RESGATE / SELF HIGH LOVE

Fui tomar um banho muito quente, desses que fazem o banheiro uma sauna, e do corpo um feto envolto a sangue acolhedor. Não chorei, já tinha chorado rios de lágrimas, não tinha mais força. Tinha feito escova no cabelo para estar com ele. Tinha botado um aplique para alongar para aparecer diferente, para ouvir dele "Nossa! Oque você fez? hahah! Você fica linda de qualquer jeito…" . Deixei molhar o cabelo mas só um pouco pra não precisar secar com secador. Tirei o aplique, lógico. Desfiz a mala, guardei o livro de tarô. Eu não iria mais viajar. Não irei mais vê-lo.

Passei a gilete em meus poucos pêlos, corpo todo ensaboado, com todo carinho e calma, como se fosse fazer sexo com alguém. Escovei os dentes, lavei bem o rosto, as orelhas. Eu estava fazendo amor comigo mesma, e não era masturbação. Meu corpo lisinho agora sem pêlos, passei óleo. Quando minha mente perguntava "Mas pra quê tudo isso, você vai de novo dormir sozinha, aquele idiota de novo brigou com você!", Eu mentia pra ela, minha mente, que iria encontrar outra pessoa só pra ela calar a boca.

Passei mais cremes. Fiz a minha unha enquanto ouvia Dustin O'halloran. Deus abençoe os pianistas. Minha mente: "você vai passar esmalte rosa choque pra ficar sábado a noite em casa?" Nem respondi.

Pra dormir escolhi uma roupa linda, e bem quentinha gostosa.

Eu preciso me libertar de um contrato que fiz com uma pessoa que tem prazer em me machucar. Era como se o banho e os cuidados que tinha comigo, servissem para limpar as feridas da alma, das palavras e atitudes que haviam me destruído. O ser do contrato praticamente me esfaqueou por todos os ângulos. Eu fingia ser forte como um europeu doido nas trincheiras de muito antigamente, que em guerra, avançava mutilado. Sem um olho, sem orelha, um quadro cubista. Pois eu passava a ser uma obra renascentista, eu mesma sozinha me metamorfoseando em mim mesma, mulher forte, linda e tranquila que sou. Muito amor envolvido.

Chequei no espelho se estavam todos lá. Sobrancelha, nariz, dez dedos dos pés e das mãos, meus dentes, minha língua. Toda parte material estava intacta. A dor que senti hoje foi tanta, que meu eu superior, parecia estar de fato constatando que meus pedaços físicos não foram afetados pelo veneno liberado. Veneno esse cuja dor de amor incompreendido, impossível, amor que não dá certo nunca, faz o cérebro liberar, entoxica a gente. Pois eu lentamente sentia estar me desintoxicando.

É muito bom saber que estou aqui. Que sou aqui. Que daqui pra frente esses pés, agora de unhas pink, untados de óleo e de todo carinho e gratidão que lhes devotei hoje, podem amanhã estar em qualquer lugar que eu os leve. Que eu os queira levar.

Estou tão apaixonadas por eles, que escolherei a dedo e com muito amor os novos espaços por onde irão pisar. E minhas lindas mãos… as beijo e com a mesma boca rezo baixinho para que elas não sejam ansiosas, mas sábias. Foram perfeitamente projetadas para dar e receber carinho.

Quanto aos contratos novos que hei de assinar, serão de amor, firmados pelo olhar, confirmados pelo ar de alívio e felicidade que sairá do meu peito, quente agora. Eu inteira me sinto quente agora, da cabeça aos pés. Do calor que eu mesma me proporcionei. Do amor que está, e é em mim e que transborda nesse momento.