Ganhei um par de botas de um mendigo em paris

Fazia 3 anos que eu estava lá, já tinha cumprido algumas missões e era hora de ir embora, mas eu não queria. Estava apaixonada. Pela cidade, por um músico, estava viciada naquela circunstância e com uma esperança fora do normal. Tinha concluído meu mestrado, tinha entregado o meu apartamento, mal tinha onde morar, minhas fontes de renda tinham esgotado e eu não queria ir embora. Ia ficar, ponto. Só que precisava trabalhar. De hoje, pra hoje. Arranjei um emprego naquela noite mesmo, no pior bar de Paris. Imagine que as coisas ruins são proporcionais às lindas naquela cidade. Pois é. E junto com o pior emprego do mundo, veio o inverno, o pior dos últimos 3 anos em que eu estive lá.

Nos arredores do bar, tinha um mendigo simpático, e sempre que sobrava “plat du jour” a gente dava pra ele comer.

Um dia cheguei pra trabalhar e tinha uma sacola pra mim. O árabe, dono do bar, falou: tem um presente pra você.
Abri, era uma bota, bonita, nova.
- Quem deixou?
- O Arreskil.
Fiquei atônita, olhei pros meus pés, estava usando um All Star. Olhei pra fora, fazia frio pra danar, tinha resquícios de neve ainda. Perguntei-me onde será que ele estava, e onde ele tinha dormido naquela noite ge-la-da? E por que ele não deu a bota pra namorada dele? A namorada dele era bem louca, não se dava bem socialmente, ela olhava para as pessoas de canto de olho. Quando a vi pela primeira vez, tive certeza de que a personagem da Milla Jovovich no Hotel de um Milhão de Dólares foi inspirada nela. Anyway, só sentia vontade de abraçá-lo e ver aquele sorriso banguelo. Mas não sei quando ele iria passar no bar de volta.

Pausa
Eu fiz 2 amigos clochards (mendigos) em Paris:
Um que morava na esquina da minha casa e um dia brigou comigo porque eu não conhecia as músicas dos anos 80 que ele curtia — Ele tinha um MP3 e, às vezes, quando eu voltava da balada, estava ele lá curtindão, dançando. Ele se chamava Richard e vivia numa barraca. Quando esquentava, ele partia pro sul. No verão de 2009, ele voltou e trouxe com ele uma garota! Amor de verão . Estava muito apaixonado, era bonito de ver os dois.
E o Arreskil, meu amigo clochard árabe, banguelo, que me deu a bota.

Volta
Numa certa tarde, Arreskil voltou, agradeci as botas, dei uma blusa de lã pra namorada dele e, a partir de então, dava um jeito de separar um “plat du jour” arregado pra ele. Também ensinei umas palavras em português e como escrever ao contrário. A bota ficou por lá, depois eu dei pra outra mendiga. Eu não queria botas, eu queria viajar, eu queria fazer o Caminho de Santiago, eu queria estar lá. Hoje faz frio em Curitiba, 7°C, e eu tenho botas. Mas preciso viajar.

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