Carta da namorada com depressão

É mais comum vermos um depoimento de uma pessoa que lida com alguém com depressão, mas e se for o contrário? Hoje estou aqui para contar um pouco de como é eu, com depressão, viver com alguém “saudável”.

Estamos juntos já faz um tempo. Vivíamos felizes, mas como todo casal havia aquelas briguinhas chatas de ciúmes e certos desentendimentos de vez em quando. Apesar de tudo, amor é o que nunca faltou entre nós dois. O tempo passou, as brigas cessaram, porém outra coisa surgiu. Algo de difícil compreensão e aceitação. No começo os sintomas eram quase imperceptíveis, porém elas passaram a evoluir com o passar dos meses. Passei a me ver todo dia mal, não conseguia manter minha mente tranquila para nada, passei noites em claro, suava muito, tinha tonturas e fraqueza, via-me com vontade de ficar na cama o dia inteiro, tinha dores de barriga sempre que saía de casa, pensamentos pessimistas e suicidas rondavam a minha cabeça, chorava quase sempre e não tinha forças para nada a não ser dormir e desejar que tudo parasse. Meu desempenho na faculdade começou a cair, ir para as aulas se tornava um sufoco, perdia a concentração rapidamente quando estudava e o desânimo sempre me derrotava. Quando me dei conta, vi-me quase trancafiada no meu quarto, pois ao sair era necessário usar a máscara social do “está tudo bem comigo” e isso consumia uma enorme energia de mim. Cheguei a perder quase 6 kg mesmo sem deixar de me alimentar. Apesar de eu ter mudado bastante, de eu ter reclamado todo dia sobre o meu bem estar ele nunca deixou de estar presente. Foi aí, depois de muito sofrimento e resistência que decidi procurar ajuda profissional. Com certeza, foi graças a ele! No psiquiatra, tive a comprovação: eu estava sofrendo de ansiedade e depressão. A medicação me ajudou bastante e uma grande melhora foi vista, só que isso não foi o suficiente. Passamos por momentos bem difíceis juntos, eu estava completamente exausta e destruída por dentro. Ele me acompanhava no psiquiatra, cozinhava para mim quando eu estava mal, deixou de ir em algumas aulas da faculdade por ter ficado preocupado comigo, mandava-me mil mensagens durante o dia demonstrando todo o seu carinho, simplesmente ele estava lá. No final, ele estava lutando por ele e por mim também. Quando eu não tinha forças para continuar era ele que me erguia, que me mantinha ainda viva por dentro. Ele era e ainda é a minha fonte de força e inspiração. Não posso descrever o quanto ele me ajudou, quantas vezes ele deixou de fazer algo dele por mim, quantas vezes eu não o vi chorar por ter ficado triste com a minha situação, por ter entrado em desespero por me ouvir falar que queria acabar com a minha vida… quantas vezes ele não ficou ao meu lado. Ao mesmo tempo que eu sentia uma enorme companhia vindo dele algo começou a me perturbar. Percebi que eu estava tão conectada com ele, ciente dos meus problemas e da minha situação que passei a praticar um grave erro: duvidar do seu amor. Parece loucura, ele fez de tudo por mim e ainda tenho dúvidas disso? Mas não é tão simples como parece. Uma pessoa fragilizada se agarra com um laço muito intenso com as pessoas próximas que demonstram preocupação e oferecem amor e sinceridade nas palavras. Fiquei com medo de perder a única pessoa que parecia me entender por completo, que sabia dos meus lados mais obscuros e mesmo assim permanecia comigo. “Como alguém em sã consciência consegue amar uma pessoa nesse estado?”, “o que eu fiz para merecer esse amor?”, “será que ele me ama de verdade ou tem dó de me deixar nessas condições?”, “até quando ele vai me aguentar?” foram algumas das perguntas que fiz a ele e a mim mesma. Em todos esses questionamentos ouvia um “é claro que eu te amo”, “não estou com você por dó”, “irei continuar com você eternamente”. No fundo, eu queria escutar isso mesmo, não queria que ele me deixasse, queria que ele ficasse comigo para sempre. Era como se eu mesma estivesse sabotando a nossa relação e o amor dele por simples insegurança minha. Talvez se não fosse por ele eu não estaria aqui escrevendo este texto, talvez se não fosse por ele eu já teria desistido de tudo. Como sou grata por tê-lo encontrado em minha vida, por tê-lo como meu companheiro. Os dias vão passando, apresento altos e baixos constantemente, continuo com os remédios e agora estou iniciando terapia com psicólogo. Quem sabe o que o futuro ainda me reserva?