Como cativar com suas histórias pessoais.

Hoje de manhã eu li um artigo no jornal inglês, o “The Guardian”, sobre o difícil processo que uma jornalista levou para decidir largar o seu emprego e se tornar dona de casa. No início do artigo ela falou sobre o trabalho bem pago que ela tinha num jornal de renome, a sua carreira com prospecção de crescimento e o papel que ela cumpria como mulher empoderada. A motivação para ela abrir mão de tudo isso veio quando o filho dela nasceu. Ela não conseguia ficar longe dele e nem aceitava fazer apenas uma parte pequena na sua educação. Largar o emprego e se tornar dona de casa foi uma mudança muito grande e particularmente difícil para o ego dela, pois de repente ela trabalhava para resultados que ninguém via além do marido e o filho. Nesse novo emprego, jamais iria conseguir uma promoção, nem a adulação dos seus colegas e não iria ganhar um bônus. Para piorar, a sociedade parecia dar mais respeito às mulheres trabalhadoras com as suas próprias fontes de renda do que para as mulheres que escolhiam cuidar da casa e dos filhos. Apesar de todas as mensagens externas fazia ela se sentir envergonhada por se limitar ao lar, o que ela se sentia internamente deixou claro que ser dona de casa era a escolha correta para a situação dela

O artigo citado acima é sobre algo comum e talvez até banal — uma mulher que cuida de uma casa e de um filho. Considerando essa falta de novidade, por quê esse artigo foi publicado num jornal de renome no Reino Unido? A resposta é obvia e simples: é porque as vidas dos outros são fascinantes. Os pensamentos dos outros, as emoções dos outros, a aprendizagem dos outros e a criatividade dos outros são espelhos para nos analisamos, nos comparamos e nos entendemos. Então eu digo: se a tua própria vida é chata e mundana para ti, acredita que ela não é para outras pessoas.

Há várias vantagens em trocar estatísticas, dados e fatos por histórias pessoais sempre que possível. Contando curtas histórias sobre a sua vida cativa e prende a atenção, além de fazer você mais humano, compreensível e memorável.

O melhor tipo de história na minha opinião é aquela que você pode contar em variadas situações e que é original e verídica. Como descobrir essas histórias é o foco do resto deste artigo.

Há quatro tipos de história que garantem uma boa conexão com qualquer público. São histórias…

  1. em que você aprendeu uma lição. (Uma lição prática, ética, emocional, etc.)
  2. em que o rumo da sua vida de repente mudou. (Melhor ainda se você define as suas crenças antes da mudança e como mudaram depois.)
  3. sobre um desafio. (O quê era e como lidou com ele?)
  4. sobre a sua ousadia. (Quando você fez algo que poucos fariam, ou fez algo fora da tua zona de conforto.)

Exemplos de histórias comuns mas fascinantes criadas com os temas acima:

  • Uma nova dona de casa aprendeu que ela tinha tido um preconceito escondido sobre mulheres que escolhem ser donas de casa. Só quando ela se tornou dona de casa se deu fé que ela estava mais realizada nesse papel do que na sua antiga carreira como jornalista.
  • Uma menina descobriu que estava grávida.
  • Um jovem não tinha tempo para estudar e trabalhar. Ele tinha que escolher entre ou arriscar entrar na pobreza por estudar sem trabalhar ou colocar limites na sua potencial por começar a trabalhar e abrir mão dos estudos. Ou tinha que achar uma terceira maneira.
  • Um homem tímido foi para um show sozinho depois que todos os amigos dele furaram na última hora. No show ele conheceu gente nova, se divertiu muito, ganhou auto-confiança e acabou voltando para casa as seis da manhã com um sorriso imenso na cara.

As histórias encima são, na verdade, apenas sinopses. Uma história completa precisa de estrutura e essa estrutura tem quatro partes:

  1. Contexto
  2. Desafio
  3. Tentativa de Solução
  4. Resolução e depois

Tente se lembrar de sempre contar as suas histórias com essas quatro partes e nessa ordem. Se pular uma das partes ou misturar a ordem delas, a história não vai ter o mesmo efeito. Vamos usar como exemplo a última história das que inventei a cima, a história sobre o homem tímido que foi sozinho ao show e se divertiu mesmo assim.

  1. Contexto — Um homem chamado João tinha planejado uma noite num show de um Guns n Roses tribute na sua cidade. Quatro amigos tinham topado a idéia. Alguns iam até levar as suas namoradas, então o grupo ia ser grande. João estava animado, pois gostava de sair com um grupo de amigos e adorava a Guns n Roses.
  2. Desafio — Já pronto para sair, o João começou a receber as mensagens dos amigos que não queriam mais sair. Com cada mensagem ele ficou mais triste e chateado. A noite ia ser estragada e ele não poderia ir mais.
  3. Tentativa de solução — João resolveu fazer algo inédito. Ele estava furioso com ele mesmo por pensar em perder um show tão legal só porque não tinha a couragem de sair sem os amigos. Ele deu fé da sua própria dependência nos outros e ficou com nojo. Ele era homem, jovem, tinha que viver, ele pensou e então pegou o seu celular e as suas chaves e saiu do apartamento. No primeiro bar que passou comprou duas cervejas e foi até a parada de ônibus. Esperou o ônibus bebendo as cervejas e se sentindo um ventureiro fazendo algo que ninguém mais iria fazer.
  4. Resolução e depois — No show João ficou apoiado no bar, bebendo e curtindo a música. As vezes se sentia falta de ter alguém para compartilhar os bons momentos, mas a música era tao boa e a cerveja tão gelada que esse sentimento passou logo. Eventualmente ele entrou tanto no vibe que acabou espontaneamente conversando com um cara ao seu lado. Esse cara estava com um grupo de quatro pessoas. Em pouco tempo João estava falando com eles todos, curtindo a música e se sentindo em casa no seu próprio pele pela primeira vez em muito tempo.

Esse formato faz que o público entende um pouco sobre a personagem principal, o seu desejo e a barreira que causa sofrimento. Sabendo isso tudo, o público fica engajado e interessado na tentativa de resolução, mais do que se apenas soubessem que “o João saiu ontem e se divertiu muito com pessoas desconhecidas”.

Conte mais histórias, sem medo e sem vergonha. Cada vez que você começa a contar uma história, presta atenção em quanto tempo as pessoas ficam focadas em você. Vai notar que tomando a liberdade para contar uma história, você prende a atenção de todo tipo de gente por muito mais tempo do que você talvez imaginaria possível. E,o melhor de tudo, a sua mensagem será memorável por ser uma história.