Preciso dizer que não foi “do nada”.

Aliás, nunca é, né?

Sempre existem um milhão de pequenas coisas, pequenas mensagens reveladas em gestos mínimos. Obviamente que ignoramos todos os sinais e só focamos naquilo que nos mantem resplandecentes em nossa quentinha merda de conforto, digo, ZONA de conforto.

A tempo de já avisar que essa retrospectiva contém uma fraude. Ela está sendo escrita meio que ao mesmo tempo em que é vivida porque eu ainda estou me tornando uma sobrevivente na minha própria história. Se, como nos ensina a — grande fonte do conhecimento moderno — Wikipedia “Retrospectiva significa rever e relembrar eventos que já ocorreram, em forma de um relato ou análise” fica claro que a minha retrospectiva ao vivo é inovação ou fraude.

Bem, fato é que isso é o que menos importa nessa analise emocionada ainda com certa efervescência do que aflora nesses dias tão estranhos do final desse ano estranho de 2019.

Pois bem.

É difícil deixar certas coisas passarem, mas um dos meus esportes favoritos é reagir muito, muito, muito bem no momento (ariana, né, mores? Tarefeira por excelência) e depois ficar com o psicológico completamente fodido quando começo a processar tudo na real.

(pausa para analisar um aspecto controverso da minha natureza mais pura desse último parágrafo: ser reativa é uma das razões por eu ser tão boa em cumprir tarefas, parece que o jogo virou, não é mesmo?)

Tento parar de enrolar, não consigo. O que eu queria era ir direto ao ponto e dizer que não foi do nada mesmo que tudo terminou.

Certo desconforto com algumas falas, com algumas posturas. Durante bastante tempo o desconforto não fazia sentido, não me mostravam a peça que estava faltando para que eu alinhasse meu olhar.

Tô enrolando né? Queria ser poética com essa dor. Mas, para falar a verdade, a dor de uma irmandade traída não dá pra florear.

A sua intensidade não me deixou ver que você me roubava de mim, pouco a pouco. Se aproveitando da minha sincera desnecessidade de palco e palanque, você tomou para si o que eu pensava estar compartilhando de mim com você.

Quando você se engaja num trabalho de base e alguém adere, replica, é mágico. Quem se engaja no trabalho de base sabe que pouco importa o mensageiro e muito revoluciona a mensagem.

Mas você foi me esvaziando, tirando minha força e minha confiança no que eu já sabia. Você se engajou, subiu no palco e se deslumbrou com as luzes. Eu, me alimentando da sua fonte de outras coisas que eu não conhecia, fui deixando que a mensagem fluísse por outro mensageiro. É preciso ganhar a vida, palanque não paga os meus boletos.

Mas começou a pagar os seus.

O desconforto que não faz sentido mandando recados e eu ignorando solenemente.

Seu deslumbramento com o palco, com as luzes, com a plateia te fez acreditar que a mensagem e a luta eram suas. Que os seus boletos eram mais importantes porque o SEU modo de lutar na SUA luta para passar a SUA mensagem justificava tudo.

(eita cheia de mágoa né? Hahaha experimente ser explorada por uma pessoa da sua confiança que prometeu não soltar a sua mão)

A incredulidade se juntou ao mero desconforto quando, de lá da coxia eu te avisei várias vezes: “ei, ninguém solta a mão de ninguém, lembra?” e você fingiu não me ouvir. Custo a acreditar que esse é o mesmo feminismo que eu advogo do meu pequeno degrau.

Não é.

Atravesso o teatro, as luzes acessas, o publico te aplaudindo. Você brilha no espaço que ocupou como pode.

Mas bem sei que as luzes cegam a gente e eu preciso ver sempre mais e mais. Em terra de cegos, quem vê o outro é que é rei.

Passo pela plateia lotada despreocupadamente, finalmente tendo transformado, com ajuda da incredulidade, o desconforto na peça que faltava para eu entender que meu trabalho tinha terminado com você.

Saio pela porta da frente. Abraços os amigos que fiz nesse caminho. Sorrio a quem se escandaliza e se indigna com quem apenas segue em frente.

No primeiro desconforto, lá atrás, eu já sabia que ia ser assim. A gente pode dizer: “oh, é a vida. Cada uma pro seu lado”.

Entretanto a verdade que pulsa em mim veio antes de mim. Deixo a bel no fim explicar e termino com o silencio de quem sabe as dores e as delicias de fazer a escolha certa.

Não, não foi “do nada”.

Muito veio

antes do fim para que

em atraso

nascesse urgente

o desejo da chegada do ocaso.

A sororidade feminista está fundamentada no comprometimento compartilhado de lutar contra a injustiça patriarcal, não importa a forma que a injustiça toma. Solidariedade política entre mulheres sempre enfraquece o sexismo[1] e prepara o caminho para derrubar o patriarcado. É importante destacar que a sororidade jamais teria sido possível para além dos limites da raça e classe se mulheres individuais não estivessem dispostas a abrir mão de seu poder de dominação e exploração de grupos subordinados de mulheres. Enquanto mulheres usarem poder de classe e de raça para dominar outras mulheres, a sororidade feminista não poderá existir por completo.” bel hooks (o feminismo é para todos: politicas arrebatadoras — cap. 3)

Eu leio mulheres negras.

[1]No inglês, o machismo é tratado por sexismo.

eu escrevo porque não sei o que penso até ler o que digo.❞ Flannery O'Connor - essas são as minhas groselhas cotidianas pós contemporâneas

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