definida em função dessa polaridade obriga ao indivíduo a não ir além das características de seu pólo: um homem, não só deve ser sempre sexual e demonstrar isso constantemente, como é educado para não chorar (não sentir); uma mulher, não só deve pensar na família, como não deve pensar em sexo.

A crença de que a nossa personalidade já está pré-definida, de acordo com uma característica biológica, gera uma obrigatoriedade profunda. Quem não corresponde a esses atributos é percebido como um ser antinatural.

Por causa dessa distinção, a mulher tem a seu cargo a função social de criar e manter a família. E o homem a de trabalhar para fornecer. E devido ao fato dele ser socialmente percebido como um ser que só pensa em sexo, a mulher é ensinada a se valer da sua sexualidade para obter do homem o que precisar. A sexualidade é o único recurso que ela tem para dar em troca de bens ou laços familiares.

Mad Men: série retrata a luta de algumas mulheres para ocupar posições então reservadas aos homens

Esse modelo, que estava intacto na década dos cinquenta, é ilustrado na ficção por seriados como Mad Men, e na realidade pela biografia de nossos avós. Hoje, graças a anos de luta feminista, está diluído, enfraquecido. A mulher já não está restrita unicamente ao âmbito privado da família, mas tem ganhado seu espaço no âmbito público e reivindicado sua potência racional.

Porém, falta muito caminho por andar: é só olhar as estatísticas para concluir que a participação feminina no âmbito público ainda não é igual à masculina. Assim como as responsabilidades do âmbito privado (como o cuidado emocional dos filhos) são uma função quase unicamente feminina.

As consequências objetivas da desigualdade podem ser medidas estatisticamente. Porém, as causas subjetivas desta são mais difíceis de contornar. Esta assimetria de poder se baseia numa construção social que temos naturalizado. E sendo que trata-se de uma narrativa que tem milênios, pequenos traços imperceptíveis estão presentes inclusive nas mulheres feministas.

Complexo de Cinderela
A mulher de nossa geração cresceu brincando de responsabilidade. Até hoje me resulta esquisito ver uma menina de cinco anos arrastando um carrinho que acolhe um bebê de plástico. O jogo tem uma importância decisiva na nossa subjetividade porque funciona como um role-play de nossa futura vida adulta. A maternidade não é uma brincadeira. Cuidar de outra vida pode ser gratificante, mas não por isso deixa de ser uma árdua tarefa.

A menina desde criança é estimulada não pelo prazer indulgente, mas pelo trabalho. E nós temos aprendido que “formar família” não é só a nossa responsabilidade como é o que vai nos salvar. Para Cinderela, chegar no baile é estrategicamente importante: ela necessita ser a escolhida pelo príncipe porque só o casamento com ele poderá tirá-la da casa em que é oprimida. A vítima precisa ser resgatada pelo príncipe.

Mas como demonstrou a psicanalista analítica Clarissa Pinkola Estés, a história tem produzido outras narrativas. No conto “Vasalisa, a Sabida” a protagonista empreende uma viagem iniciática de volta à casa para acabar ela mesma com a opressão perpetrada pelas mulheres da família e assim se libertar

Mas nós não fomos criadas pela Vasalisa, mas pela Cinderela: Uma mulher passiva e impotente, incapaz de ser a heroína de sua própria história.

São estes símbolos que acabam costurando nossos relacionamentos adultos. É por isso que vemos usualmente duas ou três mulheres dando pulinhos festivos para serem notadas na presença do macho alfa. Competimos com outras mulheres porque vemos as irmãs más da história da Cinderela como concorrentes. Procuramos ser as escolhidas por ele porque aprendemos que é nisso que reside tanto a nossa responsabilidade como a nossa salvação.

Assim, a mulher insiste em ser escolhida pelo homem ainda que não goze com ele. Pode ficar anos em relacionamentos sem sentir orgasmos, dizendo a si mesma que gozar não é tão importante assim, fingindo ou omitindo essa informação de seu próprio parceiro. Namorar é prioridade, transar é só um bônus.

Por que nos incomoda o desejo feminino? Transeunte intervém no lambe-lambe ‘sua buceta’ é linda” do projeto artístico #lambebuceta (Foto: Kelly Cristina Santos)

Culpabilização da vítima: a punição social do desejo feminino.

Ainda que seja difícil, é preciso reivindicar o direito ao prazer, porque é justamente na supressão do desejo feminino que se edifica o patriarcado.

“A violência e a indiferença não são assimiláveis. Porém, podem ter a mesma raiz: a reação frente ao desejo das mulheres. As mulheres que querem ter namorado ou amante, inclusive peguete, quase como um erotismo efêmero e intangível, não devem escrever, pedir, propor, falar ou perguntar. Ou seja: não devem mostrar desejo. As mulheres que não querem ter namorado, marido, amante, que não suportam que sejam gritadas porcarias ou serem apoiadas no trem, que não aguentam continuar casadas ou ser fiéis ou se bancar a mirada do chefe entre os peitos, não devem se queixar, denunciar, se separar, sair da casa, mandá-los embora, renunciar, esculachá-los. Ou seja: não devem mostrar seu desejo.
O que enche o saco é o desejo”.
Putita Golosa (2018), Luciana Peker

O modelo binário da heteronormatividade precisa de três personagens para existir: um homem e duas mulheres.

Como tínhamos falado, o homem é percebido como sexual enquanto a mulher como assexuada. Esta construção social implica que o sexo para o homem é tanto uma prerrogativa como um mandato: ele pode (e deve) transar constantemente.

Mas se a mulher deve ser assexuada, com quem ele transa? Ah! Tem dois tipos de mulheres: a Santa e a Puta.

Esta dinâmica foi perfeitamente ilustrada por Don Draper, personagem central de Mad Men. Ele se casa com a mulher santa que é o modelo da “recatada e do lar”, dedicada à família e nunca a si mesma. Para esta mulher o sexo só está permitido se é com fins reprodutivos ou para satisfazer ao marido. Até as fantasias lhe geram uma sensação de culpa. Da mesma forma, para ele experimentar determinadas coisas com esta mulher implicaria faltar-lhe o respeito, dessacralizá-la.

Por isso, no âmbito público ele transa com a puta com quem pode explorar o que quiser. A puta nessa narrativa também não é uma mulher que gosta de transar. Se a santa se dá em troca da família, a puta se dá em troca de dinheiro, presentes, apartamentos ou promoções profissionais.

Passadas algumas décadas, essa realidade ganhou novos contornos, mas essencialmente mudou pouco. Para mais da metade dos brasileiros “há mulheres feitas para casar e outras para levar para a cama”.

A mulher para casar é sempre aquela que é difícil de levar para a cama. Essa é a cenoura que atamos ao cavalo no caminho até o casamento. E a mulher que só quer um orgasmo em troca do sexo, é uma mulher fácil. Parece que nós mulheres estamos sempre atadas a duas opções: Santa ou Puta.

A puta é percebida como uma cidadã de segunda porque fugiu da função social que lhe foi atribuída: se a mulher tem a responsabilidade de constituir a família, aquela que faz sexo sem pedir vínculo estável em troca não merece respeito. Ela é desprovida de direitos porque não é “uma mulher de verdade” (como bem ilustra o samba “Ai que saudades da Amélia”).

Por isso, a vítima de assédio sexual é sempre culpável pelo seu trágico destino. As justificativas giram em torno da “saia curta que estava usando”, do “lugar que frequentava” do “abuso de bebida”. Como a mulher tem o mandato de ser sempre passiva e indireta, ela não pode expressar seu desejo em voz alta e dizer: “quero transar”.

Pelo contrário, é obrigada a seduzir por sinais na espera de que o outro os capte e responda ativamente. Assim, ela só pode se valer de recursos indiretos como a roupa, os gestos, os risos e os olhares. Por isso, quando uma mulher anda pela rua de saia curta, alguns entendem que “ela está pedindo”.

E como ainda nos ensinaram que o homem é um ser sexual por natureza - tão incapaz de controlar seus instintos quanto um cachorro, se ele foi tentado por uma mulher que “anda por aí se exibindo”, responderá qual predador caça a presa. Por isso, 2 de cada 3 brasileiros acreditam que um homem é incapaz de conter seu impulso de violentar uma mulher. Essas construções naturalizadas sobre a constituição feminina e masculina acabam permeando o imaginário social com a falsa ideia de que a culpa nunca é dele, mas sempre dela. A noção de que a mulher provoca maldosamente um coitado escravo de seus instintos encontra-se muito presente no tangos e nos sambas.

Em relação aos casos de assédio a resposta deve ser clara: ouvir (e acreditar) na vítima e denunciar (e julgar) o agressor como único culpado

Mas, em relação a nós mesmas, é possível uma reflexão sobre os nossos comportamentos cotidianos que reproduzem essa lógica, para poder quebrá-la e viver uma sexualidade livre de amarras.

Em situação de conquista, é válido se perguntar: será que estamos passivas aguardando um convite masculino, ao invés de expressar diretamente nossa vontade? O nosso jeito de seduzir só pode ser um conjunto de sinais indiretos com o objetivo de chamar a atenção do outro, para que ele nos escolha? Estamos competindo com outras mulheres, como a Cinderela para ir ao baile?

Já no que diz respeito ao vínculo estável é bom se questionar: quão saudável é um relacionamento que se baseia na mentira ou no ocultamento (nos casos onde a mulher esconde o fato de não gozar para seu parceiro)? Estamos priorizando o casamento ao orgasmo, resignando nosso direito de uma vida íntegra? Estamos usando o sexo como moeda de troca? Por exemplo, quando a mulher usa o sexo como se fosse o videogame tirado de uma criança para que aprenda alguma lição (“querido, até você não mudar tal atitude, você não vai me comer”)?

É a crença de que o sexo só pode ser uma tática para obter outra coisa o que nos aprisiona; é a obrigatoriedade de ser indiretas e passivas que nos tira a liberdade (e os orgasmos). Se o que está no centro do modelo patriarcal é o tabu do desejo feminino, expressar o desejo e viver o prazer são revolucionários.

Cena de Mad Men onde a mesma modelo interpreta Marilyn Monroe e Jacqueline Kennedy: “Porque nós queremos as duas, elas querem ser as duas. É como querem ser vistas.”

Integração: Nem puta nem santa
Isso não significa que temos que nos preocupar caso não gozemos todas e cada uma das vezes. O grande desafio é o de enxergar a sexualidade como simplesmente uma parte mais de quem somos e diminuir a quantidade de regras que construímos ao redor dela. Não tem receita porque não existe uma fórmula precisa para ser humano. Cada pessoa é diferente e a sexualidade (quando é vivida com autenticidade) deveria poder expressar essa individualidade que nos faz ser quem somos.

Isso é difícil porque, como explica Foucault, a nossa sociedade botou a sexualidade no centro da nossa identidade. Somos constantemente estimulados por discursos que exaltam ela (comerciais de cerveja e cremes anticelulite) ou que a reprimem (discursos religiosos que falam sobre pecado).

Para fugir desta dinâmica é preciso identificar e desconstruir os traços patriarcais que se expressam na nossa sexualidade: nos libertar da ideia do pecado, da necessidade feminina de um corpo que se encaixa nos padrões e da obrigatoriedade masculina de ser sempre potentes, firmes, duros e aguentar até o final.

Mas é preciso ir ainda um passo além: é necessário enxergar que a sexualidade não é o centro de nossa identidade, mas só uma parte. Um aspecto, entre muitos outros.

Não é um ente separado que funciona (ou deve funcionar) sempre da mesma maneira. Não precisamos ter sempre vontade de transar, assim como não temos sempre vontade de ler um livro. Não é possível desfrutar o sexo sempre da mesma maneira, assim como não desfrutamos da vida cada dia na mesma medida. Este tipo de olhar holístico da sexualidade já foi explorado por outras narrativas antigas como a Kundalini.

O ser humano é um ser potencialmente íntegro: as mulheres não precisam ser santas ou putas. Assim como os homens não devem ser necessariamente machos durões. Somos pessoas. A dificuldade talvez, passe justamente por enxergarmos como seres humanos.

A personagem Joan andando na rua

Ativismo e autoconhecimento: na rua e no consultório
O caminho para viver uma sexualidade plena é necessariamente um caminho de autoconhecimento. Não é suficiente nós nos declararmos feministas para que o machismo entenda o recado e saia da nossa subjetividade.

Porque o patriarcado - assim como qualquer outro processo social - não se impôs de um dia para o outro, por um grupo de homens vis sentados numa cúpula. Se produz e reproduz faz milênios por todos e cada um de nós, no minúsculo e imperceptível do cotidiano.

E, por isso, tem que ser combatido nas ruas, com bandeiras e propostas de leis. Mas também no mais recôndito de nosso inconsciente.

Por ser um mecanismo tão inteligente - que se fantasia de natural e inofensivo - demanda de nós um olhar sagaz e constante. Ser honestas conosco mesmas e expressar a nossa vontade são chave para desmascarar as armadilhas machistas.

Diferentemente da minha avó, que por ter usado um batom vermelho levou um soco de seu pai no meio da rua (ao tempo que lhe gritava puta), eu tive a sorte de crescer numa família que me explicou desde a mais tenra infância que a masturbação era algo saudável. Mas mesmo com aquela educação, o modelo patriarcal deixou seus rastros.

A maioria dos homens ainda faz aquela divisão entre puta ou santa (mais ou menos conscientemente); muitas mulheres ainda competem com as outras pelo cara ou preferem chamar a mina de vaca ao invés de botar a responsabilidade no parceiro.

Se você teve uma educação mais livre talvez chegar ao orgasmo não seja um problema. Mesmo assim cabe se perguntar: o que de minha rebeldia acabou se transformando em defesa emocional, para me proteger do ataque social? Se sua educação foi mais conservadora, talvez seja útil a pergunta: será que a repressão sexual acabou se convertendo em resignação?

Sobre a autora: Anahí Lucas é argentina e mora há mais de cinco anos no Brasil. É licenciada em Sociologia pela Universidade de Buenos Aires.

Agradecimentos a Helena Dias, Kelly Cristina Santos, Ariádine Menezes, Isabela Lages, Silvia Babbino, Juliana Vettore e Maurício Araújo.

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Notas

1 — Outra obrigação do modelo patriarcal é a de ser heterossexual. Foucault em seu livro “História da sexualidade” explica este tema em profundidade.

2- Aqueles indivíduos que se recusam a corresponder com as características fixas que impõe o patriarcado são marginalizados devido a não se adequarem àquela narrativa. Quanto mais forte forem os laços sociais machistas numa sociedade, maior será a penalização social. Assim pode se explicar o triste lugar que ocupa o Brasil no ranking de feminicídios e assassinatos LGBT. Como explica Judith Butler, para nossa sociedade não todos os corpos importam. As existências não reconhecidas pelo status quo são exterminadas.

3 — As estatísticas de feminicídio confirmam que não somos tão bem-vindas nas ruas; a baixa representatividade feminina nos cargos públicos confirma que a política é um terreno a conquistar; a desigualdade salarial expressa a desvalorização da capacidade racional e profissional das mulheres. Adicionalmente, o alto índice de abandono masculino dos filhos, assim como a própria divisão de tarefas dentro do lar, confirma que as mulheres ainda são as principais encarregadas de criar os filhos.

4 — É importante destacar que — como explica Sergio Sinay no livro a Masculinidade Tóxica - o modelo patriarcal também tem consequências nocivas para a subjetividade masculina.

Bibliografia

PEKER, Luciana. Putita Golosa: Por un Feminismo del Goce. Buenos Aires: Galerna, 2018.

FOUCAULT, Michel. Historia de la Sexualidad. Buenos Aires: Siglo Veintiuno Editores, 2013

BEAUVOIR, Simone. O Segundo Sexo. São Paulo: Nova Fronteira, 2016

SINAY, Sergio. La Masculinidad Tóxica. Buenos Aires: Ediciones B, 2006

BUTLER, Judith. Cuerpos que Importan: Sobre los límites materiales y discursivos del “sexo”. Buenos Aires: Paidós, 2008.

REICH, Wilhelm. A Função do Orgasmo. São Paulo: Brasiliense, 1979.

SOARES, Ana Carolina. Pesquisa da USP mostra que metade das mulheres não chega ao orgasmo. Veja SP, São Paulo, 26 de fevereiro de 2017. Disponível em: https://vejasp.abril.com.br/blog/sexo-e-a-cidade/pesquisa-da-usp-mostra-que-metade-das-mulheres-nao-chega-ao-orgasmo/

MIOTO, Ricardo. Mais de 70% das mulheres nunca atingiram o orgasmo com seus parceiros. Folha De S.Paulo, São Paulo, 6 de Agosto de 2010. Disponível em: https://m.folha.uol.com.br/ciencia/2010/08/778593-mais-de-70-das-mulheres-nunca-atingiram-o-orgasmo-com-seus-parceiros.shtml

FORMENTI, Ligia. 54,9% acreditam que existe ‘mulher para casar’, diz pesquisa. O Estado de S. Paulo, São Paulo, 27 Março 2014. Disponivel em: https://brasil.estadao.com.br/noticias/geral,54-9-acreditam-que-existe-mulher-para-casar-diz-pesquisa,1145870

PINKOLA ESTÉS, Clarissa. Mulheres que correm com os lobos. Brasil: Rocco, 1994

MDRESSELHAUS. Clitóris e orgasmo feminino. Como a ciência aborda esses assuntos? Cientistas Feministas. Brasil, 26 de junho de 2017. Disponivel em: https://cientistasfeministas.wordpress.com/2017/06/26/clitoris-e-orgasmo-feminino/

CORRÊA, Clarissa. A história do vibrador: Ele não foi inventado para a satisfação sexual. Tpm. São Paulo, 4 de outubro de 2006. Disponivel em: https://revistatrip.uol.com.br/tpm/a-historia-do-vibrador

SOARES, Nana. Pesquisa: 67% dos brasileiros acham que violência sexual acontece porque homem não controla impulsos. São Paulo, 12 de dezembro de 2016. Disponível em: https://emais.estadao.com.br/blogs/nana-soares/pesquisa-67-dos-brasileiros-acham-que-violencia-sexual-acontece-porque-homem-nao-controla-impulsos/