(Foto: Chichico Alkmin)

Fora da ordem

Alguma coisa está fora da ordem no Brasil. O candidato mais popular à presidência da nossa combalida República segue liderando as pesquisas de intenção de voto e, nessa toada, embora recolhido à cela de uma prisão, tem chance palpável de ser conduzido novamente à chefia do Estado — ou, se impedido, de eleger um seu correligionário. Ou seja, neste país em que quase tudo, da cobrança de impostos à ocupação dos espaços públicos, é feito em desfavor da massa, em que o sistema político busca de toda forma blindar-se do referendo popular — não é demais lembrar que temos um governo que se sustenta sem apoio do povo –, corre-se o risco de empossar, mais uma vez, um presidente escolhido pela maioria. Estranho laivo de democracia que, se bem sucedido, haverá de ser combatido, adiante, pela casta dirigente.

Neste momento, muitos se perguntam, perplexos ou admirados: por que essa resiliência do lulismo? Por que Lula, apesar de tudo, segue tão popular? Sem a pretensão da originalidade, e menos ainda de exaurir o tema, aponto para uma conjunção de fatores: 1) a lembrança ainda fresca dos êxitos da experiência lulopetista; 2) a colossal impopularidade do governo Temer, que representa, no fundamental, o desfazimento daquelas conquistas; e 3) a condução do impeachment de Dilma e da Lava Jato, que falharam em produzir a percepção de justiça — falhando, portanto, em colocar uma pá de cal no lulismo, em que pesem seu desgaste e contradições.

Limitado, por um lado, pelo salvo-conduto da “Carta aos brasileiros” e os compromissos que ela encerrava, além do pacto com o velho fisiologismo (representado pela aliança com o partido-empresa chefiado por Michel Temer, e que seduziu em demasia membros do próprio PT), mas por outro lado impulsionado pelo boom das commodities, o governo Lula, se não chegou a tornar o Brasil um país de classe-média, fez muito para combater nossa desigualdade social infame e abissal: por exemplo, combinou o controle da inflação e dos juros com valorização do salário mínimo e expansão do crédito, além de dar vida a programas como Bolsa Família; Luz para Todos; Minha Casa, Minha Vida; Farmácia Popular e aqueles que ampliaram o acesso à Educação. Todos, irrelevantes para o exíguo andar de cima, mas de valor inestimável para o vasto andar de baixo.

Faltou, sem dúvida, tornar essas iniciativas políticas de Estado, perenes, o que não significa que elas tenham sido inócuas, como testemunham tanto seus beneficiários quanto seus detratores.

É verdade que poucos atribuem a Dilma Rousseff qualidades destacadas como gestora ou articuladora política; por outro lado, ninguém logrou imputar-lhe alguma apropriação indébita de dinheiro público: a primeira mulher a presidir o Brasil passará à História com a excêntrica marca da honestidade. De resto, quem quer que tenha de fato entendido o que são as famigeradas “pedaladas fiscais” tem dificuldade de compreender porque elas não eram criminalizadas antes da gestão Dilma, e porque deixaram de ser após o seu impedimento. Deflagrado pelo notório Eduardo Cunha, o processo de impeachment, ou parlamentada, gravou na memória do país — e na sua imagem perante o mundo — a grotesca votação de 17 de abril de 2016 na Câmara dos Deputados, polvilhada de “salvadores da pátria” encalacrados com a Justiça.

Por falar em Justiça, a Operação Lava Jato, que trouxe de volta algo do espírito redentor do velho Tenentismo, e alcançou alguns feitos no combate à corrupção, não apenas cometeu excessos como o abuso autoritário das conduções coercitivas, a indução de delações e a inversão do ônus da prova, como falhou em produzir uma imagem de isenção e imparcialidade, fundamental para sua legitimidade. Seu foco, os fatos o demonstram, tem sido políticos ligados ao PT ou às administrações petistas.

Impune após o vazamento ilegal de áudios da presidente da República, o juiz Sérgio Moro tem sido pródigo em deixar-se fotografar confraternizando com políticos investigados por corrupção, além de dar mostras reiteradas de agir, em relação a Lula, menos como juiz que como promotor de Justiça. E, até aqui, o cerco ao ex-presidente conduzido pelos bravos rapazes de Curitiba tem produzido mais ilações — sobre sua possível conexão com desvios ocorridos na Petrobras — que provas irrefutáveis de malfeitos. Mesmo bacharéis na matéria têm dificuldade de explicar o que significa exatamente, do ponto de vista do Direito, um imóvel ser “atribuído” a alguém, e leigos como eu não compreendem como alguém pode ser punido por conta de “atos indeterminados”.

O resultado disso é que bateu-se em Lula, nos últimos tempos, como um padeiro bate a massa do pão — e o efeito, claro, foi seu crescimento. Desconectados do povo, que em geral desprezam e do qual se refugiam em salas Vips e escritórios refrigerados, nossas doutoras e doutores, togados ou não, e embriagados de privilégios — bem como jornalistas que, embora assalariados, se julgam sócios do patrão –, ignoram o seu imaginário, portanto desconhecem o que faz de alguém, em que pesem os defeitos que tenha, uma liderança popular.
 
 Há de ser por isso, insisto, que Lula, mais que o Judiciário e adjacências, segue sendo o protagonista do pleito de 2018. Não será surpresa se uma nova vitória eleitoral da centro-esquerda ensejar, adiante, a implementação de um “presidencialismo mitigado” ou o fim do voto obrigatório: a democracia é um fator de instabilidade numa ordem em que manda quem pode e desobedece quem tem juízes.