Sobre Motos, Diversão, Liberdade, Igualdade e Fraternidade: um breve relato acerca do motociclismo. Part 2

…“Para o Oeste, meu jovem, para o Oeste”

A frase acima foi popularizada pelo fundador do Partido Republicano, Horace Greeley, quando os Estados Unidos deram início ao processo de povoamento dos territórios localizados no oeste do país. Isso foi no começo do século XIX — mas veio a calhar com a expansão do motociclismo. Depois de toda a reviravolta causada pelas guerras mundiais, os Estados Unidos firmaram-se como a maior potência do globo. E, ficando a oeste da Europa, para lá rumou a paixão pelas motos.

Grande parte dos veteranos das forças armadas norte-americanas, depois de todo o trauma causado pela II Guerra Mundial, não conseguiu mais se adaptar à antiga rotina. Habituados à adrenalina diária de ter a vida por um fio e movidos por um grande senso de liberdade e de aproveitar bem cada minuto, muitos adquiriram motocicletas, vendidas a preços baixos em leilões das forças armadas. Esses novos motociclistas passaram a se agrupar, unidos pelo prazer da companhia e da aventura sobre duas rodas. Foi aí que começaram a se esboçar os embriões dos primeiros motoclubes norte-americanos.

https://www.americanmotorcyclist.com/

Esses grupos de motociclistas aos poucos passaram a incorporar valores comuns aos soldados, como hierarquia, honra e fraternidade. Também passaram a adotar símbolos, cores; para a etapa de formalização foi um pulo. A A.M.A. (American Motorcycle Association, ou Associação Americana de Motociclismo, em tradução livre) passou a organizar eventos para integrar esse novo segmento de motociclistas. Foi uma coisa bacana, com o objetivo de envolver essas pessoas e, ao mesmo tempo, difundir a filosofia do motociclismo. Pena que alguns elementos passaram do limite — e isso comprometeu seriamente a imagem do grupo. A receita do desastre é muito simples: basta juntar um punhado de arruaceiros, uma sociedade puritana, uma pitada de oportunismo e uma boa dose de sensacionalismo. Os motoclubes, àquela altura, estavam espalhados por vários pontos dos Estados Unidos, mas destacavam-se no estado da Califórnia. Um fim de semana na cidadezinha californiana de Hollister foi suficiente para denegrir a imagem do motociclismo norte-americano.

O dia era 4 de julho de 1947. Entre motoclubes membros e não-membros da A.M.A., todos estavam presentes em Hollister, que sediava um evento de competição. Atritos entre alguns motociclistas produziram faíscas que acabaram detonando uma grande explosão. Pessoas de má índole deram início a uma onda de baderna na cidadezinha do interior: “competições” de motos nas ruas, colocando em risco a vida de pedestres; vandalismo e muita bebedeira. Seja lá como começou a loucura (ninguém sabe ao certo), a verdade é que por trás da confusão poderia muito bem existir uma motivação de cunho político, no que diz respeito à A.M.A.: apenas os associados tinham o direito de receber o certificado que permitia a participação em competições de velocidade. Além disso, a organização era responsável pela segurança e bom andamento dos eventos que promovia. Qualquer moto-clube clandestino, descontente com o fato de não poder participar das provas, poderia jogar sujo para acabar de vez com a imagem da A.M.A. Enfim, são especulações. Como se não bastasse o pandemônio, a imprensa sensacionalista (sempre visando o lucro com a venda de jornais, seja a notícia verdadeira ou não) divulgou uma foto, na capa da revista Life, onde um motociclista (aparentemente bêbado), segurando duas garrafas de bebida, aparece mal equilibrado em sua moto. Abaixo da foto, a legenda: “Ele e seus amigos aterrorizam a cidade”.

Foi o suficiente para que os meios de comunicação de todo o país falassem em “cerco à cidade”, “terrorismo” e “violência”. Diz-se que a A.M.A. liberou uma nota à imprensa desmentindo todo o exagero da história e dizendo que o ocorrido era culpa de apenas 1% dos motociclistas presentes em Hollister naquele fim de semana; os outros 99% eram pessoas de bem, honestas, trabalhadoras e com sólidos valores morais. Nunca se confirmou a existência dessa nota. Mesmo que tivesse existido, não seria suficiente para consertar o estrago. Para completar, Hollywood prestou um grande desserviço ao motociclismo nos Estados Unidos: o filme The Wild One (“O Selvagem”), estrelado por Marlon Brando. Trata-se, simplesmente, da adaptação do “caso Hollister” para as telas do cinema. Se o objetivo de toda a cobertura da mídia da época era estereotipar a imagem do motociclista, transformando-o num bandido que espalha o terror sobre duas rodas, o destaque também foi para os motoclubes “marginalizados”, ou seja, aqueles que não faziam parte da A.M.A.: os Outlaw Motorcycle Clubs — literalmente os “fora-da-lei”.

Continua…

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