Resenha da peça “Sua Incelença Ricardo III”, estrelada pelos Clowns de Shakespeare — Natal-RN

Trabalho para a disciplina Português Instrumental, profa. Brígida Queiroz

Sua Incelença Ricardo III é uma peça interpretada pelo grupo potiguar Clowns de Shakespeare, na ativa desde 1993. Adaptada por Fernando Yamamoto e dirigida por Gabriel Villela, o espetáculo projetou o grupo internacionalmente e ganhou vários prêmios. Oito atores — Camille Carvalho, César Ferrario, Diana de Freitas Ramos, Dudu Galvão, Joel Fernandes, Marco França, Nara Kelly, Paula Figueiredo, Renata Melo Kaiser e Titina Medeiros — se revezam nos cinquenta e quatro personagens do texto de Shakespeare.

Ricardo III foi escrita no século XVII e foi inspirada na história da ascensão de Ricardo, duque de Gloucester, ao trono da Inglaterra. O contexto do enredo é a fase final da Guerra das Duas Rosas, em que as casas Lancaster e York disputaram o comando do reino por cerca de trinta anos.

Inicia-se com o relato de Ricardo contando todas as suas tramóias para conseguir a coroa inglesa. Ele revela como provocou a morte de seus adversários Lancaster e casou com a viúva de um deles; também articula uma intriga entre seus irmãos, o rei Eduardo IV e o duque de Clarence, o que faz com que este seja condenado à prisão na torre de Londres e posteriormente morto por ordem de Ricardo. O duque de Gloucester aproveita-se, ainda, da frágil saúde do rei para tramar contra a rainha e seus sobrinhos, ao ponto da própria mãe amaldiçoá-lo por tanta vilania.

Ricardo, com ajuda de assassinos e traidores, consegue a almejada coroa e aí começa sua derrocada.

A rainha Marguerite, viúva de Henrique VI, conspira com os franceses liderados pelo conde de Richmond. Na véspera da batalha, Ricardo tem sonhos de mau agouro, ligados às pessoas a quem ele prejudicou. Todas as maldições caíram em Ricardo e todas as bênçãos foram para Richmond. Apesar de estarem em menor número, os franceses derrotam as tropas inglesas. Buscando fugir, Ricardo, desesperado, brada: “meu reino por um cavalo!” e é morto por seus próprios homens.

Sua Incelença Ricardo III é a versão abrasileirada do clássico shakespereano que se mantém fiel ao texto original ao mesmo tempo em que combina elementos da cultura popular nordestina e da cultura pop. Além disso, o espetáculo é montado em um formato que remete o picadeiro circense, algo que é lembrado pelas máscaras e pela maquiagem que os atores utilizam.

Essa mesclagem também está presente no figurino, que manteve os tecidos pesados e escuros do barroco nas vestimentas, misturados a meias coloridas e itens regionais como a roupa do assassino Jararaca, que evoca tanto um cangaceiro — com uso do couro — quanto um matador de aluguel — óculos ray-ban.

A música possui um papel importante na condução da narrativa, com uma fusão de MPB, repente e rock’n’roll. O elenco entra em cena ao som da música Daydream, o que, a meu ver, é uma grande ironia, já que essa canção é considerada um símbolo da geração “faça amor, não faça guerra” e o que menos há na história de Ricardo III é amor, pelo contrário: são ardis, embustes, mentiras, assassinatos. Bohemian Rhapsody, da banda inglesa Queen, é cantada após um lamento da mãe de Ricardo já no terço final da peça, no que a princípio seria uma queixa do duque de Gloucester se transforma na voz da mãe quando o ator que a interpreta retira a peruca e “incorpora” Fred Mercury.

Do Nordeste, são destaque as músicas Assum Preto, Acauã — de Luiz Gonzaga — e A Rosa Vermelha — de Alceu Valença — esta última usada no pedido de casamento de Ricardo a Ana Neville e é interessante porque fala das rosas vermelha e branca, símbolos dos Lancaster e dos York, respectivamente.

Ainda em relação à música, a potência vocal dos atores e o domínio dos instrumentos chama atenção. Mais que um mero abrasileiramento, a peça Ricardo III tornou-se um musical que consegue agradar conhecedores e não conhecedores do texto de Shakespeare.

Sobre os personagens, destaco:

  • Ricardo surge grunhindo ferozmente e simulando masturbação, o que reforça seu caráter animalesco.
  • Cecília Neville, mãe de Eduardo, Jorge e Ricardo, aparece como uma estátua-viva que dá a entender que era uma figura passiva frente às disputas de poder empreendidas pelos filhos.
  • Jorge Clarence é uma cabeça e braços de boneca manipulados. Ele, que foi manipulado primeiramente pelo rei Eduardo e depois por Ricardo, que fê-lo acreditar em sua lealdade.
  • A coroa da rainha Marguerite se assemelha a uma coroa de espinhos.
  • Os príncipes filhos de Eduardo, na hora da morte, são dois cocos com rosto desenhado.
  • O prefeito usa o chapéu do Chapeleiro Maluco.
  • O repente cantado por Ricardo quando das mortes perpetradas por Jararaca é inspirado no cangaceiro de mesmo apelido.

Ricardo III mudou de forma, porém o conteúdo não foi alterado e sua história é atemporal, pois trata de um tema sempre atual que é a busca pelo poder e o uso da dissimulação para obtê-lo. Obviamente, é preciso considerar que o texto original foi escrito para uma monarca Tudor, dinastia que assumiu após a derrota dos Plantagentas (Ricardo III foi um último rei Plantageneta). Assim sendo, é claro que Shakespeare aumentou os defeitos de Ricardo e diminuiu os de Richmond; entretanto, aquele continua sendo mau, pois, por suas ações, subentende-se que os fins justificam os meios.

Quem puder assistir, assista, pois é um excelente espetáculo.

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