O escritor mais odiado do mundo

Publicado no Expresso de 8 de junho de 2016

Michel Houellebecq

Na vida de Michel Houellebecq, que pode ter 56 ou 58 anos, há coisas que acabaram. A rotina de uma casa modesta num bairro de Paris dos que nunca estiveram na moda. Os jantares pré-cozinhados comprados no supermercado. As saídas e entradas na cidade sem que ninguém note. Uma ida a um restaurante, a uma exposição, a um café, a uma livraria. A liberdade, enfim. Michel Houellebecq é célebre como uma estrela rock, mais célebre ainda que o rocker Iggy Pop, que é um admirador e que fez um álbum baseado nas escritas de Houellebecq depois de lhe dizer que não conseguia ler outra coisa. A admiração é mútua e Michel Houellebecq raramente admira alguém ou alguma coisa. Antes da polémica de “Submissão” era famoso, muito, e perseguido, bastante, mas não viajava com proteção policial constante. Depois do atentado do “Charlie Hebdo”, cometido no mesmo dia em que o romance era lançado (para os que vivem no planeta Marte, aqui se esclarece que o romance trata de uma França onde um candidato muçulmano moderado ganha as eleições e trata de impor uma sharia suave à República, com a colaboração dos socialistas e dos vira-casacas), a proteção tornou-se obrigatória.

(…)Michel Houellebecq é um solitário que gosta de observar os outros sem ser reconhecido. E é uma criatura que se reconhece pela extrema fealdade, que os anos acentuaram por gosto próprio, visto que concede à aparência e aos cuidados com a roupa ou a beleza o mesmo desprezo que concede à comida. Quer isto dizer que come para se alimentar, pouco, com preferência pela charcutaria, e que não compra roupa. Beber é outra coisa. Nos anos verdes aparecia embriagado, mas agora parece ter reduzido os vícios ao tabaco. Fuma cigarros eletrónicos, uma novidade. Dantes fumava quatro maços por dia. Michel Houellebecq foi um mal-amado, rejeitado pelos pais, rejeitado pelos escritores. Não será para ele a solidariedade que rodeou Salman Rushdie depois da fatwa ou a reunião internacional do Pen Club com cartas dos confrades a defender a liberdade e a elogiar-lhe a prosa, a inteligência e sensibilidade. Houellebecq é definido como um anti-humanista, o que quer que isto signifique. Depois de “Submissão” e do “Charlie Hebdo”, só os amigos de Houellebecq apareceram a defendê-lo, e são poucos. Um deles é François Nourrissier, da Academia, que se bateu pelo Goncourt do autor. O outro é Frédéric Beigbeder, um típico parisiense elegante, definido como um dos que só usam caxemiras de triplo fio, e um dos raros que penetram no círculo restrito do escritor ameaçado e retirado de circulação. De resto, choveram as críticas e os ajustes de contas com um homem dotado de um talento raro e que sabe que o tem, o de escrever sem mácula. E pensar ainda melhor. É natural que ele tenha uma corte seleta, como todos os grandes escritores, mas ninguém dirá muitas palavras porque o medo impera. E nunca Houellebecq foi tão manso para com o Islão como neste livro, o que demonstra que ou não o leram ou não o souberam ler, ou aproveitaram o pretexto para lançar o homem às feras.

Gostar de pessoas parece não ser a sua especialidade mas nesta conversa o moralista é equivalente ao humanista. A ideia da Europa unida repele-o e acha que a França se dissolve molemente.

Há quem o acuse de ter construído, de ter querido esta mitologia. Mostrou-se no cinema, na música. Faz o seu teatro.
Seria difícil fazer isso, construir. Seria preciso escolher fazer isso. Seria muito difícil para mim fazê-lo, ou conseguir fazer isso. Compreendo a ideia mas não seria capaz. Não seria capaz.

E os guarda-costas e polícias? Num certo ponto Salman Rushdie tinha uns quinze ou vinte a guardá-lo quando se deslocava a um país.
Não estou nesse ponto mas sim, perturba muito a vida.

Se quiser ir ver a cabeça do cão de Velázquez ao Grand Palais, digo isto porque quando o seu cão morreu teve um grande desgosto, ou beber um copo num bar, pode? 
Sim, se for com pessoas, se tiver pessoas à minha volta.

Anda sempre com entourage? Pode caminhar na rua sem ser reconhecido?
Não, não posso. E tenho sempre pessoas comigo, sim, o que não é bom. Não é uma coisa que me agrade. Sou demasiado conhecido.

A celebridade pesa? Começou há muito, essa celebridade?
A partir de um certo ponto, pesa. Muito. Sempre houve a celebridade, há muito tempo que vivo com isso, mas só se tornou incómodo depois de “Submissão”.

Leio-o há muito tempo e quando publicou “Plataforma” disse coisas verdadeiramente violentas sobre a religião muçulmana. Disse-as em entrevistas e disse-as no livro. Escreveu que o Islão é “uma religião que só podia nascer num deserto estúpido no meio de beduínos sujos que não tinham mais nada do que fazer, perdoai, senão sodomizar camelos”. E isto em 2001, ano do 11 de Setembro. Foi perseguido nos tribunais e acusado de racismo, absolvido. Nunca sentiu perigo físico?
Não.

E agora, com um livro que é tudo menos islamofóbico, porquê a polémica?
Porque penso que este livro é pior do que isso. Huuuuummmmmm… É difícil explicar mas o livro põe o dedo num medo europeu. O medo de que a Europa se torne um continente muçulmano.

Isso é um medo real ou é um medo real em França?
Não somente em França. É real em países onde há presença muçulmana, real na Alemanha, real na Itália, na Espanha… e é real mesmo em países onde não leem o meu livro.

Isso estava na sua cabeça quando o começou a escrever?
Não, veio depois.

Tornou-se um dos pilares da cultura francesa, um intelectual comparado a Gide, Camus, Sartre, uma linhagem de ilustres responsáveis. Como é que pode ser irresponsável? Pode continuar a ser uma criança enraivecida? Há quem diga que está demasiado velho para isso, uma coisa que normalmente se diz das mulheres.
Não é verdade. Pode sim, pode ser-se um intelectual agressivo e irritante até à náusea.

Teve uma infância difícil. O que é que lhe faz mal, na vida?
Muita coisa me fez mal. O sofrimento físico, sim.

E a estupidez humana, a parvoíce?
Não, já estou habituado.

Escrever todos os dias, com disciplina? Quando começa um livro interrompe?
Todos os dias, sim. Ou não. Não interrompo. Interromper é a catástrofe.

Começa com quê? Uma ideia?
Normalmente, é com frases. Não uma mas várias frases, uma série curta.

Um parágrafo? Um verso, como na poesia? 
Sim. Um bom parágrafo seria bem bom.

Revê muito? É minucioso?
Muito minucioso. Revejo muito. Corrijo.

E o momento de entregar o livro, declará-lo terminado?
Passo mal. Mal quando entrego o manuscrito e mal quando corrijo as provas. É a última hipótese.

Responde a gente que lhe escreva, leitores? Tem interação com os seus leitores, atendendo a que é um autor de culto, com clube de fãs?
Sim, fico contente que as pessoas fiquem contentes.

Mistura na ficção os pensamentos de Pascal com pratos pré-cozinhados em microondas. Raro. Os leitores identificam-se com qual destes elementos? As ideias? Ou o quotidiano? A monotonia do quotidiano? O microondas?
Não sei. Penso que as pessoas se identificam com um cenário que reconhecem, elas identificam o seu próprio mundo. Claro que se identificam com uma personagem mas o mundo em que ela se move e que as pessoas reconhecem como seu é importante.

Pode ser-se um autor sem nada ver?
Ah, sim, basta ver a quantidade de autores que há por aí. Autores que em vez de escreverem sobre coisas que existem encenam lugares-comuns. Pensam o mundo como um lugar-comum. Atapetar o mundo de atenção é importante.

A atenção extrema é uma qualidade dos infelizes e dos solitários. Quando se está muito entretido não se vê nada em volta.
Isso é muito certo. Quando se observa a vida das pessoas é preciso não estar a pensar na nossa. Não estou certo de que seja uma questão de solidão ou infelicidade. O essencial é não estar demasiado preocupado com as coisas pessoais. E não ter muitas preocupações. Coisas práticas para resolver. Chatices. Para se ser uma espécie de observador neutro não se pode estar enfiado em si mesmo. Não é muito bom ser-se infeliz. Quanto à solidão, há muita gente que me fala dos problemas deles, que me fala da sua vida para se fazerem viver como sujeitos de um romance. Como sujeitos de um autor.

E não é preciso saber pensar? Além da atenção? Você escreve romances de ideias.
Não. Muita gente consegue fazer isso, pensar. Não é o mais difícil. Muita gente desenvolve pensamentos a partir de ideias que foram buscar a outros. Ideias feitas. É fácil, há muitos livros escritos assim. Observar o mundo real é o que mete medo a toda a gente.

Vivemos num mundo mediático, mediatizado, que é um jogo de espelhos de ideias feitas.
Mas além disso fica a vida real das pessoas. E vê-la não é fácil.

Escrever a vida real no mesmo sentido em que Balzac escrevia sobre a vida real das pessoas?
Sim, Balzac fazia isso. Pode-se sempre teorizar, teorizar não é um problema, mas há que ter uma base real.

Nos seus livros, vê-se que quando quer tratar um tema, a física de partículas, o turismo sexual, o mercado da arte, a vida académica, etc., que o estuda e investiga metodicamente. Até à exaustão. 
Sim, faço-o de propósito. Investigo as coisas, os meios a que não tenho acesso direto. A polícia (em “O Mapa e o Território”) a universidade (em “Submissão”)…

Isso não o maça? Ou fá-lo com prazer?
É problemático. Porque estou a suportar ideias feitas. São zonas de ideias feitas que nada têm a ver com a realidade.

Estudou Biologia. A sua inteligência é científica, se posso dizê-lo. Experimenta, usa o método científico para testar e negar a hipótese. E tem uma mente matemática, lógica. Tal como Coetzee, que é um matemático, e que é um escritor que admira.
Isso não sei. Não estou consciente disso.

É um escritor perigoso, que escreve no fio da navalha. O que podia tornar-se insuportável ou asqueroso é redimido pela forma. A forma exalta o conteúdo execrável. “Lolita”, de Nabokov, é um livro escrito assim. Perigoso. À beira do abismo. Disto tem consciência? Deste risco?
Sim, estou consciente do risco, quero o risco. É uma questão de disciplina que consiste em evitar a autocensura.

Os escritores, os grandes escritores, são muito amados. E por isso tudo lhes é perdoado. Têm um ego brutal, idolatria, groupies como as estrelas rock. Não se podem queixar.
Não acho que me perdoem assim tanto. Em França, pelo menos. Não duvide de que sou detestado.

Não será uma consequência do elitismo do meio intelectual parisiense? Das regras desse meio que você infringiu? No resto do mundo não creio que o detestem.
Sim, é no nosso país que somos verdadeiramente detestados.

É uma tradição, quase. Os grandes escritores são detestados no seu país. Os Nobel, sobretudo. Saramago era detestado em Portugal. Coetzee saiu da África do Sul. Martin Amis saiu da Inglaterra. Ser detestado é melhor do que ser unanimemente celebrado. Só os medíocres amáveis são amados por todos.
Concordo. O que quer que seja não há nada que eu possa fazer.

Diz-se que é um anti-humanista. O que quer dizer que o Nobel nunca virá?
É uma consequência. O humanismo é um bocado curto como filosofia.

Neste momento egocêntrico da história do mundo, o que é o humanismo?
Uma lengalenga oca.

É fácil ser-se humanista mas não é fácil amar as pessoas.
É bem visto ser-se humanista.

Neste momento, a sua preocupação maior, o seu tema, acaba por ser a política, e a Europa, ou a política da Europa. Não era um tema seu e começa com “O Mapa e o Território”. Uma Europa na idade pós-industrial.
É verdade, começa. Neste momento, é o que me interessa. Mais do que uma Europa, uma França pós-industrial. É mais a França do que os outros países que não têm os mesmos recursos.

A França não tem problemas de ricos? Quando se olha para outros países, e basta olhar para o meu, Portugal, vemos problemas bem maiores do que os estados de alma franceses.
Não é verdade, não é nada verdade. Não, não!

Em França vive-se bem. Talvez não sejam felizes, os franceses, mas não vivem mal.
Não vivem nada bem. Pode viver em Paris, mas em França as pessoas empobreceram muito. Significativamente.

Velhos, novos, imigrantes… ou toda a gente?
Sobretudo os velhos. Dizer que a França tem problemas de ricos não é verdade, sobretudo se considerarmos a experiência vivida das pessoas. O que as pessoas vivem não é a quantidade de dinheiro que têm mas a evolução da situação. Estão à beira de serem engolidos, eliminados. Há muita gente no limite da pobreza. De ano para ano. Não é a mesma coisa ter a mesma quantidade de dinheiro quando se sobe ou quando se desce. E os velhos estão na linha descendente, e muita gente com eles.

Acha que a União Europeia, com tudo o que se passa agora com a Grécia ou os países do sul, vai acabar mal?
Vai acabar, isso é certo. Espero bem que este pesadelo acabe.

Porquê pesadelo?
Porque é um pesadelo, uma ideia muito má.

Os gregos estão numa situação horrível.
Francamente, estou-me nas tintas para os gregos. Preocupo-me com a França.

E como é que a Europa pode acabar? Com violência ou democraticamente, com eleições e referendos?
Vai fazer-se molemente, pela dissolução progressiva.

Sempre pensou assim, foi contra a União Europeia? Bruxelas vai fazer os possíveis por manter-se, sobreviver.
Sempre fui contra, uma péssima ideia. Sim, Bruxelas… vai ser duro escavacar o sistema.

É estranho ouvir um escritor dizer estas coisas. Pode dizer o que quer. Pode dizer a verdade. Um político não pode nunca dizer o que pensa.
Penso que os políticos pensam muito pouco.

Não há ninguém que admire em política? Nem Mitterrand?
Não, nada. Ninguém. Não me parece que algum deles tenha refletido sobre a História do seu país. Ou lhe tenha dado importância.

A religião. A sua atitude mudou. Acha possível ter uma sociedade coesa e coerente sem religião?
Dificilmente.

Resta o problema da fé, que é uma busca pessoal e não coletiva.
Mas aí precisamos de uma fé ligeira, uma fé que abarque muita gente. É preciso procurar.

Uma fé ritualística, litúrgica? 
Sim.

Isso já existe, as pessoas casam-se pela igreja sem fé, pelo ritual. Podemos algum dia ver um Michel Houellebecq convertido?
Vamos ver.

OBS.: essa é apenas uma parte das perguntas. O artigo completo está em http://expresso.sapo.pt/cultura/2015-06-08-Houellebecq-Querem-ver-me-morto