MÔNICA BY BALZAC

Mônica estaciona o carro atrás de uma igreja católica no bairro do Limoeiro. Ela está com 36 anos de idade. Desliga o celular e o põe na bolsa. Entra e sobe escadas na lateral da sacristia. Cai num corredor com várias portas, olha com cuidado a cada uma, encontra a certa, entra devagar.

MÔNICA
Com licensa, posso entrar?

MEDIADORA
Pode sim, é a primeira vez?

MÔNICA
Não, é a segunda… mas faz tempo que não venho…

MEDIADORA
Pode sentar.

-É uma sala de MADA (Mulheres que amam demais anônimas). Cadeiras forram as paredes da sala, a mediadora está numa mesa á cabiceira do semi círculo, atrás dela, e por toda parte tem frases, orações e os 12 passos e as 12 tradições do grupo.

Uma companheira está no meio de um depoimento.

COMPANHEIRA INÊS
… e hoje tento, me esforço, mas ainda é muito difícil conseguir desencanar da ideia de controlar tudo! E todos! Meu marido, meus filhos, mas a cada dia tenho melhorado e me sentido muito melhor graças a esta sala, muito obrigada as irmãs queridas, todas.

TODAS
Obrigada Inês.

MEDIADORA
A sala continua aberta à quem queira falar.

-Mônica levanta a mão tímida e ansiosa. Lhe é dada a palavra, todas mulheres da roda a olham algumas a reconhcem. 
Numa das placas da sala está escrito que “tudo que é dito ali, e o que é visto e sabido ali, fica ali e não sai jamais dali.” Mônica lê essa frase, respira, e seu tempo começa a contar.

MÔNICA
Sou Mônica… (glup!) Sou Mônica… uma Mada em recuperação, boa noite.

TODAS
Boa noite Mônica!
Oi Mônica.
Olá Mônica!

-Ela tem 4 minutos para falar. Caso precise, receberá um minuto a mais para concluir.

MÔNICA
Bom… é engraçado começar assim… "sou Mônica". Primeiro porque vem a mente a música “dentucinha e sabichona” hehe. Depois porque… eu voltei aqui a esta sala porque eu sei que o programa ensina a sermos totalmente responsáveis por nós mesmas, e eu nunca me senti assim!

Desde o primeiro episódio escrito pra mim pelo meu pai, eu estou ligada com o Cebolinha! Desde a primeira tirinha de apenas três quadros! 
Agora com 11 anos de casada, eu não consigo mais diferenciar eu dele! Como poderei desta maneira ser independente e totalmente responsável somente por mim sem pensar nele? É impossível! Antes fossem só esses 11 anos… mas nosso relacionamento existe desde nossa mais tenra infância! Aliás, desde a nossa criação! Claro que o Cebolinha foi criado primeiro. Hunf! Um cachorro macho foi criado primeiro, o Bidú… esse mundo machista vem me consumindo cada dia mais…

Até hoje eu sou obrigada a ouvir das pessoas que tenho que ser “mais feminina”, que eu sou masculinizada. Isso tinha parado um pouco na minha juventude, mas agora na idade madura parece que voltou… A primeira pessoa que me disse isso foi logo a Magali! Minha melhor amiga, lá no início de tudo quando éramos crianças!… mas tudo bem eu já a perdoei por isso… A Magali também é vítima de machismo. Vive fazendo dieta, é ansiosa não para de comer, comer, engorda, faz dieta, engorda, tudo pra agradar aquele gordinho mercenário do Quinzinho, dono da padaria…

Tudo tinha melhorado pra mim, quando em maio de 2017, lançamos uma edição do quadrinho Mônica Jovem onde eu e Cebolinha finalmente parávamos com um relacionamento abusivo de mais de 30 anos, para iniciar um amor maduro. De lá pra cá foi só alegria…Vocês entendem né, eu sou um personagem de quadrinho, demoro mais anos que o normal pra envelhecer… Depois deste episódio eu deixei de ver o Do Contra…

( Mônica começa a chorar, irmãs passam o lencinho para ela, que seca as lágrimas e continua)

..que era um cara que desde criança gostava de mim e eu dele! Um dos últimos da turma. Me tratava bem, com respeito, a gente tinha muito em comum, essa coisa de ser diferente… Claro que ele sempre foi muito mais esquisito, mas ele me defendia das ofensas dos moleques da rua. Mesmo no Mônica Jovem antes deste de maio de 2017, nós namoramos um bom tempo. E sempre foi muito recíproco e divertido. Mas então o Cebolinha sofreu muito com a rejeição, vários episódios sofrendo por minha causa… sofreu de ver minha felicidade com o Do Contra, e os roteiristas o convenceram a resolver vir atrás de mim! Ele me iludiu, isso sim! Com todo tipo de fogos de artifício! O Cebola estava fazendo teatro com o Xaveco no episódio anterior, fez de fato um monte de estripulias pra me convencer… aquele falso…

(Colegas dão copo de água a Mônica que bebe, controla a raiva, e continua)

Voltamos a namorar. No fundo eu amava mesmo era o Cebola… fomos caminhando para casar, casamos, lá pra 2025 num quadrinho especial, o mais vendido da história do Brasil. Um estouro, uma felicidade. Mas no dia do casamento eu já saquei a megalomania do Cebola… na verdade eu sempre soube. O que eu não sabia, é que eu viraria co-dependente de sua megalomania incurável.

-Reloginho desperta, já passaram quatro minutos. Mediadora mostra placa á sala escrito “1 minuto a mais”. Mônica desembesta a falar.

MÔNICA
Agora aquele peste daquele homem continua agindo como um moleque de cinco anos de quadrinhos infantis! Tenho que cuidar dele! Temos uma relação icestuosa! Na vida real somos irmãos!!! Não tem mais aquele amor que tínhamos, mas só brigas como antigamente, brigas diárias por qualquer coisa! E eu acabo morrendo de vontade de ver o Do Contra que continua solteiro, lindo, surfando na Nova Zelândia. Ele só aparece na editora pra receber, pegar a grana e já sair pra viajar de novo! Eu me sinto gorda só de olhar pra ele.

Ele me marca nas fotos do instagram, um Instagram antigo que tenho… Enquanto o Cebola ainda me chama de dentuça, diz que eu sou a “dona do mundo”, que eu “penso que domino a casa”, some algo da geladeira ele sugere que eu que comi e que por isso estou “deste tamanho todo”, aí eu fico nervosa e não consigo mais emagracer! A gente briga por qualquer bobagem. E lá vai ele jogar na minha cara os anos a fio em que eu batia nele com meu coelhinho. Ele nunca esquece essa merda desse coelho. Não pode ter uma brecha que ele fala dos hematomas, e das vezes que quase morreu, e desmaiou, e que tem enxaqueca provavelmente por culpa das coelhadas que eu dei e etc etc a mesma ladainha toda vez!!!

Mas quem é que sustenta seus planos infalíveis? Que só falham! Aquelas ideias de jirico que ele tem com o Cascão até hoje?! Eu! Quer dizer… meu pai né! Como sempre meu pai! E todo império de roteiristas que acompanha a família Sousa desde Mogi das Cruzes como se fossem soldados do sistema feudal!

( Mônica volta a chorar, companheiras todas muito atentas e complacentes lhe dão mais lencinhos. Ela seca as lágrimas e assoa o nariz.)

For a que os dois (snif!)! O Cascão e o Cebolinha são viciados em jogo de computador, jogam dinheiro, voltam tarde… coitada da Cascuda, preciso trazer ela aqui!

Eu não aguento mais isso!!! Como vou ser responsável por mim mesma tendo que cuidar de dois filhos, mais o irmãozinho mais novo que me é o Cebola, companheiras?

-O reloginho desperta, passou o último minuto de depoimento de Mônica.

Como vou colocar meus princípios acima da minha personalidade como ensina o décimo segundo passo das Tradições de Mada?? Se eu sou a Mônica!!! Do Maurício de Sousa! Se eu largo o Cebolinha causo um colapso nacional! E eu não sei se o Do Contra ainda vai me querer, afinal o nosso relacionamento também é super abusivo e ele é um cara… Do Contra! Só quer quando eu não quero mais, só liga quando eu mudo o número! Só pode quando eu não posso.

-Mediadora sinaliza que Mônica deve parar de falar, pois já passou seu tempo extra.

MÔNICA
Eu agradeço que tenham me escutado e peço que me orientem quanto a esse décimo segundo passo, gente. Eu ainda não entendi. Sendo eu uma personagem, onde minha vida é definida por roteiristas, e não por mim mesma, como posso chegar ao décimo segundo passo? Se eu nem sei se existo. Provavelmente tudo isso aqui é algum novo roteiro… Eu sou uma mulher responsável por mim mesma, uma mulher que ama demais em eterna recuperação, ou um produto cultural do mercado editorial brasileiro? Estou confusa.

(vai parando de chorar e começa a se sentir aliviada)

É tudo muito confuso… esse machismo que nos torna um adorno do homem, um produto cultural… tá dificil irmãs, mas eu agradeço ter vocês e já acabei, obrigada.

TODAS
Obrigada Mônica!

MÔNICA
Conto com o sigilo absoluto das irmãs.

TODAS
Obrigada Mônica!

MÔNICA
Obrigada.

TODAS
Obrigada

MÔNICA
Toda vez que eu disser “obrigada” vocês vão falar “Obrigada Mônica”?

TODAS
Obrigada Mônica!

MÔNICA
Hahahaha! Como é bom estar de volta… vocês são ótimas minhas irmãs. Obrigada

TODAS
Obrigada Mônica!