#3 | Uma velha safada no caminho

Então, onde paramos? Ah! É mesmo, a história que a velha Ermenita me contou…

Oitenta anos e um tesão pra lá de Bogotá, não tinha ninguém que apagasse o fogo de Dona Ermenita, a velha vendedora de flores, com sua Bíblia na cesta das orquídeas, cravos e margaridas. Toda manhã, à 5h, Ermenita acordava, banhava-se e passava perfume na perequita mais esperta do que sua memória de oitenta anos; colocava um de seus vestidos vermelhos, que segundo ela, chamava atenção da clientela e era a cor do desejo. Ermenita nunca teve esperanças de encontrar alguém que quisesse o mesmo que ela, entendia que seu corpo já era idoso, sua pele flácida e seus lábios não tão atraentes quanto os das mais jovens. Porém, saía para seduzir a si mesma, sabia que era bela a sua maneira, orgulhava-se sozinha e isso bastava, se alguém quisesse coito, sorte seria. Os velhos dariam sorte se tivessem por uma noite aqueles seios fartos, mas o destino quis que um jovem de trinta e sete anos cuspisse da janela de um sobrado em uma de suas margaridas.

- Porco!

- Vadia!

- Indecente, posso ser sua mãe, não se fala assim com uma senhora!

- Vai trabalhar!

- Desce aqui que vou fazer você lamber cada uma dessas pétalas!

- Só se for suas tetas!

- Então que venha!

Desceu. Ermenita ficou aguardando.

No instante em que o jovem de trinta e sete anos parou na porta para enojar a velha, então um casal postou-se entre eles sem dar conta do que aconteceria ali, o rapaz pediu margaridas enquanto sua amada ficava com as bochechas coradas, abriu a carteira para tirar a nota de cinco reais… quando um vento forte soprou a nota de suas mãos, Dona Ermenita foi atrás do dinheiro e ao abaixar para pegá-lo “que bela bunda” — soltou num sussurro o jovem que a queria xingar. A velha voltou com a nota, entregou as flores, agradeceu e voltou para o jovem, acertar o que havia iniciado lá da janela do sobrado. Ao colocar o grande cesto de flores no chão, o decote do vestido vermelho salientou os seios fartos e “que belas tetas” — soltou num sussurro impossível de Ermenita não ter ouvido.

- Como ousa? — num tom indignado.

- Desculpe-me. — tentando amenizar a situação.

- Mas… — extrapiada.

- Desculpe moça. — avermelhando-se.

- Não sou moça. — acalmando-se.

- Desculpe, não tive a intenção de ofendê-la. — sincero.

- Devia ter pensado nos palavrões absurdos que falou para mim. — deu as costas, pegou a cesta e foi embora batendo a sola do pé mais do que devia.

Vendeu as flores do dia, voltou pra casa, dormiu. Acordou, o ritual, o perfume na periquita, o vestido vermelho.

Passando pela rua do jovem de trinta e sete anos, Dona Ermenita já fica de olho na janela do dia anterior, precavendo-se de vinganças. E, para sua surpresa, o jovem de trinta e sete anos esta na porta com uma xícara de café e torradas, ambos saindo fumacinha. A velha de vestido vermelho olha para o outro lado, mexe nas flores, tentando disfarçar que não está vendo aquele homem com todos os dentes brancos na boca sorrindo em sua direção. Ela apressa o passo e ele se joga na frente dela, com xícara, torrada e dentes brancos.

- Bom dia moça! — num tom delicado e encantador.

- Bom dia moço. — com desdém.

- Gostaria de me desculpar de ontem do modo certo, eu tinha fumado e fui cuspir, sem querer caiu em suas flores.

- Tudo bem, mas isso não justifica as palavras maldosas que falou.

- Se tiver algum modo de retirá-las, aceita um café?

Algum modo de retirá-las? Ermenita sente os pelos arrepiarem e dá uma olhada rápida no peito másculo por baixo da regata branca. E tomando pra si a crença de aquele é um de seus dias de sorte, ela esquece todo o dia anterior e aceita o café.

Sobem para o sobrado, três goles de café e trepam.

- Que bunda, que tetas!

- Aaaaaa uhhhhh Ohhhh Ohhhh Aaaaaaaaaaa Oh!

E assim, Marie, tive a melhor das minhas paixões, verdadeira, dentes brancos na perequita, que paixão!

Nelson Rodrigues nos disse que se cada um soubesse o que o outro faz dentro de quatro paredes, ninguém se cumprimentava. Quem sou eu para pensar que Ermenita nenhuma razão tem para acreditar que foi naquele momento quando descobriu a paixão? E com minhas escritoras vou descobrindo que a paixão pode estar numa trepada, numa chupada de dentes brancos, num convite para um café… e, ele estava certo, deve ser essa a real razão pela qual parei de receber minhas amigas das cartas, estou sabendo de cada coisa que tenho receio em dizer “oi” para o porteiro.

Dias desses, uma outra história me fez refletir por algum tempo, é a de Ruth, nunca me passou pela cabeça que isso, num local tão inapropriado, pudesse acontecer, só de tentar imaginar a cena fico ruborizada…

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