Sobre a entrevista de Ellen Page

Ellen Page: 
Estou no Rio de janeiro, parece um paraiso urbano, e nós estamos aqui pra explorar a cultura LGBT — e o que elas estao enfrentando.
Jair Bolsonaro é um deputado de direita e uma das principais vozes do movimento anti gay no Brasil. E ele concordou em me encontrar.
Será muito interessante ter uma conversa honesta do por que ele tem tanta dificuldade em aceitar essa comunidade LGBT aqui.
Estou definitivamente estou um pouco nervosa, mas tambem interessada nele como ser humano, em ter uma conversa numa tentativa de entender isso.

Já na entrevista pro documentario (que pode ser visto completa, em ingles por enquanto, aqui: https://goo.gl/C9XQHr), ela começa:

EP — Eu li coisas que você disse que soam muito homofóbicas. 
Voce pode defende-las agora ou explica-las. Li num artigo que você disse que 
as pessoas devem tirar a homesexualidade de seus filhos na base da porrada. 
E estou querendo saber: sou gay, você acha que eu deveria ter apanhado quando criança para não “ser gay agora’?
Bolsonaro — Nao vou olhar pra sua cara e dizer “acho que voce é gay”. Pra mim nao me interessa. Você é muito simpatica — Se eu fosse cadete na academia militar e te encontrasse na rua, iria assobiar pra você. Tá ok? Muito bonita.

(ham? Nao interessa mas se mete contra os direitos iguais das pessoas gays e trans — e das mulheres que “nao deviam trabalhar”. Nao interessa, mas tenta valida-la com assedio, dizendo que se a visse na rua ia ASSOBIAR?..)

B -Acredito que grande parte dos gays é comportamental. Quando eu era jovem, falando em percentual, existiam poucos. Com o passar do tempo, com as liberalidades, com as drogas, a mulher também trabalhado, aumentou-se o numero de homossexuais. 
Eu costumo dizer tambem: se seu filho andar com certas pessoas, que tem certos comportamentos, ele vai achar que aquilo é normal.”

Recebi influencias de héteros a maior parte do tempo, a vida toda, e nao adiantou muita coisa pra ser hétero, não. Bolsonaro além de sectarizar grupos (como nao vivessemos de forma homogenia, ou nao pudessemos, visto que considera “anormal’’ — mesmo com evidências que sentimos naturalmente, independente de influencias)e assim também sectariza e julga as mulheres que trabalham, relacionando-as como um sintoma de algo anormal, como já fez em afirmações sobre não achar correto que trabalhem, inclusive.

Essa pessoa, como uma figura politica, age abertamente contra direitos básicos das mulheres e gays e pratica esse discurso homofobico, machista, em todos os espaços — E nos faz entender, por exemplo, a historia de luta de direito das mulheres e lgbt serem assombrados e subjulgados até hoje.
Antes a mulher não podia trabalhar ou estudar. Era submetida ao trabalho doméstico apenas e sem mesmo o reconhecimento deste como um, mas como uma obrigação (até hoje). Quando se pôde ter acesso de fato ao estudo formal, era limitado, mediado, como as áreas de atuação. Alem disso, não existia a liberdade de ir e vir sozinhas a qualquer espaço,menos ainda sobre a liberdade de exercer a própria sexualidade, ou mesmo fazer suas escolhas próprias. Em suma, não era possível desenvolver-se como humanas. 
Subjugar os corpos das mulheres e sua liberdade intelectual e física eram meios de controle violentos que foderam nossa história. A forma de como homens tem terror a mulheres que trabalham (ou ao feminismo, em outro momento) vem da autonomia alcançada, da emancipação possível. Essa autonomia nos faria “esquecer” dos homens, esquecer do ‘’dever’’ com eles. Quando, ainda hoje, trabalhar e fazer o trabalho doméstico é a realidade da maioria das mulheres, exerce-lo, mesmo sem igualdade salarial ou visão de equidade, foi algo conquistado. Essa conquista nos deu maior autonomia e assim possibilidade de assumir nossa sexualidade, seja ela qual for. Se uma mulher lésbica nao depende de alguem que limita sua sexualidade, é menos dificil assumi-la e correr atras dos direitos pra uma vida digna, por exemplo. O grande indicie de estupros e assassinatos de gays na história por perseguiçao de homofobicos nos diz muito sobre como essas “liberalidades” de agora ajudaram apenas a exercermos a sexualidade sem medo de coerçao, violencia etc. E ainda sim, isso nos persegue.

Ele ainda fala da droga como condicionante de sexualidade, equiparando essas condições (mulher trabalhar, drogas, liberalidades). O efeito da droga, segundo ele, é entao comparado a sensaçao da mulher que trabalha, ou seja, a autonomia. E tambem as liberalidades — a assimilaçao da lei sobre os direitos lgbt ou das mulheres, o reconhecimento dos mesmos direitos pra todos e todas. Em qualquer desses casos, se vê apenas a assunção da propria sexualidade, finalmente. Ele compara, no entanto, o efeito das drogas a pessoas em geral quererem outras do mesmo sexo. Isso nao faz o menor sentido, como a maioria do que esse infeliz diz.

EP.- Hm. É aí que está o problema. Voce nao acha que é normal. Voce afirma que pessoas deveriam espancar seus filhos gays, que voce prefere um filho morto do que um filho gay.
B- Quando um filho está muito violento, dando um corretivo nele, ele deixa de ser violento. Por que o contrario nao vale?
Se voce estimular desde criança as crianças, dizendo que é normal isso e é normal aquilo, seja la o que for normal, a criança vai praticar aquilo.

Esse cara compara assumir sua sexualidade com SER VIOLENTO. Ele poe como se a reação de filhos contra a ditadura de nao poder seguir sua propria sexualidade, é ser violento? Violento é impor sexualidade. Violento é porrada em criança pra ela seguir o padrao, como ele sugere. É crime, inclusive, essa porrada. Pais e mães baterem em seus filhos como forma de corretivo é criminalizado em decorrencia dos inumeros prejuizos fisicos e psicologicos que são desencadeados por esse tipo de conduta agressiva. É comprovado que de nenhuma forma de conduta desse tipo adiantaria qualquer pra qualquer assimilação consciente, apenas ocasionando diversas fobias, medos, irritações — e futuros problemas sérios. Essas agressoes só explicam uma total falta de preparo de pais e mães, que dependendo do caso, “resolvem” suas expectativas não atendidas por seus filhos, na porrada, e chamam de correção. Coerção. Coerção em normas que não adiantam: muitos, espancados ou nao por pais, assumiram sua sexualidade e seu gênero, por ser vital, essencial. Como esse cara diz gostar de mulheres e alguém impor o contrário seria injusto, contra seus direitos basicos. Mesmo que a psicanálise explique sua perseguiçao violenta e doentia ao pessoal lgbt e mulheres é de outra maneira diferente da que ele alega, devemos respeitar — mas naturalmente nao aceitar, já que vai contra nossa liberdade.

EP — E voce, achando que nao é normal, produz todo esse preconceito e todo esse ódio que acabam envergonhando as pessoas, porque outros discriminam. Essas pessoas acabam num quadro de depressão profunda e suicidio.

(sem contar a falta dos direitos, a violencia que sofrem, fisica e psicologica — pra alem dos sarros que escutam, infelizmente já naturalizados.)

B — Acho que voce foge, me desculpa, à normalidade. Nós precisamos ter um norte aqui. Voce vira, com todo respeito, a teoria do absurdo. Até por que voce com sua.. companheira ne, nao geram filhos. Se gerar, vai depender de algo doado por nós. Heteros, homens heteros. Nao vou brigar contigo agora que se transforme em hetero nem voce que eu me transforme em homo.
Vamo levar nossa vida. (?)

Com esse discurso contra lgbt e atuações, como deputado, contra direitos das mulheres e de lgbts, ele aparentemente nao “leva a vida” respeitando qualquer orientação sexual, nem gênero. Aliás, nem etnia, segundo suas afirmações. Não sei o que ele respeita. Talvez homens brancos, heteros. De fora a essa regra, segue-se absurdos.

Somos a teoria do absurdo, haha. Essa ‘teoria’ se revela em toda historia da humanidade, nossa sexualidade. O que não se tem consciência, talvez, é o que permeia o subjugar qualquer sexualidade e gênero, a partir de determinado momento da humanidade, em função de normas sociais que servem a determinados grupos que os mantêm. Ex: normas e condutas exigidas da mulher q a preparam ao proposito dos homens e a reprodução — nossos direitos reprodutivos serviam a homens. O filho não era da mulher, se algo acontecesse. Isso servia ao proposito de manutenção de terras por filhos herdeiros. Esse tipo de manutenção cruel ainda existe, como no projeto do ‘estatuto da família’, que ignora configurações familiares diversas (duas mulheres e filho, pessoas criadas por avós ou qlqr outra configuração que não seja um homem e uma mulher) já que essas trazem prejuízo ao formato de distribuição de bens padrão, tanto pregado pela igreja, por exemplo.

Isso ainda existe se as mulheres ainda hoje não tem os direitos reprodutivos garantidos, e o que temos, sao ameaçados por legislaçoes de uma bancada fundamentalista. Tudo intrincado. Assim, dá pra perceber o por quê esse cara compara mulheres normais apenas as que podem GERAR FILHOS. As mulheres, heteros, que nao podem, nao sao normais tambem, fazem parte da teoria do absurdo. Homens que nao podem (ele mais velho) nao será normal, tambem. O que é realmente absurdo é ainda ter que lidar com esses disparates antidemocraticos e sofrermos (muito) com eles.

Obs: Em alguns paises, a maioria dos doadores de esperma sao gays ❤.

EP — Como uma pessoa gay, se eu puder fazer voce se sentir melhor com esse medo que voce parece ter, te digo: eu nao quero que alguem que nao seja gay, vire gay. Eu quero que gays que estejam sofrendo no armario com desejo de suicicio fiquem é bem consigo mesmos, amem a si mesmos. Nao quero que quem nao é gay, vire. Com exceção da Kate Winslet.

B — Eu to rindo mas nao sei o que ela falou ali.
EP (narração): Piadas a parte, Bolsonaro é um político com grande poder e influência. E é devastador saber que uma pessoa com tanta influência tem tanto desdenho com a comunidade gay.

Nao é só desdem, é perseguição, atuação contra. Não só gays, mas toda a comunidade LGBT, e todas as mulheres também. E é mesmo devastador.

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