O pão, o rolo e o monge

As vezes ouço um som oco vindo de dentro

Como aquele que ouvimos quando mergulhamos numa piscina em um dia ensolarado de verão

Me vejo pensando em corriqueirices da vida

Naquele filme que gostaria de ter roteirizado

No livro que gostaria de ter escrito

E, olha, poucas coisas são tão aprazíveis nessa vida quanto ler Mrs. Dalloway no Girondino numa tarde de quinta.

O aroma do café se fundindo com a fumaça do Marlboro light é tão bonito.

À luz atravessa a cortina de renda branca e se dissipa na página em que Clarice encontra Richard.

Poderia ser você…

Comprar flores nas bancas do Arouche pareceria mais interessante se ao invés de girassóis fossem tulipas.

Os espinhos das rosas furam o celofane enquanto caminho.

Caminho só pelo largo de São Bento onde os beneditinos badalam o sino das cinco da tarde

O cheiro de pão fresco percorre minha narinas e,

A cozinha da minha avó tinha esse cheiro nas tardes de 98 quando eu saia da escola e descia a rua da basílica.

O sol amarelo da tarde entrava por entre os vitrais, azuis e laranja, da cozinha

O mármore branco da mesa de jantar ficava todo salpicado de cores

As portas dos armários refletiam os pequenos cacos cuidadosamente colocados

Um a um

Mais a mais o aroma do café dela era mais saboroso.

O polvilhar da farinha na pedra abria caminho para a massa a ser aberta

Lentamente

O deslizar do rolo era tão suave

Ninguém diz opressor o tambor de madeira que separa os grãos do trigo

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