Estamos todos presos numa ressaca ruim do Renato Russo em "V"

Verso 8, faixa 9: “Se a sorte foi um dia alheia ao meu sustento/ Não houve harmonia entre ação e pensamento”.

Um dia você acordou e o presidente do Brasil era o Michel Temer. É o vampiresco PMDB no comando. Depois foi ficando pior e o Geraldo Alckmin virou o homem do PSDB que melhor leu as ruas, elegendo no primeiro turno um cara que acredita que um país justo é aquele em que todos usam Ralph Lauren. Então, a Câmara dos Deputados passou em primeira votação a proposta de emenda constitucional que cria um teto para os gastos públicos, a PEC 241, com a proposta de congelar as despesas do Governo Federal, com cifras corrigidas pela inflação, por até 20 anos.
 
Tenho uma notícia ruim para você: não é um pesadelo, é a famigerada bad trip. Pior ainda, é uma viagem ruim de álcool do Renato Russo e o país está preso na monumental ressaca que o cantor (falecido em 11 de outubro de 1996, vinte anos ontem) registrou de forma mais explícita em “V”, o quinto álbum da Legião Urbana (o Pornography legionário). Ainda no verso 27 de uma trágica e pesada para os padrões russos L’Âge D’Or (no bom português, “Era de Ouro”, igual ao filme do Buñuel e Dalí), Manfredini derreteu-se admitindo o que eu e você sabemos: “Não tem volta por aqui, vamos tentar outro caminho.”

Todo grande artista de certa forma acaba se metamorfoseando em um Zeitgeist junto como tudo aquilo o que ele tenta combater. Com uns mais do que os outros, nos surpreendemos quando os anos se passam e os dois lados da moeda ainda se encaixam na forma em que vivemos no agora. Os retratos dos nossos tempos (em todos eles) cravam a ferro na nossa testa que não é o brasileiro que tem memória (ou que não tem), ridiculamente estamos parados no tempo.

Como disse antes, mais especificamente em “V”. O disco de rock progressivo da Legião lançado em novembro de 1991 não foi um dos mais vendidos - principalmente depois do grande sucesso “As Quatro Estações” -, o que o rendeu a alcunha de registro "difícil" da banda, sempre à mercê da persona de seu vocalista. Além de ser um dos maiores letristas da nossa geração, Renato era alcoólatra, abusador de drogas, depressivo, e teve como cenário responsável pela aura de “V” uma cereja do bolo explicada em dois fatores: tinha recém descoberto ser soropositivo numa época em que a doença podia e matava, e o país tentava não chafurdar diante de uma grande crise pós Collor - o tal primeiro impeachment brasileiro (nessa época a gente nem sonhava em ver esse cara ajudar a despachar o segundo nome do cargo no mesmo esquema - esse dia foi louco).

Metal Contra as Nuvens, com mais de 11 minutos, a música mais longa da Legião (até mesmo do que Faroeste Caboclo), de acordo com Renato, falava sobre o collorido, mas pouca gente parecia levantar essa bola quando se deparava com o medievalismo da canção. “Nunca ninguém falou sobre esse lado da letra”, amargava Manfredini em entrevista em 1994 sobre as críticas “preguiçosas” que o disco recebeu. A não ser, claro, quando as falas subjetivas tinham fácil relação. “Quase acreditei na sua promessa e o que vejo é fome e destruição”; “Existem os tolos e existe o ladrão” ou o seu próprio final lírico “tudo passa, tudo passará”.

O grande problema, segundo ele, era que além de falar sobre coisas que ninguém estava querendo ouvir, o disco pesado e triste aconteceu justo quando o Axé Music estourou no Brasil. “Mesmo assim, nessa contramão, consegui falar tudo o que eu queria, é nele que estão as melhores letras”, afirmou na época.

Se você chegou em 2016 e está lendo esse texto (já superou até as vogais do Axé aê aê aê aê ê ê ê ê ô ô ô ô ) e não está assustado, é porque não está prestando atenção. Pode chegar, a sofreguidão é coletiva.

Juntos, a gente vai caçando o papel que cada um merece no nosso próprio teatro de vampiros. Tem o inseguro, o carente, o contemplativo, o inconformado, o que só quer tomar uma pra aliviar a tensão (mas não tem mais dinheiro), o que tem medo, o que não tem medo, o que tá quase desistindo e o desempregado. Por falar nesse, no final de Setembro, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) divulgou sua maior taxa de desemprego da série da Pnad, que teve início no primeiro trimestre de 2012. São 12 milhões de desocupados no país até agora em 2016 (e contando) e se você não está desempregado, tem pelo menos um amigo que está. É o famoso “os meus amigos todos estão procurando emprego”.

A gente não voltou exatamente a viver como há vinte anos, mas a sensação de que envelhecemos um pouco mais rápido a cada conflito Petralha x Coxinha está aqui. Os grandes profissionais da corrupção continuam livres (alguns deles também assassinos), o que não nos deixa esquecer que a cara de pau nunca vai ter seu dia de vergonha na cara.

A ressaca de V é daquelas implacáveis, engov não resolve isso aqui. A gente ainda não (re)descobriu o Brasil, não perdeu ainda vinte em vinte e nove amizades (e teve 29 amigos outra vez), não celebrou totalmente a estupidez humana (a de todas as nações) não aprendeu a dizer Eu Te Amo ou fez um filme (o Kleber já, chama Aquarius, vai ver que é bom), não teve um dia perfeito (e simples) com as crianças, não pintou o sol que a chuva apagou com tijolo de construção na calçada, nem achou ainda o caminho para aqueles 12 passos do Só Por Hoje.

Não é porque a gente tá nos piores dias e tá foda não, provavelmente a gente vai encher a cara de novo porque somos autodestrutivos pela manutenção da espécie, mas você entendeu bem que mesmo nessa já suficiente passagem pelo trem do terror, quando o mundo anda tão complicado e o cenário político tão mais igual do que a mais alta velharia de sempre, são as pessoas pelas quais a gente decide deixar a segurança do nosso mundo que realmente vão fazer essa digressão valer a pena, certo? A mudança grande chegou, não precisamos dormir no chão. E, antes que eu me esqueça, Fora Temer.