MAIS QUE ONZE

“any mans death diminishes me, because I am involved in Mankinde; And therefore never send to know for whom the bell tolls; It tolls for thee.” — John Donne (1573–1631)

Quando o avião da LaMia que levava a Chapecoense caiu, não foram apenas 71 vidas que deixaram o campo dos homens.

Foi-se também um lindo sonho, um momento mágico.

O time do oeste de Santa Catarina era o único do vasto interior brasileiro a estar no Brasileirão de 2016. Mais: havia chegado a uma final de competição internacional — e quem acompanha um pouco o mundo do futebol nacional sabe o quão raro é que um time tão longe das grandes cidades consiga ter espaço para ir tão longe.

A Chapecoense já era, há muito tempo, mais que onze — era Chapecó, Xanxerê, Xaxim… Milhares de pessoas, por todo o Oeste, por toda Santa Catarina, cuja imaginação foi capturada por uma visão que pareceria devaneio em 2009, quando o time chegou à Série D. A Chape fez com que muitos se sentissem parte de algo maior do que eles mesmos.

Então, quando eu leio ou escuto que o funeral devia ser reservado aos parentes, há algo em mim que compreende, mas estranha.

Sim, há a perda pessoal, devastadora. Projetos de vida a dois destroçados. Crianças que não terão a memória de seus pais. Tudo isto, e muito mais, precisa ser chorado, e precisa de respeito e reserva. Não há nenhum de nós que esteja em condições de dizer que compreende inteiramente o que sucede aos familiares.

O que defendo aqui nestas linhas embargadas é que todos aqueles que sonharam junto, que ajudaram a dar vida ao Mais que Onze, também têm direito a viver o luto. Diria mais: precisam. Porque a Chape conta com eles para ser fênix, e para isto esta gente precisa poder elaborar a dor. Só assim é que poderão transcender tanta lágrima.

Tenhamos compaixão, deixemo-los viver, deixemo-nos viver.