A Desqualificação das Minorias como Forma de Conquista

Existe hoje uma ideia de que somos frágeis, incapazes. De que não conseguimos andar com nossas próprias pernas, pensar com nossas próprias cabeças e atingir nossos objetivos com nossa própria força. Somos inferiores.

Trataram assim os judeus, as mulheres, os negros, os indígenas. Agora é a nossa vez. É a vez dos gays.

Somos inferiores. Não podemos pensar, não podemos opinar, não podemos criar nossas próprias ideias. Estamos acorrentados aos nossos salvadores. Ainda bem que eles existem para nos proteger de nós mesmos. Ainda bem que eles existem para nos calar e apontar o caminho correto, o caminho da verdade, da salvação divina.

É como se as minorias — como eles chamam — fossem incapazes de saber o que é melhor para elas mesmas. Para isso servem os movimentos sociais: para ensinar o caminho a ser seguido. Sem contestar, amiguinho. Apenas siga o caminho que os mestres estão indicando e você será salvo.

Essa poderia ser a estratégia de grupos religiosos, de seitas ou até de sociedades autocráticas. Mas isso ocorre aqui na nossa democracia liberal. Eles decidem por nós em quem devemos votar, no que devemos acreditar e nas frases de efeito — recheadas de dados mentirosos e confusos — que devemos propagar.

Você já deve ter ouvido que “gay de direita é um absurdo”, ou que “gay reacionário é muito feio, coleguinha”. Essa última frase foi usada pela UNE — União Nacional dos Estudantes. Tempos atrás o Humaniza Redes usou do mesmo argumento raso para dizer que os gays deveriam apoiar Dilma Rousseff contra “o golpe”. A mesma Dilma que disse ser contra “propaganda homossexual e de escolha sexual em escolas”.

Para eles, nós não somos gente, não temos inteligência, não somos humanos. Somos, única e exclusivamente, massa de manobra. Gay não pode pensar, gay não pode ter opinião. Gay tem que baixar a cabeça e apenas repetir o que eles mandam. Pela frente, amor e democracia. Pelas costas, acordos com a bancada evangélica em troca de poder e influência na máquina pública.

E ai de você se criticar, achar errado ou desviar do caminho da salvação. Você será execrado. Será um gay “heteronormativo”. Não ouse dizer que não concorda com os “representantes das minorias”, caso contrário você corre o risco de ser excluído do clubinho.

Pra eles, nós somos apenas peças do seu complexo jogo de poder. Não importa se é um gay, uma mulher, um negro ou um indígena — você não pode se aliar ao inimigo deles, você não pode discordar. Você é inferior e deve ficar quieto.

Só somos lembrados na hora da foto, da propaganda, da “representatividade”. Passam o dia procurando em fotos de seus inimigos a tal “representatividade”, como se ideias pudessem ser representadas por condições físicas, biológicas ou sexuais.

Caros amigos, gostaria de lembrar a vocês uma coisa: “representatividade” não enche barriga, não paga conta, não alimenta família e nem acaba com a fome. Enquanto você se preocupa com os estereótipos e com a vida alheia, nossos semelhantes seguem desempregados e passando necessidades. Você se preocupa em criticar as aparências, enquanto silencia a respeito dos erros cometidos em nome do “bem maior”. Não existe bem maior que a liberdade.

Servimos hoje e seguiremos a servir, por um bom tempo, como meios de se obter o poder. Obter para dividir as pessoas, assaltar as instituições e destruir o verdadeiro progresso que só a liberdade pode nos oferecer. Enquanto fingem se preocupar conosco, seguem fazendo a limpa nos cofres públicos e acabando com o futuro de todos — incluindo o futuro das minorias.

Nós não somos frágeis. Nós não somos inferiores. Eu poderia citar como os gays, através do seu próprio esforço e do seu mérito, alcançaram postos de grande relevância no mundo todo, seja no poder público ou privado, mas irei apenas citar o fator chave que permitiu isso: a liberdade. Sem liberdade não há progresso — nem pras minorias, nem pras maiorias, seja lá o que isso signifique.

Não precisamos ser salvos. Não precisamos nos mobilizar para defender quadrilhas e grupos criminosos. Não somos massa de manobra. Não somos idiotas úteis. Não somos menos que vocês. Só há uma pedra no nosso caminho: o preconceito. E isso que vocês fazem conosco é o pior dos preconceitos: acreditar que precisamos de vocês para lutarmos por nosso futuro.

Artigo originalmente publicado pelo Instituto Atlantos


Willian Souza é estudante de graduação em economia pela UFRGS e membro da Executiva do LIVRES RS

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